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08/10/2004

Escritora engajada vence o Nobel de literatura

The New York Times
Alan Riding

Em Paris
Elfriede Jelinek, a reclusa romancista e dramaturga austríaca que é conhecida nos países de língua germânica por trabalhos que denunciam tanto a opressão quanto a violência sexual, assim como o extremismo de direita, recebeu nesta quinta-feira (07/10) o Prêmio Nobel de Literatura da Academia Sueca em Estocolmo.

Havia especulação de que neste ano o prêmio seria dado a uma mulher, mas Jelinek não tinha sido mencionada entre as possíveis candidatas. Ela é a primeira mulher a receber o prêmio desde Toni Morrison em 1993, e apenas a 10ª desde que o prêmio foi criado em 1901.

Em outras formas, Jelinek se enquadra em um padrão mais familiar. Com ela, foram sete os autores europeus premiados em literatura na última década. A academia também demonstrou novamente preferência por literatura com tom político. Assim como vários vencedores recentes, incluindo o do ano passado, J.M. Coetzee, um crítico do regime do apartheid da África do Sul, Jelinek tem usado seu trabalho literário como uma forma de engajamento político.

Em sua citação, a Academia Sueca composta por 18 membros disse que Jelinek, 57 anos, foi escolhida "por seu fluxo musical de vozes e contravozes em romances e peças que, com extraordinário zelo lingüístico, revelam o absurdo dos clichês da sociedade e seu poder dominador". O prêmio de literatura deste ano é de cerca de US$ 1,35 milhão.

Em uma entrevista para a Rádio Sueca de sua casa em Viena, Jelinek disse que o prêmio foi "surpreendente e uma grande honra", mas ela disse que não poderá viajar para Estocolmo para a cerimônia de premiação em dezembro. Posteriormente, ela disse à agência de notícias "Reuters": "Eu não sou mentalmente capaz de suportar aquilo. Eu tenho fobia social e não posso suportar estas grandes aglomerações de pessoas. Mas eu certamente escreverei um discurso".

Ainda assim, apesar de fugir dos holofotes, Jelinek é uma figura pública na Áustria e na Alemanha. Seu trabalho, que inclui poesia, um libreto de ópera e roteiros, com seu profundo pessimismo sobre a condição humana, a transformou em uma espécie de figura cultuada. Ao mesmo tempo, ela é uma forte oponente do Partido da Liberdade de extrema direita da Áustria, e proibiu apresentações de suas peças depois que o partido entrou para o governo em 2000.

Fora do mundo de língua alemã, ela não é muito conhecida, apesar de algumas de suas obras terem sido traduzidas para o inglês, francês e sueco. Quatro de seus romances mais conhecidos --"The Piano Teacher" (A Pianista), "Wonderful, Wonderful Times", "Lust" e "Women as Lovers"-- foram publicados em inglês pela editora londrina Serpent's Tail.

"Ela é muito controvertida e tem uma voz bastante feminista", disse Peter Ayrton, editor da Serpent's Tail, em uma entrevista por telefone da Feira do Livro de Frankfurt. "Ela também é muito inovadora tanto em termos de conteúdo como de forma. Ela é muito audaciosa. Ela é dramaturga e também poetiza, e está sempre fazendo coisas malucas e maravilhosas com a forma do romance."

"A Pianista", um de seus romances mais sombrios, foi transformado em um filme francês ("A Professora de Piano") pelo diretor austríaco Michael Haneke, com Isabelle Huppert no papel de Erika Kohut, uma professora de música que tenta escapar de sua mãe opressiva por meio de excentricidades sexuais. O filme, assim como o romance, chocou algumas pessoas com sua violência sexual.

Em uma crítica ao romance no The New York Times em 1988, Michiko Kakutani escreveu sobra a "visão inflexível" de Jelinek, mas notou: "Com freqüência demais, suas descrições das fantasias violentas de Erika parecem intencionalmente perversas --como se tivessem sido concebidas para o único propósito de chocar o leitor-- e sua obstinada atenção no lado sombrio da vida vienense pode ser igualmente artificial e inventada. No final, isto contribui para um romance que deprime em vez de genuinamente perturbar".

Biografia

Jelinek nasceu em 20 de outubro de 1946, na cidade austríaca de Murzzuschlag, de um pai de origem tcheco-judia e uma mãe austríaca. Ela estudou composição no Conservatório de Viena enquanto freqüentava aulas de teatro e história da arte na Universidade de Viena. Ela publicou sua primeira coleção de poemas em 1967, e logo em seguida começou a escrever ficção. Em 1974, ela entrou para o Partido Comunista austríaco e permaneceu como membro até 1991.

Ela conquistou reputação como romancista em 1975 com "Women as Lovers", no qual duas amigas viajam para um resort alpino em busca do homem perfeito, com resultados inesperados. "Wonderful, Wonderful Times" foi lançado em 1980; "A Pianista" em 1983. A Academia Sueca disse que estes romances "apresentam um mundo impiedoso onde o leitor é confrontado com um regime sem fuga de violência e submissão, caça e presa".

De "Lust", publicado na Alemanha em 1989, a academia disse que Jelinek "deixa sua análise social crescer até se tornar uma crítica fundamental da civilização, ao descrever a violência sexual contra as mulheres como o verdadeiro modelo de nossa cultura".

Mas em outros livros e peças ela concentrou suas críticas na Áustria e em sua recusa em enfrentar seu passado nazista. Em seu romance de 1975, "The Children of the Dead", ela descreve sua terra natal como, nas palavras da academia, "um reino de morte".

Hoje, Jelinek divide seu tempo entre Viena, onde vive sua mãe, e Munique, cidade de seu marido, Gottfried Hungsberg. Mas apesar de aclamada na Alemanha, onde venceu os prêmios Heinrich Boll em 1986 e Heinrich Heine em 2002, seu relacionamento com a Áustria continua complicado.

Mesmo na quinta-feira, enquanto o presidente da Áustria, Heinz Fischer, elogiava sua premiação com o Nobel como "um tributo a toda literatura austríaca", ela disse para a Rádio Sueca que não vê isto como "motivo de orgulho para a Áustria".

Monólogos polifônicos

Seus maiores críticos estão na extrema direita austríaca. Em 1998, o Partido da Liberdade de Jorg Haider distribuiu cartazes dizendo: "Você quer Jelinek, Turrini e Peymann, ou você quer arte?" (Peter Turrini, um escritor, e Claus Peymann, um diretor de teatro, também enfureceram os nacionalistas austríacos.)

Então, após a entrada do Partido da Liberdade no governo austríaco em 2000, Jelinek proibiu encenações de suas peças na Áustria. "Minhas palavras terão efeito ao não serem mais ouvidas", disse ela em uma declaração.

Mas ela não permaneceu em silêncio. Apesar de Haider ter deixado a liderança do Partido da Liberdade em 2000, no ano seguinte ela escreveu uma peça, "The Farewell", que atacava a extrema direita e foi produzida pela Berliner Ensemble em Berlim.

O diretor da produção, Ulrike Ottinger, transformou o monólogo de Jelinek em um coro estilo grego no qual o texto é falado por 13 atores vestidos ao estilo de Heider. "É mais um happening do que teatro", notou um crítico do "The Berliner Zeitung".

Certamente as peças de Jelinek não são nada convencionais. A Academia Sueca notou que, à medida que a atenção dela passou dos romances para o teatro, ela abandonou "o diálogo tradicional por uma espécie de monólogo polifônico que não serve para delinear papéis, mas para permitir que vozes de vários níveis da psiquê e da história sejam ouvidas simultaneamente".

Acentuando seu interesse na experimentação de todas as formas artísticas, Jelinek escreveu no ano passado um libreto para uma ópera composta por Olga Neuwirth, também austríaca, que foi baseada em "A Estrada Perdida", o enigmático filme de David Lynch.

"É praticamente impossível traduzir uma obra de arte como esta para outro gênero", disse Jelinek em uma entrevista para o NY Times na época. "Mas teatro musical é possível porque, como o filme, é outra forma de brincar com o fluxo do tempo."

Apesar da forma adotada por sua escrita mudar constantemente, seu propósito fundamental parece ser perturbar. Como a agência de notícias "France-Presse" a citou como tendo dito em uma entrevista recente: "Meus textos são limitados a descrever analiticamente, mas também polemicamente, os horrores da realidade. Redenção é a especialidade de outros autores, homens e mulheres". Obra de Elfriede Jelinek combate a opressão e o conservadorismo George El Khouri Andolfato

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