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08/10/2004

Aborto é metáfora do humanismo em 'Vera Drake'

The New York Times
Manohla Dargis

Crítica do NYTimes
Em "Vera Drake", novo filme do diretor inglês Mike Leigh, sobre uma senhora que executa abortos clandestinos, invariavelmente a personagem principal pede aos seus clientes para trazerem água fervendo.

O jeito de Vera é tão aconchegante e carinhoso quanto um colo de mãe. Assim, é sempre uma surpresa quando você se lembra que a água não é para uma xícara de chá, mas para os abortos aos quais assiste. A surpresa talvez venha do diretor, pois a personagem em si não quer nada, além de ajudar as pobres mulheres que a procuram, assustadas, que acham que não têm escolha.

Ambientado em Londres em 1950, quando o aborto na Inglaterra ainda estava em uma posição legal cinzenta, "Vera Drake" é o melhor trabalho de Leigh em uma década. Desde o lançamento de sua obra prima melancólica "Naked", em 1993, Leigh dirigiu três longas metragens, sendo o melhor "Topsy-Turvy", filme de entretenimento afiado, sobre a dupla de compositores Gilbert e Sullivan.

Os três outros filmes tiveram menor sucesso: "Segredos e Mentiras", "Garotas de Futuro" e o doloroso "Agora ou Nunca", um exercício de miserabilidade que parece uma paródia de si mesmo. Como Ken Loach, Leigh algumas vezes trai sua arte para fazer alguma denúncia política. O fato de os dois compatriotas estarem frequentemente apenas pregando ao coro adorador torna essa grandiloqüência especialmente tediosa.

Não há tédio em "Vera Drake", comoventemente dedicado: "Em memória amorosa de meus pais, um médico e uma parteira". Além disso, é permeado de humanidade, em vez de dogma. Em "Vera Drake", a política do aborto não é apenas uma opinião que os indivíduos podem ter ou não.

É o que leva mulheres ao submundo, para uma pessoa como Vera, rechonchuda, com seus sorrisos e expressões, seu teste de mentira e toda aquela água quente. Nesse sentido, a mensagem política do filme não é de fato uma mensagem ou um comunicado do diretor ao público (apesar de estar clara posição de Leigh); é uma discussão, tanto moral quanto política, que surge das experiências verossímeis de seus personagens. Isso faz "Vera Drake" parecer honesto, mas o que faz o filme parecer verdadeiro é o fato de ser dirigido com tamanho amor e beleza.

A história começa com Vera (Imelda Staunton), agitada com sua vida, indo de um canto sujo de Londres para outro. Vera é feliz, casada com um mecânico, Stan (Phil Davis). Eles têm dois filhos, Sid (Daniel Mays), um alfaiate animado, e Ethel (Alex Kelly), uma criação clássica de Mike Leigh, envergada pela inibição.

Quando não está cuidando da família, Vera ajuda os vizinhos doentes e abriga os coitados do bairro, como o solteiro sofrido Reg (Eddie Marsan). Ela também trabalha limpando casas habitadas por mulheres entediadas e filhas mimadas, que parecem extensões da mobília luxuosa. É em um desses mausoléus que Leigh lança um olhar simpático a Susan (Sally Hawkins), uma jovem cujo privilégio de classe não a protege de um estupro.

O roteiro de Leigh une as vidas de Vera e Susan, mas não da maneira que se espera inicialmente. Como linhas paralelas que nunca convergem, Susan quer fazer um aborto por meio do sistema médico burocrático, enquanto Vera continua fazendo suas tarefas diárias, murmurando canções, chamando todo mundo de "querido", como se estivesse jogando beijos e ocasionalmente entrando em algum prédio anônimo para encontrar uma estranha temerosa e ansiosa.

Algumas dessas mulheres parecem dolorosamente jovens e estão completamente assombradas, enquanto outras procuram se fazer de duras e colocar o aborto e tudo que significa para trás. Vera é informada sobre as mulheres em necessidade por sua velha amiga, Lily (a maravilhosa Ruth Sheen, de "High Hopes" de Leigh), que adentra o sofrimento dos outros com tanta casualidade quanto vende produtos do mercado negro.

Com atenção meticulosa ao detalhe, desde o papel de parede de flores escuras na sala de visitas de Drake até os tons de verde que dão à história uma pátina de antigüidade, mas não de nostalgia, Leigh vai mostrando a humanidade diária de Vera.

Staunton recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Veneza, no qual "Vera Drake" também levou o prêmio de melhor filme. Com seu rosto redondo e corpo minúsculo, Vera parece uma boneca, o que facilita a tarefa de Leigh, quando finalmente chega a força da lei. (Se Sheen tivesse feito o papel de Vera, o diretor teria tido muito mais trabalho).

O desempenho de Staunton mantém essa figura santa com os pés no chão e expande seu caráter. Isso ajuda o público, já que a resistência de Leigh à explicação psicológica faz com que nunca entremos na cabeça de Vera.

No final, Vera faz abortos simplesmente porque, como diz repetidamente, quer ajudar outras mulheres. Com outro diretor, tal simplicidade poderia parecer condescendente, mas, aqui, vem como prova do profundo sentimento de Leigh por sua personagem, que, afinal, não deve a ninguém (nem a nós) uma explicação sobre o que faz.

O compromisso de Leigh em expor toda a dor que o mundo tem para oferecer --em mostrar, como escreveu Eliot, o esqueleto por baixo da pele-- é, em parte, o que o define como diretor. Mas o que o define como artista são as ocasiões, como em "Vera Drake", em que sua consciência e arte espantam o rancor, e o diretor abraça a possibilidade do bem não só para si, mas para outros.

"Vera Drake" será apresentado na noite desta sexta-feira (08/10) e sábado no Festival de Cinema de Nova York e estréia comercialmente no domingo. Aprovado somente para maiores de 17 anos. O assunto do aborto pode ser difícil para alguns.

Vera Drake

Escrito e dirigido por Mike Leigh; diretor de fotografia: Dick Pope; editado por Jim Clark; trilha Sonora de Andrew Dickson; produção visual de Eve Stewart; produzido por Simon Channing Williams e Alain Sarde; lançado por Fine Line Features. Duração: 125 minutos.

Com: Imelda Staunton (Vera), Phil Davis (Stan), Peter Wight (Inspetor Webster), Daniel Mays (Sid), Richard Graham (George), Alex Kelly (Ethel), Eddie Marsan (Reg), Adrian Scarborough (Frank), Heather Craney (Joyce), Sally Hawkins (Susan) e Ruth Sheen (Lily). Diretor Mike Leigh mostra a dor atrás das aparências em novo filme Deborah Weinberg

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