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11/10/2004

Adolescentes participam da campanha nos EUA

The New York Times
Damien Cave

The New York Times
Quando o presidente Bush visitou Wausau, no Estado de Wisconsin, na última quinta-feira, para participar de um comício, Samantha Wimmer, 17, ficou na primeira fila, um privilégio que conseguiu por distribuir pôsteres de Bush e Cheney e pedir votos para a chapa republicana.

Na Escola de Segundo Grau Jackson, próxima a Lansing, no Michigan, os alunos estão engajados em uma verdadeira batalha política de grafites, marcada por slogans como "Dêem descarga nos Johns" e "Chega de mentiras. Derrotem Bush!".

Na afluente Greenwich, Connecticut, Chris Bianchi, aluno do terceiro ano do segundo grau, passa a maior parte do seu tempo livre distribuindo panfletos para democratas da região. Embora a eleição seja no dia do seu 17º aniversário, o que significa que ele tem exatamente um ano a menos que a idade mínima para votar, no dia 2 de novembro Chris pretende trabalhar como voluntário nas seções eleitorais de 5h30 até à noite.

"Todos os votos contam", disse ele. "Gostaria de poder votar, e há muita gente como eu".

Bem, talvez. Na maior parte das escolas de segundo grau, Ashton Kutcher ainda é um tópico de discussão bem mais popular do que o senador Kerry ou o presidente Bush. Mas vários professores, adolescentes e especialistas em política dizem que estudantes adolescentes de todo o país estão cada vez mais voltados para a política, e empolgados com a eleição. Muitos dizem que a guerra no Iraque os mobilizou para o engajamento político. As imagens de homens e mulheres jovens lutando e morrendo geraram apoio e críticas cáusticas ao governo Bush.

Questões domésticas, que vão do aumento dos custos da educação superior ao meio-ambiente, também parecem ser populares entre os estudantes de segundo grau. E a disputada eleição de 2000 mostrou que todo voto é importante.

A mudança do foco das atenções é dramática: a quantidade de adolescentes entre 15 e 17 anos que diz que votar não é importante caiu de 52% em 2002 para 9% em janeiro deste ano, segundo pesquisas do Centro de Informação e Pesquisas sobre Aprendizado Cívico e Engajamento, uma organização de pesquisas voltada para os jovens.

Os estudantes também estão discutindo política com mais freqüência com os pais, revela a pesquisa. Além disso, alunos do segundo grau na Califórnia estão pressionando para que haja uma legislação que reduza a idade mínima permitida para o voto. Adesivos da campanha podem ser vistos nos pára-choques dos carros parados nos estacionamentos de várias escolas. E clubes de atividades políticas extracurriculares estão surgindo e se expandindo.

"Desde 1972 não se presencia nada como isto - e talvez tal fenômeno nunca mais volte a ocorrer", diz Todd Gitlin, autor do livro "The Sixties: Years of Hope, Days of Rage" ("A Década de Sessenta: Anos de Esperança, Dias de Fúria"), e ex-presidente da organização Estudantes por uma Sociedade Democrática, que protestou contra a Guerra do Vietnã. "Há uma paixão real envolvida neste movimento".

No entanto, esta não é uma versão requentada de um movimento anterior, segundo Michel Kazin, professor de história da Universidade Georgetown e co-autor do livro "America Divided: The Civil War of the 1960's" ("Estados Unidos Divididos: A Guerra Civil dos Anos 60"). A idade mínima para votação foi reduzida nacionalmente de 21 para 18 anos em 1971. Ele explica que os ativistas do final dos anos 60 e início dos 70 estavam insatisfeitos com os partidos políticos devido à guerra do Vietnã e outras questões, de forma que se concentraram em transformar a sociedade a partir de iniciativas externas ao sistema político, como protestos, drogas e comunidades utópicas. "Agora, esse descontentamento foi canalizado para um dos dois principais partidos", explica Kazin.

E a cultura pop sem dúvida contribuiu para esse fenômeno. Os adolescentes politizados da era do Vietnã se inspiravam em músicas como as de Bob Dylan, que denunciava os "senhores da guerra", sem sugerir que as eleições fossem a melhor forma de se livrar deles. Já os adolescentes de hoje dizem ter sido influenciados por artistas como P. Diddy, que deixa a solução bem clara em camisetas que trazem inscrições como: "Votar ou Morrer".

"Todos se inspiram em alguma celebridade, seja do meio musical ou do cinema", diz Lily Semel, 17, aluna da Windward, uma escola particular de Los Angeles. "E toda vez que vemos as celebridades falando sobre a eleição, tudo o que elas dizem é 'votem'. Elas não tentam fazer a cabeça de ninguém - dizem apenas 'votem'. E é uma mensagem forte, que realmente tem impacto sobre as pessoas".

A imagem de adolescentes preenchendo o formulário de registro para a eleição já se tornou comum em eventos envolvendo a participação de celebridades em todo o país. Quando Russel Simmons e a Cúpula do Hip-Hop, um programa de recrutamento de jovens eleitores, chegou ao Bronx no verão deste ano, uma multidão de quase mil jovens -vários deles com menos de 18 anos - gritava os nomes de celebridades também jovens, como Nina Skye. A seguir, eles ouviram uma longa palestra sobre música e o valor da eleição.

As escolas de segundo grau exibem uma forma de expressão política própria, que tende a ser mais competitiva. É como se a política fosse esporte: os estudantes torcem pelos seus jogadores favoritos.

E a rivalidade é parte do jogo. Cari Christman, vice-diretora da Fundação Nacional dos Jovens Republicanos, um grupo de conservadores de 18 a 40 anos, diz que o seu grupo recebeu neste ano cerca de 25 e-mails de adolescentes que procuravam conter grupos de jovens democratas nas suas escolas. Na Escola Wausau West, em Wausau, a motivação seguiu caminho inverso: um clube de jovens democratas foi criando para se contrapor ao dos jovens republicanos, fundado em setembro.

E em Jackson, Michigan, onde o Partido Republicano realizou uma das suas primeiras reuniões em 1854, os clubes políticos de escolas de segundo grau só entraram em ação após 31 de agosto, quando um muro que era usado para a pichação de slogans esportivos apareceu pintado com a imagem de um vaso sanitário com os dizeres, "Dêem descarga nos Johns". Horas depois, o muro foi repintado com a mensagem "Derrotem Bush!", antes de ser novamente coberto por slogans mais agressivos.

Beth Wilson, estudante e fundadora do clube de jovens democratas da escola, diz que esse jogo de ataque e contra-ataque é parte da diversão. Segundo ele, a maioria dos estudantes vê o debate como "legal".

Outros estudantes também dizem que a política se tornou parte das conversas diárias, deslocando-se para além daquele grupo que, segundo um adolescente, é formado por "fanáticos da democracia". Andrew Simon, 16, de Portland, Oregon, diz que no dia seguinte ao primeiro debate presidencial, os corredores da Escola de Segundo grau Sunset foram tomados pelas conversas a respeito das gafes e triunfos dos candidatos.

Freqüentemente, o resultado é um drama para os adolescentes. Beth diz que, em setembro, passou um almoço inteiro discutindo com uma amiga que usava uma camiseta negra com a frase: "O aborto é cruel". Já Dan Hunsager, 17, aluno da Wausau West e fundador do clube de jovens republicanos, diz que discute freqüentemente com outros estudantes que usam camisetas com frases que comparam o presidente a um terrorista.

Várias escolas responderam a tais conflitos com a proibição da expressão política por meio de roupas. "Esse tipo de discussão ocorre na sala de aula", argumenta Fred Riccio, diretor da Escola de Segundo Grau John P. Stevens, em Edison, Nova Jersey, que pediu a um aluno para tirar uma camisa com uma alusão à guerra do Iraque na primavera passada (alguns estudantes que receberam a ordem de trocar de camisa entraram com processos contra as escolas, e a tendência é que vençam na Justiça).

Até mesmo discussões acaloradas, como aquela de Beth sobre o aborto, raramente acabam com a amizade. Embora os clubes republicanos e democratas discordem entre si, eles freqüentemente trabalham juntos. Na Escola de Segundo Grau C.K. McClatchy, em Sacramento, Califórnia, por exemplo, estudantes que são adversários políticos estão organizando uma palestra para tentar conseguir urnas de verdade para a sua eleição simulada em 25 de outubro.

"Creio que os estudantes são simplesmente mais abertos que os adultos a idéias diferentes", diz Thien Vinh Gnuyen, 17, aluno da Escola McClatchy, e membro da Associação Californiana de Conselhos Estudantis. Neste ano, o grupo está patrocinando uma lei no Estado que daria aos jovens de 14 e 15 anos o direito a um voto que valeria um quarto do voto comum. Para os jovens de 16 e 17 anos foi pedido o direito a um voto com a metade do valor do voto tradicional. "Como a maioria dos estudantes não conhece ao certo a própria posição em termos de política partidária, vários estão dispostos a ouvir os argumentos de diferentes facções e a descobrir qual delas atende melhor aos seus interesses".

A pesquisa de 2004 do Centro de Informação e Pesquisas sobre Aprendizado Cívico e Engajamento revelou que a maioria dos jovens entre 15 e 17 anos não possui lealdades políticas bem definidas: no universo dos entrevistados, 39% disseram que não sabiam com que partido se identificavam, e 26% se definiram como independentes. "Podemos afirmar que eles têm a mente mais aberta", diz Dan Shea, diretor executivo do Centro de Participação Política, uma organização de pesquisas voltada para a juventude, da Faculdade Allegheny, em Meadville, Pensilvânia. "Eles discutem, mas continuam sendo amigos".

Ou será que eles são apenas superficiais? Melvin Levine, autor de um livro sobre a transição da escola para o trabalho entre indivíduos de 17 a 29 anos, que deverá ser publicado em janeiro pela editora Simon & Schuster, diz que a maioria dos estudantes de segundo grau vê a eleição como apenas mais um reality show. "Segundo o que temos observado, eles estão mais interessados e engajados, mas não os vejo lendo livros na Barnes & Nobles sobre Bush, Kerry e o terrorismo", afirma.

"Não importa", respondem muitos adolescentes. Dan Hunsanger, por exemplo, está arrecadando verbas para comprar livros mais conservadores para a biblioteca da Wausau West, incluindo alguns dos seus favoritos, como "Who's Looking Out For You?", ("Quem Está Tomando Conta de Vocês?").

Há também dezenas de alunos do segundo grau, como Henry Beck, 18, de Waterville, Maine, que trabalha em um dos projetos de mobilização de eleitores organizado por Bruce Springsteen e outros astros. Enquanto isso, Heath Boddie, 16, que freqüenta uma escola de segundo grau na cidade de Converse, na região rural da Louisiana, que tem apenas 300 alunos, diz que foi tomado pela febre da política.

Heath diz que gostaria de contar com um candidato democrata diferente. Mas ao invés de dar as costas para o sistema, ele decidiu investir as suas energias na chapa que promete lutar pelo meio-ambiente e outras questões com as quais se preocupa.

"Se não quisermos mudanças, mas não participarmos, não poderemos reclamar. Mas se entrarmos no processo e manifestarmos a nossa insatisfação com o atual estado de coisas, nesse caso teremos tal direito", afirma. Danilo Fonseca

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