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06/10/2004

'Macunaíma' é história do Brasil tosca e alucinada

The New York Times
A.O.Scott

Crítico do NYTimes
Todos os anos, além de exibir as mais recentes novidades do circuito internacional de cinema, o Festival de Filmes de Nova York promove a redescoberta de alguns filmes mais velhos. Alguns deles são obras-primas negligenciadas, enquanto outros são curiosidades semi-esquecidas.

À primeira vista, "Macunaíma", o filme picaresco de 1969, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, parece se encaixar confortavelmente nesta segunda categoria. Uma versão dublada para a língua inglesa, denominada "Jungle Freaks" (algo como "Esquisitices da Floresta"), fez um breve sucesso em 1972, e a audiência que assistir ao original legendado exibido no festival entenderá por quê.

Com as suas excelentes e extravagantes atuações, a nudez freqüente e o clima anárquico e improvisado, "Macunaíma" sobrevive como um glorioso e insano artefato da sua época.

Os conhecedores poderão detectar no filme um toque do rococó felliniano, mas esse épico mágico-realista do sarcasmo pode ser colocado mais confortavelmente em uma categoria de obras menos exaltadas, juntamente, talvez, com os filmes de John Water e de Russ Meyers, ou com os episódios perdidos de "The Monkees".

Isso não significa que o filme, adaptado de um romance de 1928 de Mário de Andrade (que não é parente do diretor), não seja sério. Por trás da obra há uma meditação sobre os enigmas da identidade brasileira e as agonias da política do país.

Em 1969, o Brasil estava imerso em uma ditadura militar, e "Macunaíma", que tem como um dos personagens uma guerrilheira urbana sexy, é permeado de um espírito jovial e marcadamente antiautoritário.

Na primeira cena, o herói, Macunaíma, sai já crescido da barriga da mãe, e cai no chão de terra batida de uma palhoça na Amazônia. Lá ele é criado ao lado de dois irmãos, um branco e um negro.

Macunaíma, que nasceu negro, acaba por virar branco, uma transformação que, em sintonia com a complicada ideologia racial brasileira, é ao mesmo tempo enormemente importante e completamente sem sentido.

O herói ruma para São Paulo, onde se veste com roupas maravilhosamente (ou horrivelmente) coloridas e se junta à guerrilheira sexy antes de retornar para casa, onde a mãe o espera. Ao longo de sua odisséia, ele encontra bruxas e gigantes, episódios que transformam "Macunaíma" em um conto de fadas tosco e alucinante.

A loucura infecciosa do filme permanece em nossas mentes como uma nova música popular que, após algum tempo, começa a soar como um clássico.

O filme não tem classificação de idade. A obra de 1969 será exibida nesta quarta-feira, dia 6 de outubro, no Festival de Filmes de Nova York.

Macunaíma

Produzido e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade; roteiro de Joaquim Pedro de Andrade, baseado no livro de Mário de Andrade; em português, com legendas em inglês. A direção de fotografia é de Guido Cosulich; a edição é de Eduardo Escorel, e o figurino, de Anísio Medeiros. Duração: 100 minutos.

Com: Grande Otelo (Macunaíma negro), Paulo José (Macunaíma branco), Jardel Filho (Venceslau Pietro Pietra), Dina Sfat (Ci), Milton Gonçalves (Jiguê), Rodolfo Arena (Maanape) e Joana Fomm (Sofara). Filme, que parece ser uma curiosidade banal, na verdade é clássico Danilo Fonseca

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