UOL Notícias Internacional
 

07/10/2004

Bush não sabe que petróleo caro financia o terror

The New York Times
Thomas L. Friedman

Colunista do NYTimes
Entre todas as políticas míopes do presidente Bush e do vice-presidente Dick Cheney, nenhuma tem sido pior que a oposição deles à economia energética e à tributação sobre a gasolina. Se tivéssemos decretado um novo imposto sobre a gasolina depois do 11 de setembro, a demanda teria se amortecido e o preço do combustível hoje ainda estaria na faixa de US$ 2 o galão.

Mas, em vez do dólar extra que estamos pagando à Arábia Saudita --onde ele acaba indo parar no bolso dos mullahs (crentes) que constróem as escolas madrasas que pregam a intolerância religiosa-- esse dólar poderia ter seguido para nosso próprio Tesouro, saldando nosso próprio déficit e financiando nossas próprias escolas. Na verdade, a política de energia de Bush poderia ser chamada de "Nenhum Mullah Deixado para Trás".

Enquanto isso, o nosso programa "Nenhuma Criança Deixada Para Trás" não foi financiado totalmente porque não houve arrecadação suficiente. Mas, graças à política energética de Bush-Cheney, o programa "Nenhum Mullah Deixado para Trás" foi inteiramente financiado e agora não pára de frutificar o fruto do terrorismo.

Bush diz que estamos numa "guerra global contra o terrorismo". Está certo. Mas essa guerra tem suas raízes no mundo árabe-muçulmano. Isso significa que não há guerra eficaz contra o terrorismo que não envolva uma ajuda a essa região, para que entre num caminho de maior prosperidade para sua grande população de jovens.

Entre eles, há jovens demais que estão desempregados ou que não podem obter emprego porque os regimes de seus países ricos em petróleo resistem à mudança e porque seus líderes religiosos estão se opondo à modernidade.

Um ex-ministro da Informação do Kuwait, Sad bin Tefla, escreveu no último dia 11 de setembro um artigo para um diário árabe de Londres, o Al Sharq al Awsat, com o título de "Todos Nós Somos Bin Laden." No artigo, ele perguntava por que clérigos e acadêmicos muçulmanos se açodaram em apoiar os decretos religiosos fatwas, que condenavam à morte o escritor Salman Rushdie, depois de ele ter escrito um romance supostamente ofensivo ao Islã, "Versos Satânicos", enquanto até hoje nenhum clérigo muçulmano decretou uma fatwa condenando Osama bin Laden por ter assassinado cerca de 3 mil civis inocentes, com graves prejuízos ao Islã.

Construir um Iraque decente é necessário para reverter tendências terroristas, mas não é o bastante. Nós precisamos de uma abordagem muito mais abrangente, especialmente se fracassarmos no Iraque. Mas a equipe de Bush não apresenta nada disso.

O governo tratou a questão árabe-israelense com uma espécie de negligência benigna, fracassou ao não encontrar qualquer forma de comunicação com o mundo árabe e adotou uma política energética que está apoiando os piores regimes petrolíferos da região e as piores tendências.

Phil Verleger, um dos consultores americanos mais importantes da área energética, e há muito tempo defensor de uma taxação sobre o combustível, define a questão sucintamente: "A atual política energética dos Estados Unidos é de apoio ao terrorismo --não é de guerra ao terrorismo."

Nós precisamos cortar dramaticamente nosso consumo de petróleo e trazer o preço de volta à faixa de 20 dólares o barril. Nenhuma outra medida seria tão eficaz para estimular reformas no mundo árabe-muçulmano.

Atualmente os regimes petrolíferos não precisam se modernizar ou governar bem. Eles apenas subornam seus povos e seus mullahs. Já os governos sem petróleo têm que se reformar para criar postos de trabalho. As pessoas não mudam quando você diz para elas que é preciso mudar --elas mudam quando dizem a si próprias que é preciso mudar.

O mundo árabe-muçulmano está numa crise de desenvolvimento humano que exige mudanças, "mas o petróleo é como um narcótico que mata grande parte da dor deles, evitando mudanças verdadeiras", diz David Rothkopf, professor visitante na Fundação Carnegie para a Paz Internacional.

Aonde se localizam as atitudes inovadoras no mundo árabe de hoje em dia? Acontecem nos lugares onde há pouco ou nenhum petróleo: Bahrain está desenvolvendo uma reforma trabalhista, acaba de assinar um tratado de livre comércio com os Estados Unidos e realizou as primeiras eleições na região do Golfo Pérsico, permitindo o voto às mulheres.

Já Dubai se transformou num centro de prestação de serviços para a região. E a Jordânia tem um acordo de livre comércio com os Estados Unidos e está tentando se transformar numa autentica economia do conhecimento. Quem está paralisando ou bloqueando as reformas? A Arábia Saudita, a Síria e o Irã, todos nadando em petrodólares.

Quando a Jordânia começou a privatizar e desregulamentar sua economia, e a elevar o nível de seu sistema educacional? Foi em 1989 --depois que os preços do petróleo desabaram e as nações árabes petrolíferas cortaram os subsídios à Jordânia.

Em 1999, antes de a Jordânia ter assinado seu acordo de livre comércio com os Estados Unidos, suas exportações para os Estados Unidos totalizavam apenas US$ 13 milhões (equivalente a menos de R$ 40 milhões).

Em 2004, as exportações de mercadorias jordanianas para o mercado americano chegarão à casa de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3 bilhões). Em pleno curso das reformas empreendidas pelo Rei Abdullah II, a economia jordaniana está crescendo a mais de 7% ao ano, e o governo instala computadores e conexões de Internet com banda larga em todas as escolas.

Em breve o regime de Amã irá exigir de qualquer interessado em estudar a lei islâmica e em se tornar um pregador nas mesquitas que, antes, obtenha um bacharelado em qualquer outra área de conhecimento. Dessa forma, os líderes nas mesquitas não serão formados somente entre aqueles incapazes de fazer qualquer outra coisa.

"Tivemos que atravessar uma crise para finalmente aceitarmos a necessidade das reformas", diz o ministro do Planejamento da Jordânia, Bassem Awadallah.

Nós temos o poder de estimular movimentos similares em todo o mundo árabe, e agora. Essa é a melhor maneira de combater a guerra global contra o terrorismo. Se ao menos tivéssemos um presidente e um vice firmes o bastante para lutar essa guerra... EUA deveriam lutar para baixar preço e fazer Oriente Médio evoluir Marcelo Godoy

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