UOL Notícias Internacional
 

08/10/2004

Kerry e Bush se acusam na véspera do debate

The New York Times
Jodi Wilgoren*

Em Englewood, Colorado
O presidente George W. Bush e o senador John Kerry se engajaram em um debate a longa distância na quinta-feira (07/10) sobre um relatório feito pelo principal inspetor da CIA de armas ilícitas. Bush argumentou que o documento demonstrou que ele "optou pela ação correta" no Iraque, apesar de ter descoberto que Saddam Hussein eliminou os arsenais de armas ilícitas anos antes da invasão.

A declaração de Bush em Washington e uma defesa mais enérgica da sua ação, feita aqui, na tarde de quinta-feira, foram as suas primeiras respostas ao relatório de 918 páginas de autoria de Charles A. Duelfer.

Tanto Bush quanto o vice-presidente Dick Cheney se concentraram nos trechos do relatório que diziam que Saddam desejava retomar o seu programa de armamentos em algum momento e que o ex-presidente iraquiano descobrira formas de burlar as sanções econômicas.

Inflexível e desafiador, Bush disse do ditador iraquiano, na sua declaração no Gramado Sul da Casa Branca: "Ele tinha o conhecimento, os materiais, os meios e a intenção de produzir armas de destruição em massa. E ele poderia ter passado esse conhecimento aos nossos inimigos terroristas".

Kerry, encorajado porque o relatório demoliu a principal argumentação utilizada pelo governo para fazer a guerra, fez o seu discurso mais acusatório até o momento, dizendo aos repórteres em Englewood, Colorado, que Bush e o seu vice-presidente "podem muito bem ser as últimas pessoas neste planeta a não encarar a verdade sobre o Iraque".

Kerry acrescentou: "Esta semana forneceu evidências definitivas da razão pela qual George Bush não deve ser reeleito. Ele não está sendo honesto com os norte-americanos".

Tanto a velocidade quanto o calor das trocas de acusações pavimentaram o caminho para o segundo debate presidencial na noite desta sexta-feira (08) em Saint Louis. E talvez o mais importante, ficou comprovado como os dois candidatos depositaram os seus destinos eleitorais na forma como os eleitores julgam a questão do Iraque, ainda que o debate teoricamente seja voltado para questões econômicas e de política doméstica.

Falando para uma multidão exaltada de militantes republicanos, durante a tarde, o presidente citou exaustivamente uma declaração feita por Kerry no salão do Senado há quase exatamente dois anos, na qual o senador alertava para o perigo de que Saddam pudesse disseminar tecnologia nuclear pelo mundo.

Após ler a declaração de Kerry, Bush olhou para a multidão aglomerada em um parque da cidade e perguntou: "Quem é que está tentando enganar o povo norte-americano?".

O comitê de campanha de Kerry disse que Bush pinçou palavras fora do contexto e lembrou que no mesmo discurso Kerry disse: "A mudança de regime, em si e por si, não é uma justificativa suficiente para que se vá à guerra, especialmente de maneira unilateral, a menos que a mudança de regime seja a única forma de retirar do Iraque as armas de destruição em massa, segundo a resolução das Nações Unidas. Por pior que ele seja, Saddam Hussein, o ditador, não é uma causa para guerra".

Bush decidiu não ceder quanto à questão do Iraque, mesmo após uma semana que, segundo os seus próprios assessores, só trouxe más notícias, do relatório da CIA à declaração do ex-administrador dos Estados Unidos no Iraque, Lewis Paul Bremer, de que o governo enviou um número muito pequeno de soldados para garantir a ocupação do Iraque após o fim da invasão.

Para Kerry, que lutou durante a sua campanha de dois anos pela presidência para se defender das acusações de que o seu histórico de votações sobre a guerra é vacilante, o relatório de Duelfer e os comentários de Bremer consistiram em uma nova oportunidade para tentar redirecionar o debate para a argumentação de Bush para fazer a guerra e para a sua incompetência em ocupar o país.

Nesta quinta-feira, Kerry descreveu Saddam como um inimigo que o governo Bush "engrandeceu e mistificou", e advertiu que se Bush não reconhecer a gravidade dos problemas no Iraque, a violência no Oriente Médio aumentará.

Em um gramado que tinha como fundo os cumes nevados das Montanhas Rochosas, Kerry disse: "Meus compatriotas norte-americanos, não se podem fabricar ou encontrar razões para se fazer uma guerra antes de haver fatos".

Ele também se referiu aos recentes discursos de Bremer, nos quais este disse que Bush não enviou tropas suficientes para garantir a ocupação do Iraque. "O embaixador Bremer finalmente disse aquilo que John Edwards e eu vimos falando há meses. A decisão do presidente Bush de enviar um número insuficiente de tropas ao Iraque, sem pensar no que aconteceria após o fim do combate inicial, deixou os nossos soldados mais vulneráveis, transformou a situação em um caos e tornou a missão bem mais difícil de ser cumprida".

Bush estava nitidamente pronto para o ataque do senador, e chegou a Wisconsin armado de declarações feitas por Kerry antes da Guerra do Golfo Pérsico de 1991 e do debate que levou ao ataque desfechado no ano passado contra o Iraque.

"Há apenas algum tempo, o meu adversário organizou uma pequena coletiva à imprensa e continuou mantendo o seu padrão de retórica exagerada", disse Bush, poucos minutos após chegar aqui. "Ele me acusou de enganar. Ele está alegando que eu enganei os norte-americanos quanto às armas, quando ele próprio mencionou exatamente as mesmas informações de inteligência ao votar pela autorização da guerra".

A seguir, o presidente citou a declaração de Kerry no Senado, quando o democrata perguntou: "Quem pode dizer que esse mestre dos erros de cálculo não desenvolverá uma arma de destruição em massa ainda maior, uma arma nuclear, e a seguir voltará a invadir o Kuait ou expulsará os curdos, ou que atacará Israel, criando inúmeros cenários para tentar realizar as suas ambições? E quem pode afirmar que ele não permitirá que essas armas caiam nas mãos de algum grupo?".

A principal diferença entre os dois candidatos está na forma como eles lidam com a avaliação da CIA.

Bush diz que viu nas informações uma justificativa para uma guerra preventiva --uma prática internacional há muito estabelecida que permite que uma nação ataque antes de ser ela própria atacada. O relatório Duelfer indica agora que os dados de inteligência estavam errados nos seus principais aspectos.

Kerry disse que a inteligência do pré-guerra era um motivo para que se exigisse mais inspeções e pressão sobre Saddam Hussein, e afirmou que a sua votação pela autorização da guerra era parte dessa pressão. Mas ele culpa Bush por ter agido antes que o processo tivesse uma chance de funcionar.

Também nesta quinta-feira, Kerry respondeu a uma declaração de Condoleezza Rice, assessora de segurança nacional, que disse nesta semana que o Pentágono, e não a Casa Branca, seria o responsável por determinar o tamanho do contingente enviado ao Iraque. Ele lembrou que Rice trabalha na Casa Branca, que é quem dá a palavra final sobre as ações do governo.

"O presidente Bush acha sempre que os problemas são culpa de outras pessoas", declarou Kerry. "Não está correto que o governo culpe os nossos líderes militares, especialmente quando estes lhe dão conselhos que ele não acata. A verdade é que a responsabilidade é do comandante-em-chefe".

Kerry passou a quarta-feira em reclusão, treinando na companhia de uma grande equipe de assessores no salão de um hotel adaptado para lembrar o local do debate desta sexta-feira, deixando a resposta ao relatório da CIA e a um discurso áspero de Bush a cargo do seu companheiro de chapa.

Mas na quinta-feira ele não resistiu à oportunidade de falar sobre a questão do Iraque antes do debate da sexta.

Para ressaltar a magnitude da argumentação que ele tenta dirigir contra a credibilidade de Bush, Kerry usou a palavra "verdade" oito vezes durante vários minutos de discurso. "De mim vocês sempre ouvirão a verdade, seja nos períodos bons ou nos ruins", prometeu o candidato.

Quando lhe perguntaram sobre o trecho do relatório Duelfer que sugere que Saddam teria reconstruído as suas armas se as sanções da ONU fossem suspensas, Kerry disse: "Isso ressalta as falhas da diplomacia desse governo".

"Colegas, se vocês se deparam com um cara perigoso, se você suspeita que ele está fazendo algo, você não suspende as sanções. São esses os frutos da boa diplomacia", afirmou.

Já Cheney, falando em Miami, interpretou o fato de maneira oposta, dizendo que o relatório demonstrou que "tão logo as sanções foram suspensas ele tinha toda a intenção de retomar o programa de armas ilícitas".

"Postergar, ceder, esperar não eram opções", disse Cheney. "O presidente fez exatamente a coisa certa".

Em um discurso em Bayonne, Nova Jersey, Edwards fez coro a Kerry, afirmando que o governo Bush "deseja dizer que esquerda é direita, e que em cima é em baixo".

"Eis a verdade. O vice-presidente, Dick Cheney, e o presidente, George W. Bush, precisam reconhecer que a Terra é na verdade redonda, que o sol nasce no leste, e que não existe conexão entre Saddam Hussein e o 11 de setembro", concluiu Edwards.

*Colaboraram Raymond Hernandez, de Miami; Randal C. Archibold, de Bayonne, Nova Jersey e David E. Sanger, de Wausau, Wisconsin Candidato democrata insiste que o presidente mente sobre o Iraque Danilo Fonseca

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