UOL Notícias Internacional
 

15/10/2004

Bush mostra ser viciado em 11 de setembro

The New York Times
Thomas L. Friedman

Colunista do NYTimes
Não sei se devo rir ou chorar quando ouço o presidente e o vice-presidente criticando John Kerry por dizer que espera que os EUA eventualmente voltem ao ponto no qual "os terroristas deixem de ser o foco de nossas vidas e passem a ser apenas um incômodo".

O fato de Bush e Cheney usarem essa afirmativa como prova de que Kerry não está apto para a presidência fala mais sobre eles do que sobre Kerry. Desculpem-me, não sei vocês, mas eu sonho em voltar aos tempos em que o terrorismo era apenas um incômodo em nossas vidas.

Se puder escolher, prefiro não viver o resto da minha vida esperando o Departamento de Segurança interna me dizer se está código vermelho ou laranja lá fora, e isso determinar a diferença entre um dia bom e um dia ruim.

Recentemente, para entrar no prédio do Fundo Monetário Internacional, tive que mostrar minha identidade, esperar uma escolta e preencher um formulário de uma página sobre a minha pessoa e minha visita. Disse ao meu anfitrião: "Veja bem, não vim pedir um empréstimo. Quero apenas uma entrevista." Em algum ponto ao longo do caminho perdemos as estribeiras.

Kerry está, de fato, tocando em um ponto que preocupa muitos americanos --que a guerra ao terrorismo está transformando a nossa sociedade, em vez de desestruturar os terroristas e transformar as suas sociedades.

A resposta da equipe de Bush aos pensamentos de Kerry são reveladoras, porque mostram como esse governo tornou-se viciado em 11 de setembro. O presidente explorou a questão do terrorismo com fins políticos. Ele tentou fazer dela uma questão de definição, como aborto, armas e direitos de homossexuais --para unir a base Republicana e imprimir sua própria agenda política.

Mas foi precisamente essa exploração de 11 de setembro que tirou o presidente e o país dos trilhos, pois não só criou uma cisão entre Republicanos e Democratas, mas também entre os EUA e o resto do mundo, entre os EUA e sua identidade histórica e entre o presidente e o senso comum.

Explorando o momento emotivo em torno de 11 de setembro, Bush promoveu uma política de extrema direita em impostos, meio-ambiente e questões sociais --para a qual não tinha mandato eleitoral. Com isso, tornou-se o presidente mais polarizador e divisor na história moderna.

Ao usar 11 de setembro para justificar o lançamento de uma guerra no Iraque sem apoio da ONU, Bush também criou uma gigantesca cisão entre os EUA e o resto do mundo. Simpatizo com o presidente quando ele diz que nunca obteria consenso na ONU para sua estratégia de tentar chegar à raiz do terrorismo reformando os regimes árabe-muçulmanos que o promovem, a começar pelo Iraque.

Ao politizar a tragédia de 11 de setembro, Bush criou uma distância entre ele e o senso comum, na hora de implementar sua estratégia do Iraque. Como não conseguiu encontrar armas de destruição em massa no Iraque, apegou-se à justificativa de que a guerra no Iraque era uma resposta a 11 de setembro --uma campanha para levar liberdade e democracia ao mundo árabe-muçulmano.

Sua dependência da justificativa foi tal que ele se recusou a ver a realidade no Iraque. O presidente parecia estar dizendo a si mesmo: "Algo tão bom e correto quanto destituir Saddam não pode estar dando tão errado".

Muito depois de ficar óbvio a todos que visitaram o Iraque que nunca tivemos soldados suficientes no país para estabelecer a ordem, Bush simplesmente ignorou a realidade. Quando pressionado, procurou cobertura em 11 de setembro, dizendo que o momento requereu "duras decisões" --como se a dura decisão de entrar em guerra contra o Iraque, em nome de 11 de setembro, devesse torná-lo imune a críticas sobre como conduziu a guerra.

Por fim, ao politizar 11 de setembro, Bush nos separou da nossa história. O time de Bush fez esse país virar os "Estados Unidos de Combate ao Terrorismo". "Bush só parece ser capaz de expressar nossa ira, não nossas esperanças. Ele se concentra nos EUA como um país cujo papel no mundo é negar a negação dos terroristas. Mas os EUA sempre foram sobre a afirmação de algo positivo. Isso faz falta hoje. Fora o Afeganistão, eles foram muito melhores em destruir do que em construir", disse o especialista do Meio-Oeste Stephen P. Cohen.

Gostaria que Kerry fosse mais capaz de articular como os EUA poderão voltar ao seu jeito de ser. Mas o ponto que estava ressaltando, sobre querer colocar o terrorismo de volta em perspectiva, é correto. Quero um presidente que possa, um dia, restaurar 11 de setembro a seu lugar de direito no calendário: o dia posterior a 10 de setembro e anterior a 12 de setembro. Não quero que esse dia nos defina. Porque, por fim, 11 de setembro é sobre eles --os bandidos-- não sobre nós. Somos sobre o quatro de julho. Presidente americano faz atentados redefinirem o caráter do país Deborah Weinberg

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