UOL Notícias Internacional
 

12/10/2004

Seguidores de Al Sadr fazem acordo e começam a entregar armas pesadas

The New York Times
Dexter Filkins e Edward Wong

De Bagdá, Iraque
Milicianos leais ao clérigo rebelde Muqtada Al Sadr entregaram centenas de armas na segunda-feira, no que pareceu ser um começo encorajador de um acordo com o governo iraquiano e as forças armadas americanas para colocar um fim a meses de luta no arruinado bairro conhecido como Sadr City, no leste de Bagdá.

Em outro dia violento no qual três soldados americanos foram mortos e 14 ficaram feridos em dois incidentes separados, dezenas de guerrilheiros se apresentaram para entregar armamentos pesados como morteiros, lançadores de granada, metralhadoras e centenas de cápsulas de artilharia.

A entrega das armas pesadas por parte do grupo é o principal elemento de um acordo acertado no fim de semana com o governo interino iraquiano e as forças americanas.

Em troca, os comandantes americanos concordaram em suspender as operações militares contra o grupo, conhecido como Exército Mahdi, e iniciar projetos de reconstrução no valor de centenas de milhões de dólares na área pobre e carente. O governo iraquiano prometeu libertar os membros do Exército Mahdi, entre os dezenas que foram presos nas batidas, que não foram acusados de crimes.

No final do dia, um número indeterminado de armas foi entregue, apesar de que pelo aspecto das pilhas de armas e munição, os números pareciam chegar a centenas. Segundo o acordo, o governo iraquiano concordou em pagar acima do preço de mercado pelas armas: US$ 250 por um morteiro, US$ 170 por um lançador de granada e 25 centavos de dólar por uma bala. Ainda assim, dado o poder de fogo exibido pelos milicianos, o total entregue na segunda-feira pode provavelmente representar apenas uma fração do que o grupo possui estocado. Segundo o acordo, o Exército Mahdi tem até sexta-feira para entregar seus armamentos pesados, prazo após o qual os comandantes americanos disseram que avaliarão o cumprimento por parte de Al Sadr e, se necessário, retomarão as operações militares e as buscas de casa em casa.

Al Sadr, que está escondido há semanas, não se manifestou publicamente sobre o acordo, apesar de seus principais assessores terem dito que ele o endossou. No passado, Al Sadr demonstrou inclinação para fechar acordos sob grande fanfarra e depois não cumpri-los.

Além disso, pelo Exército Mahdi ser mais um movimento popular do que uma organização militar bem definida, será difícil dizer se ele realmente foi debandado. O coronel Robert Abrams, comandante da 1a Brigada da 1ª Divisão de Cavalaria, que está supervisionando Sadr City, disse que pretende checar a estrutura de comando da milícia para ver se ela permanecerá unida após o desarmamento.

Ainda assim, apesar de todas as reservas por parte dos americanos e do governo iraquiano, o primeiro dia de entrega de armas sugeriu um grau de cooperação por parte de Al Sadr não visto no passado. Se os guerrilheiros não entregaram todas as suas armas na segunda-feira, eles pelo menos começaram, e havia indícios de que mais armas estavam a caminho.

"Nós decidimos entregar nossas armas, e debandar", disse Syed Aziz Abid, um representante de Al Sadr que foi enviado a um dos postos policiais onde as armas estavam sendo entregues. "Se Deus quiser, não haverá mais combates."

Abid, que como outros acólitos de Al Sadr, indicou que o Exército Mahdi poderá manter grande parte de seu armamento pesado até o final da semana, até ter certeza da seriedade dos americanos e do governo iraquiano no cumprimento de sua parte do acordo.

O desarmamento da milícia de Al Sadr em Sadr City, sua fortaleza, representaria uma grande vitória para o governo iraquiano e sua intenção de realizar eleições nacionais aqui até o final de janeiro. Mas o Exército Mahdi ainda manteria centenas de combatentes em outras cidades no Sul do Iraque, e as autoridades daqui expressaram temor de que a milícia poderá deter um poder de veto sobre as eleições.

Mas as circunstâncias mudaram drasticamente para Al Sadr nas últimas semanas, e os líderes iraquianos e americanos estão confiantes de que ele pode estar realmente pronto para debandar seu exército privado. A tentativa de Al Sadr de comandar o Templo do Imã Ali em Najaf fracassou dois meses atrás, quando suas milícias foram esmagadas pelas forças americanas e ele pessoalmente perdeu espaço para o establishment religioso xiita principal. Em Sadr City, a milícia de Al Sadr tem estado sob incansável pressão militar americana, com o comandante americano local dizendo que seus homens têm matado em média 40 combatentes do Exército Mahdi diariamente.

Abid, o emissário enviado para inspecionar os locais de armas, disse não nutrir amores pelas forças americanas. Dois de seus irmãos, ambos combatentes do Exército Mahdi, morreram nas últimas semanas pelas mãos delas, disse ele.

"Se não fossem as ordens de Muqtada, eu ainda estaria lutando", disse ele.

Os pontos de entrega de armas atraíram vários tipos, alguns deles seguidores leais do Exército Mahdi, buscando entregar suas armas, e outros desempregados iraquianos, buscando transformar antigo equipamento do exército em algum dinheiro rápido.

Um membro do Exército Mahdi, chamado Ali Abdullah, se aproximou do posto policial de Habibiya para entregar seu rifle de assalto AK-47, com seu rosto envolto com um lenço branco por temer que alguém o fotografasse. Ele disse que usará os US$ 150 que recebeu por seu rifle para comprar um carrinho para vender sanduíches na rua.

"Se Muqtada disse para entregarmos nossas armas, então por que eu deveria resistir?" disse Abdullah. "Ele é o líder e sabe melhor do que eu o que fazer."

"Olhe para minhas roupas", disse ele, apontando para sua camisa e calças respingadas de óleo. "Eu posso fazer qualquer trabalho que você me pedir, basta me dar uma chance. Eu tenho família para sustentar. Eu aceitarei os US$ 150. Acredite, a maioria das pessoas daqui é apenas ignorante e oprimida."

Abrams disse estar "cautelosamente otimista" sobre as chances de paz na área, em parte por acreditar que Al Sadr concluiu que esta provavelmente é sua última chance de entrar no cenário político principal.

"Se ele reunir sua milícia novamente, ele sabe que nunca terá tal chance de novo", disse Abrams.

Al Sadr começou a se mover na direção da mesa de negociação há cerca de um mês, quase ao mesmo tempo em que os americanos começaram a realizar ataques aéreos, principalmente noturnos, usando caças e aviões AC-130 para varrer as ruas com mísseis e fogo de canhão.

Mesmo em um dia pouco movimentado, disse Abrams, suas tropas matam pelo menos 10 soldados do Exército Mahdi, mais de 40 em um dia de ritmo mediano e mais de 100 em um dia agitado.

Ao ser perguntado quantos dias agitados seus soldados já enfrentaram, ele disse: "Muitos, muitos".

Um dos problemas mais intimidadores enfrentado pelos governo iraquiano e pelos americanos na área é estabelecer uma força de segurança iraquiana viável capaz de substituir a milícia de Al Sadr. No momento, disse Abrams, apenas cerca de 500 policiais iraquianos estão comparecendo para trabalhar, dos 800 inscritos. Ele estimou que seria necessária uma força de 7 mil oficiais para a área, que tem uma população de mais de 2 milhões.

"Eles perdem em número de homens, número de armas e, até recentemente, em liderança para a milícia", ele acrescentou.

De fato, nos portões de um dos locais para entrega de armas, o oficial de segurança iraquiano checou a identidade de um repórter americano e então lhe fez uma oferta. "Você quer comprar as armas lá dentro?" ele perguntou. "Só US$ 150 por um Kalashnikov."

As baixas americanas na segunda-feira resultaram de dois ataques, em Bagdá e Mosul. No primeiro, dois soldados americanos foram mortos e cinco ficaram feridos em um ataque de foguete no sul de Bagdá. No segundo, um soldado americano foi morto e nove ficaram feridos quando um carro-bomba colidiu contra um comboio em Mosul. George El Khouri Andolfato

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