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07/10/2004

Relatório confirma que Iraque não ameaçava EUA

The New York Times
Douglas Jehl

Em Washington
O Iraque destruiu seus estoques de armas ilícitas em questão de meses após a Guerra do Golfo Pérsico de 1991, e sua capacidade de produzir tais armas estava significativamente minada no momento da invasão americana em 2003, disse o principal inspetor americano no Iraque em um relatório que foi divulgado publicamente nesta quarta-feira (06/10).

O relatório do inspetor Charles A. Duelfer, que visava oferecer uma posição quase final sobre o Iraque e suas armas, disse que o Iraque, sob pressão da ONU, "essencialmente destruiu" sua capacidade para armas ilícitas no final de 1991, com sua última fábrica secreta, uma instalação de armas biológicas, eliminada em 1996.

Duelfer disse que mesmo durante aqueles anos, Saddam Hussein buscou "preservar a capacidade de retomar suas armas de destruição em massa quando as sanções fossem suspensas". Mas ele disse que não encontrou evidência de qualquer esforço orquestrado pelo Iraque para retomada do programa.

Os resultados sustentam a insistência pré-guerra do Iraque de que não possuía armas químicas ou biológicas. Também mostraram a enorme distância entre as próprias afirmações pré-guerra do governo Bush, baseadas em relatórios das agências americanas de inteligência, e o que uma investigação de 15 meses por parte de inspetores americanos encontrou desde a guerra.

Duelfer disse que concluiu que, entre 1991 e 2003, Saddam realmente sacrificou as armas ilícitas do Iraque visando a meta maior de obter o fim das sanções da ONU. Mas Duelfer também argumentou que Saddam utilizou o período para tentar explorar os caminhos abertos pelas sanções, incluindo o programa petróleo por alimento, para estabelecer a base para um plano de longo prazo para retomada da produção de armas caso as sanções fossem suspensas.

O inspetor americano apresentou suas conclusões ao Congresso nesta quarta-feira, incluindo um depoimento público altamente carregado politicamente perante o Comitê de Serviços Armados do Senado. Com o Iraque aparecendo proeminentemente na reta final da eleição presidencial, os democratas argumentaram que o relatório minou o argumento do governo para a guerra, enquanto a Casa Branca e seus aliados republicanos chamaram a atenção para os elementos no relatório que acentuavam os riscos potenciais representados pelo governo de Saddam.

"Não há dúvida de que Saddam era uma ameaça à nossa nação, e não há dúvida de que ele tinha capacidade de fabricar armas de destruição em massa, e o relatório de Duelfer é muito claro nestes pontos", disse James Wilkinson, o vice-conselheiro de segurança nacional da Casa Branca.

O relatório em três volumes, totalizando 918 páginas, representa a tentativa mais séria até o momento de desvendar o mistério representado pelo Iraque entre 1991 e 2003, a começar pelo momento após a Guerra do Golfo Pérsico em que o Iraque ainda possuía armas químicas e biológicas e um programa ativo de armas nucleares.

As conclusões sugerem que a principal meta da guerra, citada pela Casa Branca em março de 2003 --o desarmamento do Iraque, que as agências de inteligência americanas diziam que possuía armas químicas e biológicas e estava reconstruindo seu programa nuclear-- foi baseada em uma visão datada dos estoques de armas do Iraque.

Na época da invasão americana, Duelfer disse no relatório, o Iraque não possuía armas químicas e biológicas, não estava buscando reativar seu programa nuclear e não estava fazendo qualquer esforço ativo para obter tais capacidades. Mesmo se o Iraque buscasse retomar seus programas de armas em 2003, disse o relatório, ele não poderia produzir quantidades militarmente significativas de armas químicas por pelo menos um ano, e seriam necessários anos para produzir uma arma nuclear.

"Saddam Hussein encerrou o programa nuclear em 1991, após a Guerra do Golfo", disse Duelfer no relatório. Ele disse que os inspetores americanos no Iraque "não encontraram evidência que indicasse esforços orquestrados para retomada do programa".

Após um briefing a portas fechadas de Duelfer ao comitê de inteligência do Senado, o senador John D. Rockefeller IV da Virgínia Ocidental, o líder da bancada democrata no comitê de inteligência, descreveu o relatório como "um relato devastador".

"O governo gostaria que o público americano acreditasse que a intenção de Saddam de desenvolver um programa de armas, independente de haver armas de fato ou a capacidade para produzir armas, justificava invadir o Iraque", disse Rockefeller em uma declaração. "Na verdade", ele continuou, "nós invadimos um país, milhares de pessoas morreram e o Iraque nunca representou um risco grave ou crescente".

Ao relatar o que aconteceu a partir de 1991, Duelfer disse que Saddam tomou a decisão fundamental após a Guerra do Golfo Pérsico de livrar o Iraque das armas ilícitas e aceitar a destruição de suas instalações de produção de armas, como parte do esforço para obter a suspensão das sanções impostas pela ONU para aqueles fins.

Apesar de Duelfer ter concluído que Saddam visava retomar seus programas, o relatório reconheceu que a conclusão foi baseada mais em dedução do que em evidência concreta. "O regime não contava com nenhuma estratégia formal ou plano redigido para retomada das ADM após as sanções", disse o relatório.

O relatório nota que sua conclusões foram extraídas em parte do interrogatório de Saddam em sua cela, em uma prisão fora de Bagdá. Duelfer, um conselheiro especial do diretor da central de inteligência, disse que concluiu que Saddam buscou deliberadamente manter a ambigüidade sobre se o Iraque possuía ou não armas ilícitas, principalmente como um dissuasivo para o Irã, o adversário do Iraque em uma guerra de oito anos na década de 80.

Foi apenas após uma série de reuniões no final de 2002, poucos meses antes da invasão americana, que Saddam finalmente reconheceu a altos oficiais e autoridades de seu governo que o Iraque não possuía armas ilícitas, disse Duelfer.

O relatório de Duelfer disse que investigadores americanos encontraram laboratórios clandestinos na área de Bagdá, utilizados pelo serviço de inteligência iraquiano entre 1991 e 2003 para realização de pesquisa e teste de vários produtos químicos e venenos, incluindo ricina. Como relatado anteriormente, o relatório disse que tais esforços pareciam destinados principalmente para uso em assassinatos, não para causar baixas em massa.

Duelfer disse em seu relatório que Saddam nunca reconheceu ao longo dos interrogatórios qual foi o fim das armas ilícitas do Iraque. Ele disse que investigadores americanos apelaram ao ex-líder iraquiano para que fosse sincero visando definir seu legado, mas que Saddam não cooperou.

O relatório disse que as entrevistas com outros ex-líderes iraquianos deixaram claro que Saddam deixou muitos de seus comandados incertos até a véspera da guerra sobre se o Iraque possuía ou não armas ilícitas. Ele disse que Saddam parecia mais preocupado com um possível novo ataque do Irã, cujas incursões no Iraque durante a guerra de 1980 a 88 entre os países foram rechaçada em parte pelo uso de munições químicas por Bagdá.

Duelfer disse no relatório que o Iraque tentou manter a base de conhecimento necessária para retomada do programa de armas ilícitas. Ele disse que o Iraque essencialmente "arquivou" seu programa biológico após sua última instalação de produção, Al Hakam, ter sido destruída pelos inspetores da ONU em 1996, e poderia produzir armas biológicas no prazo de pelo menos um mês caso retomasse seu programa de armas em 2003.

Mas o relatório disse não haver indícios de que o Iraque estava buscando tal curso de ação, e relatou "uma completa ausência de discussão ou mesmo interesse em armas biológicas" na esfera de Saddam e seus assessores após meados da década de 90.

O relatório quase certamente será a última avaliação completa da equipe liderada por Duelfer, que é conhecida como Grupo de Reconhecimento do Iraque. Mas Duelfer disse que ele e sua equipe de 1.200 membros continuarão seu trabalho no Iraque por ora. Ele disse que a equipe não descartou completamente a possibilidade de que algumas armas iraquianas possam ter sido contrabandeadas para um país vizinho, como a Síria.

O relatório revisou algumas avaliações anteriores, incluindo um relatório da CIA, de maio de 2003, que disse que trailers misteriosos encontrados no Iraque após a invasão americana em 2003 eram de uso do programa de guerra biológica.

Duelfer disse que os trailers não podiam ser usados para tal propósito, e que os fabricantes dos trailers "quase certamente projetaram e construíram o equipamento exclusivamente para geração de hidrogênio", sustentando as afirmações das autoridades iraquianas que vinculavam os trailers a balões meteorológicos usados para prática de artilharia. Saddam ordenara a destruição de armas após a Guerra do Golfo George El Khouri Andolfato

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