UOL Notícias Internacional
 

08/10/2004

Kerry encarna Bush Pai para derrotar Bush Filho

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
É estranho que George W. Bush tenha tido o seu encontro em Samarra, no Iraque: os seus comandantes começaram a se contrapor aos irredutíveis insurgentes iraquianos, tentando mais uma vez dobrar uma esquina em uma guerra sem esquinas.

Bush lembra o protagonista do livro "Appointment in Samarra" ("Encontro em Samarra"), de John O'Hara: Julian English, cujo pai é Wasp (sigla em inglês para branco, anglo-saxão e protestante), aristocrata, famoso e ineficaz. Os amigos de Julian eram "perdulários, beberrões e socialmente seguros, daquele tipo que pode enfiar o dedo no nariz sem dar satisfações a ninguém, exceto às suas famílias".

Cheio de ressentimentos contra os pais e usufruindo da sua condição privilegiada, o filho se recusa a seguir os passos do pai de forma apropriada e, em vez disso, descamba, conforme as palavras de John Updike, para a "belicosidade impulsiva", caindo em uma espiral autodestrutiva que começa quando ele joga a bebida de um copo no rosto de um colega em um clube.

O'Hara usou como prefácio para o seu romance mais brilhante uma citação de Somerset Maugham sobre a futilidade de se recorrer a um roteiro reverso para evitar o destino: o servo de um mercador de Bagdá encontra a Morte em um mercado e foge à toda velocidade para Samarra, pensando que lá ela não conseguirá encontrá-lo. Mas, o que acontece é que o seu encontro não está marcado para Bagdá naquele dia, e sim para Samarra à noite.

W. sacode a nação e o mundo enquanto galopa a todo vapor, tentando freneticamente evitar o destino eleitoral do seu pai. Ele não precisa mais se irritar devido à sombra respeitável de Bush Pai. Atualmente ele pode fazer uma guerra com Saddam Hussein sem sequer discutir o assunto com o pai. E se quiser impedir que o pai discurse na convenção republicana, também pode.

Ainda que o presidente, resistindo a qualquer tentativa de colocá-lo "no divã", se recuse a admitir a existência de sensibilidades edipianas, John Kerry o atingiu talentosamente no ponto nervoso durante o primeiro debate.

Kerry evocou a voz de Bush Pai para penetrar a pele fina de Bush Filho. Quanto mais Kerry atuava como o herói de guerra sincero, apropriado, moderado e internacionalista, mais o presidente se via reduzido a caretas e irritações infantis, agindo como um menino desobediente que se recusa a sentar para comer seu espinafre e a fazer todas aquelas tarefas difíceis exigidas pelos pais.

"Vocês sabem, o pai do presidente não foi ao interior do Iraque, a Bagdá, não passou de Basra", disse Kerry, enquanto W. piscava e se enfurecia. "E o motivo pelo qual agiu dessa forma --ele disse isso e escreveu no seu livro-- foi que não havia uma estratégia viável de retirada. E ele disse que as nossas tropas seriam ocupantes em uma terra extremamente hostil. É exatamente lá que nos encontramos hoje. Existe a percepção de uma ocupação norte-americana".

Kerry falou a Bush Filho (o qual, emtermos de histórico militar, não passou de membro ocasional da Guarda Nacional) sobre as "missões extraordinariamente difíceis" das nossas tropas no Iraque: "Eu sei como é sair para uma dessas missões onde não se sabe o que encontraremos ao virarmos a esquina. E acredito que nossos soldados necessitem de outros aliados para ajudá-los".

Fazer o papel do pai é parte da estratégia dos clintonistas. No debate de 92, Bill Clinton usou o mesmo truque psicológico para desarticular Bush Pai. Contrapondo-se às indiretas maliciosas dos republicanos sobre uma viagem que ele teria feito quando jovem a Moscou, Clinton lembrou ao primeiro presidente Bush que o seu pai, o senador Prescott Bush, de Connecticut, enfrentara Joe McCarthy. "O seu pai estava certo ao enfrentar Joe McCarthy. Você está errado ao atacar o meu patriotismo".

Os Bush ficam bastante agitados quando confrontam espectros de pais cujas estaturas se lhes afiguram inatingíveis.

E mesmo que Kerry encarne mais o "lobo solitário" que o Papai Bush, eles têm características suficientes em comum --ambos são aristocráticos, filhos obedientes, astros da sala de aula e dos campos de esportes, heróis dos campos de batalha, donos de grossos currículos, membros do Conselho de Relações Exteriores, defensores da política multilateral-- para tirar W. do sério.

Um sinal de como W. ficou enervado foi o fato de ter que apelar para o seu sombrio e agourento pai substituto, Dick Cheney, que tem uma tendência patológica a jamais se desculpar, para arrumar a bagunça que fez no debate e trazer o time vermelho (cor dos republicanos) de volta ao jogo.

O vice-presidente protegeu a sua criança ao tratar John Edwards, de forma ainda mais acentuada, como um fedelho.

Kerry poderá assumir novamente a voz de Papai Bush no debate desta sexta-feira (08/10), lembrando que o pai de W. tentou consertar o problema do déficit, ao invés de fazer com que este chegasse à casa dos US$ 415 bilhões.

Os clintonistas injetaram na campanha de Kerry um novo lema: "É o divã, estúpido!". Democratas parecem ter acertado o ponto fraco do atual presidente Danilo Fonseca

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