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06/10/2004

Debates tiram as máscaras das mentiras de Bush

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Semana passada, o presidente Bush se viu na situação de ter que defender seu desempenho nas questões de segurança nacional sem o seu habitual casulo protetor, formado por platéias à prova de infidelidade e pelos repórteres amestrados. E foi como se o peso de uma balança despencasse diante de milhões de olhos.

Tentando minimizar o prejuízo, Bush agora está dizendo a essas platéias fiéis que a expressão usada pelo senador John Kerry, quanto a um "exame global", quer dizer que ele "daria aos governos estrangeiros poder de veto sobre nossas decisões relativas à segurança nacional".

Claro que ele está mentindo, como qualquer um pode comprovar ao checar o que Kerry realmente disse. Mas essa estratégia dele pode funcionar --a ascensão de Bush nas pesquisas anteriores ao debate é uma prova de como dá certo a tática da difamação.

Ainda assim, algo de importante aconteceu na última quinta-feira (30/09). Entre estilo e substância, provavelmente o estilo foi mais importante: os telespectadores ficaram chocados com o contraste entre a imagem pré-fabricada de Bush, como líder forte e decidido, e seu comportamento petulante e lamurioso no debate. Mas Bush teria perdido de maneira ainda mais feia se a cobertura da mídia pós-debate tivesse-se detido mais quanto à substância do que foi visto.

Aqui mostro um exemplo que passou meio desapercebido: até agora Bush não pagou nenhum preço político pelo sua vergonhosa mão-fechada em relação à segurança doméstica e pela sua recusa em garantir proteção efetiva para os portos e indústrias químicas dos Estados Unidos.

É como Jonathan Chait escreveu na revista "The New Republic": "A atuação de Bush na segurança interna deveria ser considerada um escândalo. Mas não apenas não é considerada um escândalo, como também nem é considerada uma matéria jornalística."

Mas Kerry conseguiu levantar a questão, ao descrever como o governo falhou quando não nos protegeu contra os ataques terroristas. A resposta de Bush? "Não acho que vamos querer saber como ele irá cumprir essas promessas."

Ah, vamos querer sim. De acordo com estimativas da comissão de orçamento do Congresso, os cortes de impostos promovidos por Bush, com seu forte viés de proteção aos mais ricos, resultaram em mais de U$ 270 bilhões (mais de R$ 800 bilhões) de déficit orçamentário em 2004. O aumento de gastos na segurança interna respondeu por apenas U$ 20 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões) do orçamento.

Isso mostra as verdadeiras prioridades do homem que se considera o "presidente da guerra". Mais tarde, Bush, talvez se dando conta de seu erro, disse: "Claro que estamos fazendo tudo o que podemos para proteger os Estados Unidos". Mas ele já havia admitido que não está.

Também não está claro se os eleitores já perceberam que o argumento de Bush para a desastrosa decisão de invadir o Iraque desmoronou. No debate de Coral Gables, ele assegurou que quando Kerry votou a favor da autorização para a intervenção militar contra Saddam, o democrata havia "observado os mesmos dados da inteligência que eu havia analisado".

Mas, conforme o jornal The New York Times confirmou no último final de semana, o governo Bush suprimiu dados da inteligência que poderiam ter levantado dúvidas no Congresso.

O argumento para a guerra se apoiou fundamentalmente numa só prova como evidência: a compra de tubos de alumínio por Saddam, que, segundo Condoleezza Rice, "só poderiam servir para programas de armas nucleares".

Mas a verdade, jamais revelada ao Congresso, era a de que a maioria dos especialistas do governo considerava a tubulação inadequada para um programa nuclear e idêntica aos tubos utilizados pelo Iraque para outros objetivos. É, Virginia, fomos enganados no nosso rumo à guerra.

E, nesta terça (05/10), foi a vez de Dick Cheney.

A imagem pré-fabricada de Cheney tem tanto a ver com a realidade como a imagem forjada para Bush. O vice-presidente é retratado como um teimoso realista, alguém em quem você pode confiar para tomar decisões difíceis. Mas a folha corrida do homem revela irresponsabilidade e incompetência.

Vejam esse exemplo: Cheney se equivocou completamente sobre a verdadeira natureza da crise de energia de 2001 na Califórnia. Embora tenha bloqueado as investigações sobre o que aconteceu de errado na comissão que ele mesmo comandou, não há dúvidas de que Cheney confiou nas empresas cuja conduta de mercado provocou aquela crise.

No debate dessa terça-feira, John Edwards confrontou Cheney sobre a tal comissão de energia, sobre assuntos domésticos e, é claro, sobre a empresa Halliburton. Mas o democrata também poderia aproveitar a ocasião para fazer perguntas mais duras sobre a segurança nacional.

Afinal de contas, Cheney não apenas prometeu aos americanos que "seremos aclamados como libertadores" pelos iraquianos cheios de gratidão. Ele também desempenhou papel fundamental ao nos conduzir à guerra sob falsos argumentos.

Não, isso não é um exagero. Em agosto de 2002, quando Cheney declarou que "nós agora sabemos que Saddam retomou sua iniciativa de comprar armas nucleares", ele estava sendo desonesto: o governo não sabia de nada disso. Ele também foi irresponsável: sua declaração substituiu uma possível checagem de dados por parte da inteligência, que poderia ter dado a especialistas de ponto de vista divergente uma oportunidade para tentar valer seus argumentos.

Então essa era a missão para John Edwards: expor o verdadeiro Dick Cheney, assim como Kerry mostrou quem é o verdadeiro George Bush. Kerry e Edwards expõem as farsas da atual administração dos EUA Marcelo Godoy

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