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11/10/2004

MTV tenta mostrar o verdadeiro "The O.C."

The New York Times
Alex Williams

The New York Times
O novo programa "Laguna Beach: The Real Orange County" fez sucesso entre os jovens de Laguna Beach quando estreou, há duas semanas. Isso não é de surpreender: quando uma rede de televisão global adentra um balneário boêmio e tenta retratá-lo como a Mônaco americana, certamente atrai a atenção dos jovens do lugar.

Não que os jovens não o tenham criticado.

"Não somos tão ricos", disse Bradley Burdick, 18, que trabalha no caixa da loja Laguna Surf and Sport, onde o galã do novo programa, Stephen, trabalha. A série acompanha adolescentes ricos e bonitos durante cinco meses de festas, telefonemas, paqueras e mais festas.

"Todo mundo aqui concorda que o programa foi embaraçoso", acrescentou Alex Richey, 22, sentada ali perto; ela achou ridícula a idéia dos estudantes fazerem uma festa formal, "Branco e Preto", em uma suíte de hotel alugada -a não ser que a MTV estivesse pagando.

"Eles só mostram materialismo em Laguna", reclamou Bem Tomkinson, 18, colega de alguns dos membros do programa. "Laguna é, de fato, um lugar muito artístico, muito ligado às raízes".

Mas essa é a realidade do novo condado de Orange, particularmente desde que o drama da Fox "The O.C." tornou-se um fenômeno da cultura popular, no ano passado. O conjunto de comunidades planejadas e cidades de praia ao sul de Los Angeles tornou-se reconhecido no mundo todo, espantosamente, como a materialização de tudo que está na moda, tudo que é jovem e glamoroso.

Para os que têm raízes no condado de Orange, como eu, isso é bizarro. É como se os organizadores da semana da moda de Nova York tivessem tirado as tendas de Bryant Park e transferido-as para Bergen County, Nova Jersey, a recém descoberta capital de tudo que é bom. Um pouco de história: há vinte anos, depois de décadas no Norte da Califórnia, meus pais se mudaram para uma casa geminada bege, como muitas, muitas outras na Mission Viejo, uma cidade administrada por uma subsidiária da Philip Morris.

Em uma conversa que tive com uma pessoa do lugar, mencionei Tom Waits. "Weights?" ela respondeu alegremente, confundindo o nome do músico com a palavra 'peso'. "Meu marido e eu queremos começar a levantar peso."

Para mim, essa anedota descrevia o condado Orange.

Antes de ir embora, em 1989, cheguei à conclusão de que a única incursão de vanguarda ao condado tinha sido em Western White House, de Richard M. Nixon, e que isso foi em 1970, quando bandos de yippies invadiram a Disneylândia e plantaram uma bandeira vietcong na ilha de Tom Sawyer.

Teria mudado tanto?

Para descobrir -assim como entender o apelo do condado de Orange mítico, que subitamente capturou a imaginação da cultura pop- aventurei-me de volta ao lugar recentemente. Concluí que os moradores têm consciência de sua atual posição diante dos holofotes e nem sempre ficam felizes em corresponder ao estereótipo.

Brandon Matteson, 19, de Irvine, no interior do condado, reclamou que na colônia de férias de esqui que freqüentou em Mount Hood, no Oregon, seu apelido logo se tornou 'OC'.

Ele revirou os olhos. Antes do programa da Fox, ninguém era chamado de OC. "É tão obsceno, como as pessoas acham que, se você nasceu aqui, automaticamente tem uma Land Rover e uma casa de US$ 1 milhão (em torno de R$ 3 milhões) na praia", acrescentou.

T. Jefferson Parker, autor de uma série de romances policiais ambientados em Laguna Beach ("California Girl" foi seu mais recente), disse: "É um escapismo maravilhoso. No 'The O.C.' todo mundo é bronzeado e igual, e as praias são adoráveis. Isso mexe com o desejo de todos de algum tipo de Shangri-La."

O atual fascínio com o condado aproveita-se da necessidade que os americanos parecem ter de criar uma bolha na qual fantasias adolescentes podem se realizar ao sol, removidas de qualquer complicação do mundo real, como guerra ou desemprego. Certamente existem outras Mecas da praia, como Miami, mas que, com sua cultura de cocaína e ritmo de salsa, é complicada demais. Lugares como East Hampton, com suas cercas vivas, são impenetráveis demais.

O condado de Orange, por outro lado, sempre quis apresentar ao mundo uma cara limpa, de ordem e prosperidade. Essencialmente, é uma forma atualizada do otimismo suburbano dos Beach Boys, de 40 anos atrás. (Hoje em dia, os jovens se divertem à vontade, até os pais cancelarem seus cartões de crédito).

Jon Wiener, professor de história da Universidade da Califórnia em Irvine que escreve para o The Nation, acredita que essa nova imagem perfeita da região ecoa impulsos culturais similares ao conservadorismo político histórico do condado. "É uma tentativa de voltar à Califórnia dos anos 50 e 60, aquele paraíso da classe média", disse Wiener. "O sol, a praia, a saúde, a felicidade de ser jovem. Vejo isso como uma nostalgia da Califórnia do passado."

Apesar de os principais atores de "The OC" e "Laguna Beach: The Real Orange County" serem brancos, o Los Angeles Times informou que, pela primeira vez, os brancos não são a maioria dos quase 3 milhões de habitantes do condado. A política do condado, há muito um reduto de Republicanos conservadores, está começando a refletir a chegada de imigrantes latinos e asiáticos.

Tradicionalmente, a fronteira norte com Los Angeles marca o limite de um lugar perigoso e sujo para os moradores do condado de Orange. Segundo os especialistas, isso é especialmente verdadeiro para os que fugiram de bairros que eram brancos, como Compton, há quase uma geração.

"O morador típico do condado acredita que merece um lugar perfeito", disse Parker. "Ninguém quer ir para a máfia de LA".

Desde que a Disneylândia abriu em Orange County, em 1955, as imobiliárias tentam criar variações residenciais "do lugar mais feliz da terra". "É tamanha fantasia", disse Meghan Flaherty, 25, cabeleireira em Irvine.

Comunidades homogêneas e protegidas desenvolvem códigos culturais próprios que, por sua vez, podem ser destilados em estereótipos úteis a Hollywood.

Quando o primeiro episódio de "Laguna Beach" foi ao ar, no dia 28 de setembro, já sabíamos que Lo ia comprar sua maquiagem da MAC no mega shopping South Coast Plaza, o mesmo onde Marissa fez roubos durante a primeira temporada de "The O.C". Já reconhecíamos Morgan, com seus cachos morenos sedosos e suas inflexões vocais afluentes. Ela não faz lembrar a Summer de "The O.C"?

A MTV é franca sobre o que a atraiu para Laguna Beach, uma comunidade a poucos quilômetros ao sul de Newport Beach, cenário de "The O.C." (que atualmente é filmado no condado de Los Angeles). "A idéia foi: 'The O.C' é tão popular, mas é um programa de roteiro. Não seria legal mostrar os jovens de verdade do lugar?" disse Tony DiSanto, produtor executivo de "Laguna Beach". Ele não quis especular qual seria o significado mais amplo do condado.

"The O.C." tem tantos clichês do Sul da Califórnia que estes se tornaram um jogo para jovens locais nas festas semanais do "O.C.".

"Toda vez que Marissa faz um olhar sonso, você tem que beber", explicou Marc Conner, 26, da Huntington Beach. "Toda vez que Ryan congela o olhar, você tem que beber." E toda vez que alguém disca o código 909, para o condado mais humilde de Riverside- os participantes têm que virar o copo.

Uma bolha pode ser considerada uma concha protetora ou pode ser considerada uma prisão por aqueles que a consideram sufocante. "Quase todo mundo que eu conheço diz que quer ir embora assim que completar 18 anos", disse Colin Dunleavy, 22, que ajudou a financiar sua própria fuga da uniformidade de Mission Viejo vendendo seu álbum escolar por US$ 75 (em torno de R$ 225) para outro aluno que esqueceu de encomendar o seu. Sua liberdade o levou até a loja de discos Underdog Records, em Laguna Beach, onde hoje trabalha.

Para qualquer um que conhece o condado de Orange, é surpreendente ouvir a MTV chamar Laguna Beach de verdadeira representante do condado. A cidade, por muito tempo foi um pilar liberal escondido em um reduto Republicano. Valhalla tem uma população gay crescente e ainda é o melhor lugar ao sul de Venice Beach para se encontrar uma loja vendendo macarrão de farinha de maconha. Culturalmente, tem mais em comum com Provincetown, Massachusetts, do que Garden Grove, lar da Crystal Cathedral de Orange County.

Mas Laguna está mudando. De acordo com um relatório recente pela Associação Californiana de Agentes Imobiliários, a cidade, cujas casas têm preço médio US$ 1,4 milhão (em torno de R$ 4,2 milhões), é hoje o terceiro endereço mais caro da Califórnia, na frente até de Newport Beach, a antiga cidade de John Wayne e nova de Kob Bryant.

"Uma geração de pessoas foram para a região apreciar um estilo de vida na praia", disse Kem Nunn, autor do romance de surfe "Tapping the Source", que mora em Laguna Beach.

O consumismo de Laguna Beach, assim como de "Laguna Beach", a série, está se tornando lugar comum, na medida em que o Orange County desenvolve uma cultura mais mundana, adequada a sua economia internacional.

No LAB Anti-Mall em Costa Mesa, um shopping center super elegante, pode-se encontrar um top de Comme des Garçons ou um par de tênis Nike feito sob medida -coisas raras, encontradas em paraísos de compras como Melrose Avenue em Los Angeles ou SoHo, Nova York.

Shaheen Sadeghi, ex-estilista de moda esportiva da Quiksilver Inc. que desenvolveu o LAB, disse que os gostos urbanos estão chegando. "Metade das pessoas não sabe nada sobre o que está acontecendo, metade das pessoas estão curtindo", disse ele.

Rock alternativo

Fiquei surpreso com o rock and roll que vi em Orange County. Nos anos desde que saí, nasceu uma contracultura pequena, mas ativa, geralmente em cidades do interior onde os personagens de "O.C." só apareceriam se tomassem uma saída errada da Freeway 5. Brotam galerias de arte no centro de Santa Ana e, em Costa Mesa, há uma cultura alternativa de lojas de café, virtualmente à sombra do South Coast Plaza.

Agora há a revista alternativa OC Weekly, que talvez seja mais audaciosa do que a publicação mãe, The Village Vocie, da qual brotou em 1995.

"Vou mostrar a vocês o verdadeiro condado de Orange", prometeu Rebecca Schoenkopf, que escreve a coluna salgada "Commie Girl", no OC Weekly. Se essa publicação serve de identidade do condado, Schoenkpf, vestindo botas de plástico vermelhas até os joelhos e uma mini-saia do tamanho de um cinto de halterofilista, é a identidade da identidade.

No curso de uma noite, ela liderou uma excursão aos bares do condado, freqüentados, entre outros, por turmas do skate. Se Seth do "The O.C." entrasse ali, qualquer um ficaria feliz em triturar o crocodilo da sua Lacoste com o salto dos sapatos. Tudo era muito autêntico.

Terminamos em um bar de Santa Ana, chamado Fling Cocktail Lounge, igualmente freqüentado por skinheads tatuados e outros estranhos do Sunbelt. No palco, Eddie Chiaverini, um cantor local amado que usa o nome de Eddie Day (imagine se Elvis, já gordo, tivesse comido mais alguns quilos de sanduíches de manteiga de amendoim com banana frita) cantava uma versão de karaokê de uma música de uma banda do condado, Lit. Jovens tatuados acompanhavam a letra quase solenemente, como se cantassem um hino.

Essa energia fomentou o rock alternativo do condado por anos, de bandas como Adolescents e Offspring.

Talvez o condado de Orange esteja atingindo o ápice de sua imagem estereotípica de lugar de brancos afluentes privilegiados na Fox e na MTV bem no momento em que essa realidade está sendo destruída.

"Eles precisam fazer um programa de realidade de verdade do condado. O que eles estão apresentando ao público é surreal. Dê uma olhada no censo", disse Nativo Vigil Lopez, presidente da Associação Política México-Americana em Los Angeles.

Mike Davis, autor de "City of Quartz", sobre Los Angeles, e professor de história da Universidade da Califórnia, Irvine, disse: "Demograficamente, o condado está mudando muito, muito rápido. Essa coisa de 'jovens ricos e mimados pegando sol' é uma forma de vida protegida, como a de Pompéia em seus últimos dias", acrescentou.

Se produtores rivais da CBS ou HBO estiverem ouvindo, há uma idéia para um programa sobre o "verdadeiro condado de Orange" para o próximo outono: "O que gostaria de ver seria uma série cômica, sobre uma família latina que se muda para um bairro vietnamita. Quando virmos isso, saberemos que a imagem do condado finalmente acompanhou a realidade", disse William Fulton, especialista em planejamento e desenvolvimento da Universidade da Califórnia do Sul. Deborah Weinberg

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