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05/10/2004

Médicos de "Nip/Tuck" dão pânico aos pacientes

The New York Times
Virginia Heffernan

Em Nova York
Divulgação

» Assista a trechos da série "Nip/Tuck", exibida no Brasil pelo canal Fox
 

"Nip/Tuck" existe para testar a credulidade das pessoas. O drama da Fox, cuja segunda temporada termina nesta terça-feira (05/10) nos EUA, arrancou da cirurgia plástica sua mais potente metáfora, ampliando-a a proporções grotescas. A primeira temporada da série vai ao ar pela Fox do Brasil às 22h das terças.

Um programa covarde e vaidoso sobre a desfiguração, "Nip/Tuck" faz lembrar de David Cronenberg, Nathanael West --talvez aquela história que se passa nos intestinos de um cavalo de Tróia-- e até Balzac. Quem perdeu a série até agora, talvez devesse enfrentar seu medo e começar a assistir.

Não que os medos sejam apaziguados. O episódio de terça-feira, um exagero que amplifica o aspecto de horror da série, termina com um acorde assustador.

"Nip/Tuck" apresenta os problemas gráficos de Christian Troy (Julian McMahon) e Sean McNamara (Dylan Walsh), cirurgiões plásticos depravados que dividem um escritório em Miami e uma paixão antiga pela mesma mulher, a esposa de Sean, Julia (Joely Richardson).

Cada episódio é altamente ritualístico, começando com a pergunta clássica dos médicos, "Diga-me o que você não gosta em você mesmo". Uma das cenas paradigmáticas do programa mostra um paciente na mesa de operações, perdendo a consciência. Entre a vida e a morte, a humanidade e a carne, o paciente paira, contando os números em ordem decrescente, a partir de 10; nesses segundos, ele pode honrar seus instintos animais e recusar-se a ser cortado. Mas nunca o faz.

Ryan Murphy, o criador do programa, disse em entrevista no ano passado que queria que "Nip/Tuck" fosse um "olhar brutal sobre as razões por que as pessoas se odeiam". Mas as preocupações de Murphy vão além da auto-depreciação e as conclusões de primeira ordem sobre os cultos americanos à perfeição.

É evidente que ele se deixa intrigar pelos ritos --um ciclo austero de indulgência, vaidade e punição-- assim como as feridas religiosas. (Uma paciente apareceu para um tratamento cirúrgico depois de apresentar as marcas de Cristo na cruz).

"Nip/Tuck" também dramatiza a responsabilidade da visão. Quando uma mulher bela e cega apareceu nesta temporada, ela prometeu mostrar o valor da alma sobre as aparências. Em vez disso, Christian, para quem sentir é ver e vice-versa, sentiu repulsa pelos olhos cegos.

Quase todos os episódios examinam as conseqüências da cirurgia plástica sobre as relações familiares: como interrompe a semelhança da família e dá curto-circuitos na sexualidade e no amor. O relacionamento de Julia com sua mãe, Erica Naughton (Vanessa Redgrave, mãe de Richardson) fica prejudicado pelo desejo de Erica de parecer sempre jovem.

A mãe que quer apagar os traços da maternidade de seu corpo assusta a filha. Na vida de solteiro de Christian, suas seduções crônicas de possíveis pacientes frequentemente acabam em desdém. Depois de ele cortar e costurar os rostos e seios das mulheres, elas lhe parecem patéticas.

Várias revelações novelescas nesta temporada --que Christian é pai do filho de Sean, Matt (John Hensley); que a filha de nove anos dos McNamara está menstruando; que a sinistra treinadora Ava (Famke Janssen) está dormindo com seu filho-- parecem ter sido criadas para perturbar a ordem biológica.

E, nesta temporada, uma namorada de Christian teve um neném que Christian tentou assumir como filho. Foi de dar pena: apesar de o bebê parecer negro, Christian, que é branco, tentava defender sua paternidade. As interações de Christian e Wilber, entretanto, formam a história de amor mais comovente da série. (E o relacionamento de Christian com Sean em segundo).

Os materiais cirúrgicos --estilete, serrote, osso, sangue, silicone, broca, narcóticos-- tornam-se elementos em nojentas alucinações, e o programa passeia entre uma estética modernista e gótica. Os diálogos podem ser surpreendentemente vazios, em um programa que obviamente é guiado por uma inteligência especial; eles evocam a monotonia e falta de profundidade do horror e do pornô. Mas "Nip/Tuck" também é engraçado.

As participações do último capítulo, de Joan Rivers, como ela mesma (quer desfazer todas suas cirurgias), e Alec Baldwin, como um personagem meio Marlon Brando degenerado, expressam as efêmeras intenções cômicas do programa. O clímax de uma história envolvendo Carver --um lutador com uma máscara de porcelana-- é menos engraçado.

Não é um final brilhante, mas é adequadamente excessivo, com elementos tipicamente bíblicos. Ele prova, acima de tudo, que o programa que poderia ter cansado produtores mais convencionais ainda excita Ryan Murphy, e isso é bom. Segunda temporada acaba quebrando clichês e vínculos familiares Deborah Weinberg

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