UOL Notícias Internacional
 

10/10/2004

Americanos só acham lavradores e barro no Iraque

The New York Times
James Glanz

em Al Yusufiya, Iraque
Batidas de casa em casa neste trecho perigoso do território, a cerca de 50 quilômetros ao sul de Bagdá, têm revelado poucos homens em idade de luta, levando os comandantes americanos a acreditarem que os rebeldes estão se dispersando antes da chegada das tropas que estão tentando colocar a área sob controle do governo iraquiano.

Ao mesmo tempo, a inteligência tem sido escassa aqui, levando a batidas noturnas contra o que parecem ser apenas famílias rurais assustadas. E o território rural -estradas encharcadas pela irrigação que são estreitas demais para veículos blindados ou fracas demais para suportar seu peso- anulam em parte a vasta vantagem tecnológica americana.

Em pelo menos um caso, o problema com as estradas secundárias iraquianas provocou um apuro desastroso de oito horas, no qual os novos veículos blindados Stryker atolaram em um campo irrigado enquanto perseguiam um rebelde que tinha acabado de disparar morteiros contra eles. O agressor escapou. Nenhum soldado americano foi ferido enquanto se esforçavam para desatolar os veículos em um território arriscado após o anoitecer.

Na madrugada de sexta-feira, os soldados revistaram duas cidades a leste do Rio Eufrates e as encontraram desertas, virtuais cidades fantasmas.

E quando as batidas revelaram depósitos de armas, os homens que as colocaram lá não foram encontrados. Em um caso, várias mulheres com casas cheias de crianças disseram que seus maridos tinham morrido.

"Um coisa notável é perceber como o inimigo mudou", disse o capitão Bart Hensler, que comanda uma unidade Stryker que está participando das operações. "Nós estamos tentando permanecer um passo à frente, mas infelizmente o inimigo tem a vantagem."

O tenente coronel Buck James, comandante de batalhão na Brigada Stryker, também notou a tendência. "O que está acontecendo é que o inimigo, ao longo do tempo, está se adaptando às nossas táticas", disse ele.

James disse que apesar de se misturar à população ser uma tática de guerrilha tradicional, ela pode estar prejudicando a insurreição aqui. Na cultura machista do Iraque, disse ele, a não disposição dos rebeldes em oferecer um combate direto poderá acabar lhes custando o apoio das mesmas pessoas que os estão acobertando agora.

O general de exército Thomas F. Metz, comandante das forças de solo no Iraque, disse acreditar que o problema de rastrear os homens em idade de combate aqui "se restringe a este tipo particular de operação" e não vale para o país como um todo.

O otimismo persistente de muitos soldados americanos nesta parte do Iraque foi resumido pelo capitão Rob Krauer da 24ª Unidade Expedicionária Marine, que enfatizou a necessidade de treinar os iraquianos para operações de casa em casa a longo prazo. "Nós podemos vencer a guerra desta forma", disse ele.

Mas as frustrações diárias de perseguir um inimigo fantasma ficaram igualmente evidentes nas palavras do especialista Anthony Ellis, suando no interior de um Stryker enquanto deslizava na lateral de uma minúscula pista, parando subitamente e se inclinado precariamente, com suas quatro rodas direitas atoladas em uma vala de irrigação.

"Nosso homem escapou de novo pelas frestas", disse Ellis, com decepção em sua voz.

As batidas são parte de uma operação envolvendo cerca de 2.500 marines e soldados e um número muito menor de soldados iraquianos, que estão tentando retomar áreas que se tornaram fora dos limites -locais onde o governo iraquiano e as forças lideradas pelos Estados Unidos têm exercido pouco controle- antes das eleições nacionais daqui em janeiro.

O esquivez dos rebeldes ficou clara nas primeiras horas da quarta-feira, quando uma batida apreendeu grande quantidade de morteiros, artilharia e granadas propelidas por foguete, mas nenhuma pessoa. Os soldados pesquisaram posteriormente outros prédios na área deserta e encontraram várias mulheres e crianças. Interrogadas, as mulheres mantiveram que seus maridos morreram.

Vários oficiais disseram que aeronaves não-tripuladas de reconhecimento avistaram até seis homens na área poucos minutos antes da chegada das tropas. James, que disse que episódios semelhantes já ocorreram repetidas vezes, disse que a resposta rápida dos supostos rebeldes indica que desenvolveram uma rede eficaz de vigilância para monitorar as tropas americanas. Após o anoitecer de quarta-feira, uma batida separada levantou dúvidas sobre a eficácia da inteligência americana aqui. Agindo segundo uma dica de que um grupo de casas rurais servia de base para disparos de morteiro contra uma usina de força próxima, um grupo de marines, soldados e veículos blindados invadiu a área.

Uma carga explosiva foi usada para explodir a porta de uma casa quando ninguém a atendeu. A casa estava deserta. Mas na casa vizinha, os soldados encontraram uma família assustada de oito pessoas encolhidas em um cômodo.

O chefe da família, um homem de meia idade que disse que seu nome era Abd Jassin Hamid, estava à frente dos demais, que estavam agachados em um canto. Mas quando perguntado por um repórter em um árabe precário se havia mujahedeen na área, o filho de Hamid, Adnan, se levantou e disse em inglês: "Não, não, não, não, não".

Enquanto os soldados americanos armados aguardavam um intérprete, Adnan e seu pai fizeram sinais de cavar, indicando por gestos que eram apenas lavradores.

Em outra casa, uma mulher e seis crianças estavam agachadas do lado de fora da porta da frente, assistindo em aparente choque enquanto os americanos, usando óculos de visão noturna, invadiam sua casa. Havia um homem no interior. Ele se identificou como Jassin e nervosamente mostrou a casa aos americanos. Eles encontraram um rifle automático e uma revista de munição, autorizados para proteção pessoal.

Ainda assim, Jassin explicou tristemente o motivo de ter a arma. "Iraque cheio de Ali Babá!" disse ele, que significa que há ladrões no Iraque, uma afirmação que não pode ser contestada, e indicando que ele necessitava da arma para proteção pessoal.

Os americanos indicaram que não encontraram motivo para suspeitar que os lavradores estivessem envolvidos em atividade rebelde, mas voltaram em peso no dia seguinte para checar as outras construções do complexo. Uma família ocupava outra casa enquanto dois bezerros bem tratados pastavam em um cercado.

Novamente nada foi encontrado, e como não havia intérprete disponível, um dos soldados, que tinha um rifle pendurado em um cinto cheio de munição e outras armas, se esforçava para encontrar uma forma de dizer que estavam partindo. "Tudo o que sei é 'shukran'", disse ele, se voltando para seus colegas e usando a palavra em árabe para obrigado.

Foi sugerido que ele poderia dizer "Ma'a salama", as palavras tradicionais para adeus.

"Não consigo aprender todas estas coisas", disse o soldado, se afastando e dizendo um palavrão.

Às 15 horas daquele dia, quinta-feira, os soldados estavam em um acampamento perto da ponte estratégica Jurf Kas Sukr, que cruza o Eufrates, quando dois morteiros explodiram, um perto o suficiente para causar um barulho ensurdecedor. Os Strykers partiram na perseguição.

A caçada começou promissora, com picapes sendo avistadas se afastando da área em que achavam que os morteiros foram disparados.

"Nós vamos vaporizá-los", disse Ellis confiante.

A primeira coisa que os soldados foram obrigados a fazer foi atingir com fogo pesado de metralhadora uma picape Toyota, estacionada, aparentemente vazia e que se encontrava no caminho, caso contivesse uma bomba. Os veículos passaram rapidamente e continuaram a perseguição.

Mas em uma pista estreita, as quatro rodas da direita de um Stryker atolaram em uma vala de irrigação. Então um segundo Stryker do comboio derrapou e também ficou atolado.

Enquanto o sol se punha no campo, os veículos ainda estavam atolados, e o carro-socorro enviado para buscá-los também ficou brevemente atolado. Um segundo carro-socorro chegou.

À meia-noite, muito depois dos lavradores locais terem perdido o interesse na operação, o último Stryker foi tirado da lama e os soldados retornaram para seu acampamento. George El Khouri Andolfato

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