UOL Notícias Internacional
 

15/10/2004

Cheney critica Kerry por se referir à filha lésbica

The New York Times
David Stout

Em Washington
As referências feitas no debate da última quarta-feira (13/10) pelo senador John Kerry à orientação sexual da filha do vice-presidente Dick Cheney desencadearam uma furiosa batalha verbal entre as campanhas dos candidatos presidenciais. Nesta quarta (14), Cheney se definiu como "um pai bastante furioso" e questionou o caráter de Kerry.

Enquanto os dois campos cantavam vitória após o terceiro e último debate entre o presidente Bush e Kerry, as atenções se concentraram em uma relativamente curta troca de farpas entre os dois candidatos, que culminou em uma alusão à filha de Cheney, Mary, homossexual assumida, que é diretora da campanha do vice-presidente.

Quando o moderador do debate, Bob Schieffer, da CBS, perguntou ao presidente se este acredita que o homossexualismo seja uma questão de escolha, Bush respondeu: "Sabe Bob, eu não sei. Simplesmente não sei". Bush, que disse acreditar na santidade do casamento entre um homem e uma mulher, prosseguiu dizendo que os norte-americanos devem se tratar "com tolerância, respeito e dignidade".

Já Kerry disse que vê o casamento como a união entre um homem e uma mulher. O senador, que ao contrário de Bush não apóia uma emenda constitucional proibindo o casamento gay, prosseguiu: "Creio que se alguém conversar com a filha de Dick Cheney, que é lésbica, ela dirá que tem sido o que sempre foi, que tem sido o que é desde que nasceu".

A reação foi rápida e exaltada, e parece improvável que se dissipe logo. Talvez a reação mais emotiva tenha sido da mãe de Mary Cheney. "Tive mais uma chance de avaliar John Kerry", disse Lynne Cheney em um comício pós-debate em Coraopolis, na Pensilvânia. "E a única conclusão a que posso chegar é de que ele não é um homem bom. E, é claro, estou falando como uma mãe, e como uma mãe bastante indignada. Esse não é um homem bom. Que truque político barato e de mau gosto".

O vice-presidente Cheney estava no mesmo comício e não fez comentários sobre a sua filha, a quem ele e a mulher freqüentemente dirigem expressões de amor e respeito. Mas ele atacou Kerry nesta quinta-feira em um comício em Fort Myers, Flórida.

"Vimos um homem que é capaz de dizer e fazer qualquer coisa para se eleger", disse Cheney. "E não estou falando apenas como pai, embora seja um pai bastante furioso, mas também como cidadão". O vice-presidente a seguir descreveu o senador de Massachusetts como pessoa muito hesitante para ser comandante-em-chefe e manifestar disposição para apoiar as tropas norte-americanas em guerra.

Kerry divulgou uma declaração nesta quinta em Las Vegas, na qual não demonstra estar inclinado a se desculpar. "Amo as minhas filhas", disse ele. "E eles amam as suas filhas. Eu estava procurando dizer algo de positivo a respeito da forma como famílias fortes lidam com essa questão".

O presidente Bush, também em campanha em Las Vegas, não mencionou os comentários de Kerry sobre a filha de Cheney. Em vez disso, ele descreveu o seu próprio histórico, afirmando que "reduziu impostos, reformou a educação, tornou os medicamentos sob prescrição médica acessíveis aos idosos, aprimorou os dispositivos para a defesa do país e lançou uma guerra agressiva contra os terroristas".

"Já o histórico do senador é caracterizado por 20 anos de votos a favor de questões marginais, sem muitas reformas significativas ou resultados", arrematou Bush.

A menção à orientação sexual da filha de Cheney foi a segunda em horário nobre de televisão em pouco mais de uma semana. O senador John Edwards, companheiro de chapa de Kerry, se referiu ao fato naquilo que deu a impressão de ser uma discussão amigável no seu debate com Cheney em 5 de outubro. Na ocasião, o vice-presidente não reagiu energicamente, e agradeceu a Edwards "pelas suas palavras gentis".

No comício da noite de quarta-feira, Cheney não se referiu aos comentários de Kerry, embora tenha dito em tom de gracejo: "Estou feliz porque Lynne está ao meu lado". Cheney prosseguiu e disse achar que o presidente Bush tem feito "um grande trabalho".

A campanha Bush-Cheney fez eco a essa avaliação, e Marc Racicot, ex-governador de Montana e diretor da campanha republicana, declarou que Bush venceu "porque falou com clareza, convicção e compaixão sobre as questões mais importantes com as quais o nosso país se depara".

Mas a campanha Kerry-Edwards manifestou uma visão oposta, divulgando uma série de declarações de analistas que acham que Kerry se saiu melhor no debate. Uma das declarações foi do comentarista conservador Pat Buchanan, que não é exatamente uma alma gêmea política dos democratas, e que disse à estação MSNBC que Kerry "tem-se posicionado no topo do jogo".

Mas a análise rotineira dos debates foi obscurecida na quarta-feira pela reação a referências à sexualidade de Mary Cheney. A mulher do senador Edwards, Elizabeth, disse em uma entrevista à rádio ABC que a reação de Cheney foi exagerada. "Creio que isso indica um certo grau de vergonha com relação às preferências sexuais da sua filha", disse Elizabeth. "Fico muito triste com o fato de ser essa a resposta de Lynne".

Matthew Dowd, porta-voz da campanha Bush-Cheney, disse nesta quinta em uma entrevista à CNN que as observações de Kerry foram "ultrajantes", tendo-se constituído em um indicador das diferenças entre os candidatos.

Mas Howard Wolfson, um assessor democrata, negou tal alegação ao falar à CNN. Wolsfon disse que os republicanos estão simplesmente tentando provocar uma tempestade porque não há nada mais a dizer sobre o debate em Tempe, no Arizona, "a não ser que o candidato deles perdeu".

Quando a orientação sexual de Mary Cheney veio à tona no debate entre o vice-presidente e o senador Edwards, o contexto da discussão pareceu ser amigável. Cheney reiterou o seu apoio à idéia de que o casamento deve ser regulamentado pelos Estados, ao contrário da posição de Bush, que quer uma proibição constitucional federal do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

"As pessoas precisam ser livres para escolher qualquer arranjo conjugal que desejem", disse Cheney. "Esse assunto realmente não diz respeito a mais ninguém".

Após Edwards elogiar Cheney por este ter expressado orgulho por sua filha, o vice-presidente agradeceu, e disse ter apreciado "as palavras gentis".

"De nada", respondeu Edwards. Republicanos se concentram em afirmação do democrata no debate Danilo Fonseca

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