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09/10/2004

Bush precisa aprender que ignorância não é força

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
A primeira vez que eu usei a expressão "orwelliana" para descrever a equipe de Bush foi em outubro de 2000. Já naquela época era óbvio que George W. Bush se cerca de pessoas que insistem em dizer que "para cima" é "para baixo", e que a ignorância é uma força. Mas somente agora está ficando mais claro o custo integral de toda essa negação da realidade.

O presidente Bush e o vice-presidente Dick Cheney têm uma capacidade ímpar de se isolarem dos fatos que lhes são inconvenientes. Eles comandam um partido que controla todos os três poderes da república, e encaram uma mídia que em alguns casos é formada por partidários, e em outros casos tem profissionais que relutam em afirmar categoricamente que os governantes não estão contando a verdade. Acontece também que Bush e Cheney ainda aproveitam os resíduos de fé depositados neles após os ataques de 11 de setembro.

Tudo isso tem permitido a eles se mobilizarem numa atitude que o autor George Orwell chamava de "controle da realidade". Na visão de mundo do governo Bush, nossos líderes são infalíveis, e todas suas ações sempre são bem sucedidas. Se os fatos não se encaixam nessa suposição, eles simplesmente negam os fatos.

Enquanto estratégia política, o controle da realidade tem funcionado muito bem. Mas, enquanto estratégia para se governar uma nação, esse controle já levou a um desastre previsível.

Quando os líderes vivem uma realidade inventada, eles se saem mal quando passam a lidar com a, digamos, realidade real.

Nos últimos dias temos visto algumas demonstrações práticas impressionantes desse controle da realidade. Durante o debate da terça-feira, Cheney insistiu: "Eu nunca sugeri que havia uma conexão entre o Iraque e os ataques de 11 de setembro".

Após a divulgação do relatório Duelfer, com suas revelações de que a capacidade bélica de Saddam estava se deteriorando, e não aumentando, na época da invasão, Cheney declarou que o relatório provava que "adiar, retardar e esperar não eram opções válidas".

De um ponto de vista político, essas manobras de negação têm sido bem sucedidas. Por exemplo, o governo Bush já conseguiu convencer muitas pessoas de que seus cortes de impostos, que beneficiam principalmente a pequena porcentagem da população formada pelos mais ricos, são medidas populistas que trazem vantagens para as famílias de classe média e as pequenas empresas.(De acordo com a definição do governo, qualquer um que tenha "renda empresarial" --um grupo que inclui Dick Cheney e George Bush-- é considerado um pequeno empresário batalhador.)

O governo também conseguiu convencer pelo menos algumas pessoas que seu desempenho econômico, que inclui os piores resultados na área de empregos dos últimos 70 anos, é um grande sucesso, e que a economia é "forte e está se fortalecendo."

Na verdade, o medíocre aumento do número de empregos fará de Bush o primeiro presidente desde Herbert Hoover (que governou o país entre 1928 e 1932, durante a quebra da bolsa de NY) cuja gestão terminou com menos postos de trabalho do que quando começou.

Os governantes conseguiram até convencer muitas pessoas de que estão avançando na política ambiental. Eles alardeiam o plano "Clear Skies" ("Céus Límpidos") mesmo com o inspetor geral da Agência de Proteção do Meio Ambiente (EPA) declarando que o cumprimento das regras vigentes de controle da qualidade do ar já foi por água abaixo.

Mas a habilidade política do governo Bush em negar a realidade --a habilidade de viver num mundo inventado, em que tudo existe da maneira desejada pelos governantes-- já conduziu ao atual desastre no Iraque e a evidentes desastres em outros cantos.

Como pôde dar tão errado a ocupação do Iraque? (O quadro de segurança na região já se deteriorou ao ponto de não existirem mais lugares seguros: terça-feira foi descoberta uma bomba bem em frente a um conhecido restaurante dentro da própria Zona Verde de segurança.)

O isolamento dos governantes em relação à realidade é um ponto-chave nessa história. Eles quiseram acreditar nas promessas de Ahmad Chalabi, de que nós seríamos recebidos com flores; e ninguém podia lhes dizer nada diferente disso.

Eles quiseram acreditar --meses após todos do lado de fora do governo terem percebido que estávamos encarando uma rebelião de peso e perigosa, e que precisávamos de mais soldados-- que os agressores eram apenas um punhado de terroristas estrangeiros e Baathistas desesperados; e ninguém podia lhes dizer nada diferente disso.

Por que o desempenho da economia é tão ruim? Tempos depois de ficar claro para todos do lado de fora do governo que a estratégia de cortes de impostos não era uma maneira eficiente de criar postos de trabalho, os atuais governantes continuaram a prometer grandes avanços na área de empregos, que estariam para acontecer a qualquer momento. E ninguém podia lhes dizer nada diferente disso.

Por que a caça aos terroristas tem sido tão mal sucedida? Há alguns anos já ficou claro que John Ashcroft não é apenas um sujeito assustador; ele também é assustadoramente incompetente. Mas, dentro do governo, ele é considerado o homem certo para a função - e ninguém pode lhes dizer nada diferente disso.

A questão é que no mundo real, em oposição ao mundo da política, a ignorância não é uma força. Um líder que detém um poder político que ele usa para fingir que é infalível, e que utiliza esse poder para evitar a mínima admissão de erros eventuais, no final das contas comete erros tão grandes que não podem mais ser encobertos. E é isso o que está acontecendo com Bush. Republicanos se especializam na manipulação diária da realidade Marcelo Godoy

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