UOL Notícias Internacional
 

15/10/2004

Rebeldes atacam a área mais segura de Bagdá

The New York Times
Dexter Filkins

Em Bagdá
Rebeldes penetraram no complexo governamental altamente protegido em Bagdá, nesta quinta-feira (14/10), detonando duas bombas em um intervalo de minutos na Zona Verde, matando cinco pessoas, incluindo pelo menos três americanos, e ferindo 20 outras.

Testemunhas disseram que pelo menos uma das explosões foi provocada por um homem-bomba suicida, e uma autoridade iraquiana disse que "informações iniciais" indicavam que ambas tinham sido ataques suicidas.

Nem autoridades americanas nem iraquianas tinham alguma explicação imediata para como as bombas foram trazidas para dentro da área, que é isolada por arame farpado, muros de concreto e postos de checagem.

O ataque, que atingiu um café chamado Green Zone Cafe e uma área de comércio chamada Passagem dos Vendedores, foi a primeira vez em que os rebeldes conseguiram detonar bombas na área, que abriga altas autoridades do governo iraquiano assim como a embaixada americana. Os rebeldes dispararam morteiros e foguetes contra a zona quase diariamente, mas eles raramente matam ou ferem.

Eram poucos os detalhes sobre as explosões. Segundo oficiais americanos e uma testemunha iraquiana, dois homens, cada um carregando uma mochila nas costas, entraram no Green Zone Cafe, pediram chá e se sentaram, onde ficaram conversando um com o outro por meia hora. Um dos homens passou algum tempo tentando tranqüilizar o colega nervoso, disse a testemunha iraquiana.

Após algum tempo, um dos dois homens deixou o café, e cerca de cinco minutos depois a primeira bomba explodiu na área de comércio próxima. O homem que ficou para trás, ainda sentado à mesa, detonou sua bomba poucos minutos depois.

A testemunha que estava no café quando a bomba explodiu, Muhammad Al Obeidi, disse que os homens disseram ser jordanianos e falavam com sotaque jordaniano. Nenhum dos homens, disse ele, exibia os crachás de identificação de quase todos os funcionários dali usam pendurados no pescoço.

Monoteísmo e Guerra Santa, um grupo comandado pelo militante jordaniano Abu Musab Al Zarqawi, reivindicou a responsabilidade pelos ataques em uma mensagem postada em um site islâmico.

As forças armadas americanas têm realizado ataques aéreos na maioria noturnos em Fallujah, tentando atingir membros da rede de Zarqawi. Oficiais americanos disseram que atingiram três alvos na quinta-feira, um supostamente o "centro chave de planejamento" do grupo de Zarqawi. Os militares também disseram que atingiram um abrigo de Zarqawi e um depósito de armas.

Oficiais americanos disseram que há pelo menos três civis americanos entre os mortos, um iraquiano e uma pessoa cujo estado impedia identificação imediata. Entre os feridos estavam três aviadores americanos, três civis americanos, dois civis britânicos e 13 civis iraquianos.

"As pessoas estavam gritando", disse Obeidi. "Eu estava no chão. As pessoas estavam correndo como loucas, tentando sair."

Após as explosões, nuvens pretas de fumaça subiram ao céu a partir dos dois alvos, separados por cerca de 500 metros.

Os ataques ocorreram um dia depois do primeiro-ministro iraquiano, Ayad Allawi, ter exigido que a população de Fallujah, a cidade controlada pelos rebeldes, entregue Zarqawi sob risco de sofrer uma ação militar.

A declaração do grupo de Zarqawi disse: "Pela graça de Deus, dois leões da Brigada do Martírio do grupo Monoteísmo e Guerra Santa tiveram sucesso em entrar na base da embaixada americana, dentro da Zona Verde, na capital Bagdá".

Os três americanos mortos na Zona Verde eram funcionários da DynCorp, que está fornecendo segurança para diplomatas em Bagdá, disse Mike Dickerson, um porta-voz da Computer Services Corporation, a empresa matriz, em El Segundo, Califórnia. Outro funcionário da DynCorp está desaparecido e dois ficaram feridos, disse Dickerson.

As duas explosões ocorreram na véspera do Ramadã, o mês sagrado muçulmano, um período no qual os oficiais americanos disseram estar preparados para um aumento da violência. No ano passado, o Ramadã coincidiu com uma ofensiva dos rebeldes, começando com cinco atentados suicidas, incluindo um contra o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Os ataques desta quinta-feira ocorreram após uma série de tentativas dos rebeldes de entrar na área altamente protegida. Na semana passada, pessoal de segurança encontrou uma bomba plantada do lado de fora do café atingido na quinta-feira. No mês passado, uma mulher foi impedida enquanto tentava passar pelo portão principal com uma bomba escondida.

Além de Bagdá

Em Fallujah, as conversas que visavam obter uma resolução pacífica para o conflito pareciam à beira do colapso na quinta-feira, com a invasão da cidade parecendo mais próxima. Falando na Al Jazeera, a rede de televisão árabe, um homem que dizia se chamar Abu Assad disse que o conselho rebelde que controla Fallujah suspendeu as negociações com o governo iraquiano devido à exigência da cidade entregar Zarqawi.

"Como nós esgotamos todas as soluções pacíficas, a cidade agora está pronta para empunhar armas e defender sua religião e sua honra", disse Abu Assad.

O xeque tribal que está liderando as negociações com o governo iraquiano adotou um tom mais moderado, dizendo que as negociações prosseguirão, mas expressando frustração diante da exigência da cidade entregar Zarqawi.

"Zarqawi não existe em Fallujah", disse ele.

O governo iraquiano e as forças armadas americanas estão determinados a retomar Fallujah, que caiu sob controle dos rebeldes em abril. Em uma coletiva de imprensa na quinta-feira, o conselheiro de segurança nacional iraquiano, Qassim Daoud, prometeu ação militar caso as negociações fracassem.

Daoud expressou ceticismo de que os líderes tribais serão capazes de forçar os rebeldes a se desarmarem, uma condição para qualquer acordo.

"Eu duvido da capacidade deles de atingir a meta de se livrarem dos terroristas", disse Daoud. "Neste caso, nós estamos nos preparando para esmagá-los ­­­--use esta palavra-- esmagá-los com medidas militares."

Os ataques dentro da Zona Verde pareceram acentuar a crescente sensação de insegurança ali. Além das bombas descobertas na semana passada e no mês passado, pessoas dentro da área também têm sido roubadas, esfaqueadas e quase seqüestradas. Além das fortificações que cercam a zona, a maioria dos prédios no seu interior é cercado por muralhas de concreto e barreiras protetoras.

Como santuário do governo iraquiano e dos diplomatas americanos na capital, assim como um ex-importante palácio de Saddam Hussein, a Zona Verde é um alvo de importância política e simbólica. Ocupando uma área de 10,36 quilômetros quadrados no centro de Bagdá, ela abriga cerca de 5 mil americanos e britânicos. Ela também contém um grande bairro que conta com cerca de 12 mil iraquianos, que necessitam de cartão de identidade e são revistados para poder entrar.

O fato os homens-bomba terem conseguido atacar dentro da zona levanta imediatamente perguntas sobre se a segurança relaxou. Obeidi, que ficou ferido na explosão, disse acreditar que a segurança na Zona Verde começou a se deteriorar quando a polícia iraquiana assumiu um maior papel em junho, após a devolução formal da soberania.

"Antes era realmente seguro", disse Obeidi. Mas falando dos guardas iraquianos, ele disse: "Quando eles vêem alguém que conhecem, eles simplesmente dizem: 'Pode entrar'. Eles não entendem que é para nossa segurança".

Após as explosões na tarde de quinta-feira, os militares americanos reforçaram a segurança dentro da Zona Verde, colocando mais soldados e guardas de segurança nas ruas, assim como mais helicópteros no ar, e impedindo repórteres e outros de entrar. Em uma declaração, os militares tentaram explicar o motivo por trás do ataque e tranqüilizar as pessoas dentro da Zona Verde.

"Forças antiiraquianas estão tentando criar a percepção de instabilidade no Iraque", disse a declaração, "e conseqüentemente atrapalhando as futuras eleições iraquianas". Início do Ramadã deverá provocar recrudescimento da violência George El Khouri Andolfato

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