UOL Notícias Internacional
 

07/10/2004

Bush tenta se defender de Kerry e da inteligência

The New York Times
David E. Sanger e

Richard W. Stevenson

Em Farmington Hills, Michigan
Nesta quarta-feira (06/10), o presidente Bush fez uma crítica destrutiva e minuciosa à posição do senador John Kerry com relação à segurança nacional e à economia, e tanto ele como os seus assessores deram sinais de que deste momento até o dia da eleição não planejam ceder terreno quando o assunto for a sua decisão de ir à guerra ou as críticas crescentes aos erros cometidos na ocupação do Iraque.

Em um discurso revisado e altamente combativo feito no dia em que um novo relatório gerou dúvidas quanto à sua argumentação para fazer a guerra, Bush pareceu tentar recuperar o terreno que, segundo as pesquisas, ele perdeu durante a última semana de debate. Ele acusou Kerry de "propor políticas e doutrinas que enfraqueceriam os Estados Unidos e tornariam o mundo mais perigoso" e de defender uma "estratégia de retirada" no Iraque.

"Na semana passada, no nosso debate, ele mais uma vez defendeu firmemente posições contraditórias sobre a guerra no Iraque", disse Bush sobre Kerry, provocando gargalhadas. "Ele afirmou que Saddam Hussein era uma ameaça e que remover tal ameaça não era um problema dos Estados Unidos. O senador Kerry disse que nossos soldados e fuzileiros navais não estão lutando por um erro --mas chamou também a liberação do Iraque de 'erro colossal'. Ele disse que precisamos tomar mais providências para treinar os iraquianos, mas falou também que não deveríamos gastar tanto dinheiro naquele país. Ele afirmou que deseja fazer uma reunião de cúpula, de forma que possa convidar outros países para participarem daquilo que chama de 'a guerra errada no lugar errado e no momento errado'".

O novo discurso de Bush pareceu ser uma tentativa de desviar as atenções do relatório de 918 páginas divulgado em Washington também nesta quarta-feira, detalhando como os estoques de armas de destruição em massa de Saddam Hussein foram destruídos anos antes da invasão do ano passado, e como a capacidade do ditador de representar uma ameaça militar séria --uma justificativa para a guerra que Bush ainda utiliza regularmente-- foi reduzida após 1991.

Mas o discurso também deu ao presidente uma chance de interromper a série de reportagens sobre o seu mau desempenho no último debate e de conseguir fazer em um ambiente controlado aquilo que vários republicanos acusam o presidente de não ter feito com a energia que se faria necessária: delinear diferenças nítidas e convincentes entre a sua posição e seu histórico e aqueles de Kerry.

Ele procurou fazer exatamente nisso na abordagem de várias áreas, argumentando que Kerry recebeu o título de "membro mais liberal do Senado" ao "votar a favor de impostos mais altos, mais regulamentações, mais processos judiciais absurdos e mais controle governamental sobre as nossas vidas".

Mas Bush não fez nenhum comentário a respeito do relatório sobre as armas de destruição em massa. E tampouco comentou a afirmação feita na última segunda-feira pelo secretário de Defesa Donald H. Rumsfeld, que disse não ter visto nenhuma evidência sólida de um vínculo entre Saddam Hussein e a Al Qaeda, ou a declaração do seu ex-representante no Iraque, Lewis Paul Bremer, segundo o qual os Estados Unidos não enviaram ao Iraque tropas suficientes para garantir a ocupação do país.

"Decidiu-se que o presidente simplesmente não vai adotar a atitude introspectiva de ficar pensando se poderia ter feito algo melhor", disse um integrante do governo que participa de várias reuniões sobre estratégia de campanha. Segundo ele, tais concessões "fariam o jogo" de Kerry.

Segundo esse funcionário do governo, houve um momento para que Bush fizesse tais concessões, mas "esse momento terminou há vários meses". Segundo ele, adotar agora essa atitude prejudicaria a campanha e os 138 mil soldados norte-americanos que estão no Iraque.

Segundo vários integrantes do campo de Bush, o resultado é que o presidente estará assumindo nos próximos 27 dias o risco considerável de parecer ter perdido o contato com as realidades da guerra no Iraque. E, de fato, a campanha de Kerry procurou rapidamente explorar essa vulnerabilidade na quarta-feira. Mas um dos assessores mais próximos de Bush disse que "é mais importante que o presidente mostre que vai manter a sua estratégia, sem olhar para trás, fazendo-a funcionar".

Na verdade, o novo discurso de Bush não continha um trecho que ele usou com freqüência nas suas falas anteriores, reconhecendo que nenhum estoque de armas químicas ou biológicas foi descoberto no Iraque.

Em vez disso, assim como fez o vice-presidente Dick Cheney no seu debate com o senador John Edwards na noite de terça-feira, Bush apresentou uma defesa sem remorsos da sua decisão de invadir o Iraque, insistindo que tal ação fez com que os Estados Unidos e o mundo ficassem mais seguros.

A única deficiência potencial a qual Bush fez alusão foi a sua própria linguagem corporal durante o seu desempenho contra Kerry no primeiro debate na última quinta-feira, quando pareceu estar visivelmente aborrecido com o adversário democrata.

Após uma longa ladainha sobre como Kerry teria apresentado posições vacilantes sobre as questões de segurança nacional, Bush disse, provocando gargalhadas estrondosas e manifestações de apoio da sua platéia de correligionários em Wilkes-Barre, Pensilvânia: "Depois de ouvir tudo aquilo dá para entender porque alguém faz cara feia".

Já o candidato democrata a vice-presidência, senador John Edwards, ao falar para uma multidão na Flórida, disse que Bush perdeu "completamente o contato com a realidade". Referindo-se ao relatório sobre o Iraque e aos recentes comentários de Bremmer, Edwards acrescentou: "Sabendo de tudo isso, Dick Cheney disse novamente na noite passada que teria feito tudo de novo. George Bush disse que teria feito tudo de novo. Eles estão negando completamente a realidade no Iraque". Os assessores de Kerry disseram que Bush está tentando compensar a derrota sofrida no debate da quinta-feira passada.

"Não consigo me lembrar de um presidente dos Estados Unidos que, ao se defrontar com um adversário, fizesse um discurso tão duro e negativo como o de hoje", disse Michael D. McCurry, um dos porta-vozes de Kerry, aos jornalistas reunidos em Englewood, Colorado, no centro de conferência onde Kerry está se preparando para o próximo debate de sexta-feira em Saint Louis.

Ao final do dia, o comitê de campanha de Kerry lançou outra propaganda de televisão afirmando que Bush está "atacando Kerry desesperadamente" em uma tentativa de compensar o seu mau desempenho no debate.

No debate da próxima sexta-feira, os dois candidatos presidenciais responderão a perguntas feitas por eleitores indecisos que estarão na platéia. Considerando que o próximo debate deverá cobrir tanto as questões domésticas quanto as de política externa, Bush utilizou o seu novo discurso para desfechar um ataque vigoroso contra o plano econômico de Kerry, afirmando que o democrata aumentaria os impostos, criaria um "Hillary care", um sistema de seguro saúde no qual o governo tomaria as decisões de ordem médica, e permitiria que advogados de tribunais prejudicassem a economia ao sujeitar o empresariado a uma inundação de processos judiciais frívolos.

"O meu adversário é um liberal a favor dos impostos e dos gastos; eu sou um conservador compassivo", afirmou Bush. "O meu oponente quer fortalecer o governo; eu quero usar o governo para fortalecer o povo. O meu oponente parece achar que toda a sabedoria se concentra em Washington, D.C.; eu confio na sabedoria do povo norte-americano".

Mas Bush foi mais enérgico ao afirmar que Kerry não só mudou de idéia com relação às questões de segurança nacional, como também assume posições contraditórias que fariam com que fosse impossível governar. Segundo alguns dos assessores de Bush, essa mensagem deveria ter sido divulgada no primeiro debate, o que não ocorreu.

O discurso de Bush se resumiu a um argumento básico: que ele faria um trabalho melhor do que Kerry em se tratando de garantir a segurança do país. "No nosso debate, o senador Kerry disse que a remoção de Saddam Hussein foi um erro porque a ameaça não era iminente", disse Bush.

"O problema a respeito dessa posição é óbvio: se os Estados Unidos esperarem até que uma ameaça bata à nossa porta, pode ser muito tarde para salvar vidas. Tiranos e terroristas não nos avisarão educadamente antes de desfecharem um ataque contra o nosso país. Eu me recuso a assistir passivamente enquanto os perigos se acumulam".

Segundo alguns dos seus próprios assessores admitiram reservadamente, o discurso do presidente foi uma defesa da política de ataques preventivos no sentido de evitar o problema central levantado pelo relatório de quarta-feira sobre as inexistentes armas de destruição em massa. Ou, em outras palavras, o discurso foi uma tentativa de fugir da constatação de que Bush ordenou a invasão de um país que não parecia apresentar nenhuma ameaça iminente, ou sequer urgente, aos Estados Unidos.

Mas um assessor observou: "Não creio que os norte-americanos estejam dispostos a discutir se o ataque ao Iraque foi justificado. Eles viram um bom resultado --Saddam Hussein foi derrubado". Em discurso raivoso, presidente justifica criticadas ações no Iraque Danilo Fonseca

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