UOL Notícias Internacional
 

06/10/2004

Bush não mandou tropas suficientes ao Iraque

The New York Times
Jodi Wilgoren e

Elisabeth Bumiller

Em Washington
L. Paul Bremer, ex-autoridade civil americana no Iraque, admitiu que o presidente Bush não enviou tropas suficientes para prover segurança ao país. As declarações colocaram a Casa Branca na defensiva sobre a política no Iraque e levaram o senador John Kerry a expandir seu ataque a Bush como chefe das forças armadas, na terça-feira (05/10).

Os comentários de Bremer, feitos em dois discursos recentes, rapidamente passaram ao centro da campanha presidencial. Ele disse na Universidade DePauw, no dia 17 de setembro, que frequentemente levantou o problema junto ao governo e "deveria ter sido ainda mais insistente". Ele também falou na última segunda-feira (04/10) em uma conferência de seguradores na Virgínia Ocidental, onde aparentemente pensava que seus comentários não estavam sendo gravados.

Kerry tirou vantagem dos comentários, primeiramente divulgados nesta terça-feira pelo jornal "The Washington Post". Ele falou a uma platéia no Estado de Iowa que Bush "talvez seja constitucionalmente incapaz de se explicar ao público". Ele pediu que Bush assumisse seus erros no Iraque.

O governo, sem negar as declarações de Bremer de que pediu mais tropas quando chegou ao Iraque, em maio de 2003, disse que a quantidade de soldados tinha sido estabelecida pelos comandantes militares no país. Ao final do dia, Condoleezza Rice, assessora de segurança nacional do presidente, insistiu que as instruções de Bush aos seus comandantes sobre a quantidade de soldados era que dissessem quantos queriam que os teriam.

Se, em público, as autoridades do governo defenderam as decisões de Bush, em conversas particulares elas estavam furiosas com Bremer, a quem culparam nas últimas semanas por grande parte do que deu errado em Bagdá.

Mesmo assim, duas altas autoridades confirmaram que Bremer tinha pedido mais soldados antes de deixar Washington e assumir seu posto como chefe da autoridade da coalizão no Iraque. Elas também disseram que, ao chegar a Bagdá, ele repetiu sua opinião de que os EUA e seus aliados tinham engajado tropas insuficientes para a tarefa.

"A realidade é que Paul ficou insistindo no assunto, porque imediatamente observou que muitas instalações --até depósitos de armas-- estavam desprotegidas", disse uma alta autoridade que participou do debate mas insistiu no anonimato.

Kerry, martelando na política do presidente no Iraque, chamou as declarações de Bremer de evidência de que o governo tinha administrado mal a guerra. "Há uma longa lista de erros, e estou feliz por Paul Bremer finalmente ter admitido ao menos dois. O presidente dos Estados Unidos precisa dizer a verdade ao povo americano", disse Kerry a centenas de partidários em um ginásio escolar.

"Não sei se o presidente é constitucionalmente incapaz de admitir a verdade; não sei se é apenas tão teimoso que vai cair."

Além dos discursos de Bremer, Kerry citou observações feitas na segunda-feira pelo secretário de defesa Donald Rumsfeld, de que não tinha visto "nenhuma evidência forte ligando" a Al Qaeda a Saddam Hussein.

"Talvez o presidente Bush simplesmente não quisesse enfrentar a verdade e compartilhá-la com o povo americano", disse Rumsfeld. Posteriormente, ele emitiu declaração retirando os comentários que, segundo ele, "infelizmente, foram mal compreendidos".

"O cargo de chefe das forças armadas significa que você tem que fazer decisões para proteger as tropas e realizar a missão", disse Kerry. "Eu ouviria todos meus assessores e tomaria a melhor decisão possível. Posso lhes dizer isso: o general Shinseki pediu mais soldados e foi demitido. Essa é uma forma certeira de desencorajar muitas outras pessoas a falarem."

O general, que na época era o comandante do exército, disse em testemunho antes da guerra que seriam necessárias centenas de milhares de soldados no Iraque após a guerra e foi desdito por outras autoridades do Pentágono. Ele não foi demitido, mas teve dificuldade de relacionamento com a diretoria civil do Pentágono e foi pressionado a aposentar-se ao final de seu mandato de quatro anos, em 2003.

No Pentágono, as autoridades ressaltaram que Bremer, apesar de interessado na questão de segurança, não tinha autoridade sobre o número de soldados --assunto puramente da alçada dos comandantes militares.

"Qualquer opinião que Bremer expressasse em relação à capacidade das forças americanas no Iraque seria transferida aos comandantes militares e aos membros do Estado Maior das Forças Armadas, para sua revisão e consideração", disse Lawrence Di Rita, porta-voz do Pentágono.

"Antes, durante e depois da missão de Bremer, os comandantes militares e o chefe do Estado Maior acreditavam que os níveis de soldados americanos no Iraque eram apropriados, e essa foi sua recomendação ao secretário de defesa."

Em um discurso, na segunda-feira, a uma conferência de seguradores em White Sulphur Springs, Virgínia Ocidental, Bremer disse: "Nunca tivemos tropas suficientes em terra", nem para deter os saques imediatamente após a queda de Bagdá, nem para impedir a ilegalidade e a insurreição que se seguiram. O grupo divulgou partes das observações após o discurso.

Na Universidade dePauw, Bremer disse que: "A mudança mais importante --a única coisa que teria melhorado a situação-- teria sido ter mais tropas no Iraque no início e durante" a ocupação. Ele insistiu que expôs suas preocupações uma série de vezes dentro do governo, mas que "deveria ter sido mais insistente".

Suas observações foram divulgadas na página da Web da universidade. Bremer não foi encontrado para comentários.

Scott McClellan, secretário de imprensa da Casa Branca, pareceu sugerir, em uma reunião com os repórteres na terça-feira, que Bremer nunca citara suas preocupações sobre a quantidade de tropas com Bush, mas McClellan não refutou de todo a possibilidade da conversa.

"Eles se encontravam regularmente, não me lembro de o embaixador Bremer ter falado sobre isso, mas não tínhamos o hábito de ler essas discussões", disse McClellan.

Bremer serviu mais de um ano no Iraque, até a entrega de poder no dia 28 de junho.

Em suas observações em Iowa, Kerry citou os discursos de Bremer como mais evidências do erro de curso no Iraque.

Kerry disse que o governo tinha cometido "uma longa lista de erros" no Iraque e acrescentou que Bremer admitira dois deles: "Um, não empregamos soldados suficientes para fazer o serviço. Dois, não contivemos a violência depois da deposição de Saddam."

Em uma mensagem eletrônica citada pelo Washington Post, Bremer disse que apoiava inteiramente o curso de ação do governo Bush no Iraque.

"Acredito que, atualmente, temos soldados suficientes no Iraque", disse em declaração, de acordo com o Post. As observações de Bremer em seus dois discursos foram consideravelmente diferentes de suas declarações anteriores sobre o Iraque.

Em uma entrevista ao programa da NBC "Meet the Press", no dia 20 de julho de 2003, cerca de 11 semanas após ele ter chegado a Bagdá, Bremer foi questionado se os EUA precisavam de mais tropas no Iraque.

"Acredito que não", respondeu. "Acho que os comandantes militares estão certos de que temos soldados suficientes em terra, e aceito essa análise." Afirmação é do administrador do país, nomeado pelo presidente Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h00

    0,19
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h02

    0,09
    65.725,86
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host