UOL Notícias Internacional
 

16/10/2004

Cristãos liberais dos EUA se unem contra Bush

The New York Times
Neela Banerjee

Em Madison, Wisconsin
Os esforços dos cristãos conservadores para mobilizar os eleitores contra o casamento de mesmo sexo e o aborto, assim como para obter apoio ao presidente Bush, têm provocado uma resposta crescente entre os fiéis liberais. E eles estão seguindo o exemplo da direita religiosa.

Membros da Primeira Sociedade Unitária do Estado de Wisconsin, Claire Box e Linda Knox participam de um amplo esforço de religiosos moderados e liberais para registrar eleitores, especialmente em Estados indefinidos como Wisconsin e nas áreas pobres, que contam com baixa participação de eleitores.

Em certa manhã de outono, as mulheres foram à vizinha Madison Town e se instalaram no estacionamento do conjunto de prédios de apartamentos Maple Glen, lar de famílias pobres e da classe trabalhadora, na esperança de encontrar novos eleitores. Em minutos, aquelas pessoas as encontraram.

"Eu posso votar?" perguntou Tracy Briggs, 26 anos, para Box, balançando seu sobrinho pequeno no colo. Logo, a irmã mais nova de Briggs, Tyree, de 24 anos, disse a Knox que ela também precisava se registrar. Então veio Clarence Martin, 48 anos, um trabalhador de frigorífico.

Nenhum deles votou em 2000. Todos estavam determinados a votar em 2 de novembro.

Fazia 30 anos que Knox não era tão ativa politicamente. Mas como é o caso entre tantos voluntários, as políticas dos cristãos conservadores e do presidente Bush a levaram a locais como Maple Glen, disse ela.

"A direita religiosa está definindo o que significa ser um americano patriota, e são patriotas porque acreditam no seu Deus, porque têm Bush e estão convencidos de que têm a resposta", disse Knox posteriormente. "Mas como unitários, nós não acreditamos que há uma única resposta certa."

Por muito tempo dispersados e fora dos holofotes, alguns fiéis liberais, liderados por grupos religiosos, disseram considerar esta eleição como o primeiro passo para se reagruparem e retomarem uma agenda e fé que acreditam terem sido seqüestradas pela direita religiosa.

Pastores liberais estão falando por todo o país, dizendo aos cristãos que eles não estão sozinhos em suas posições moderadas ou em seu questionamento do governo. Os paroquianos estão registrando pessoas em suas congregações, indo de porta em porta em suas comunidades e alistando voluntários para votar.

Ninguém diz que estes cristãos são bem organizados, bem financiados ou politicamente formidáveis como os cristãos conservadores. Mas eles estão mobilizando pessoas, principalmente em áreas de inclinação democrata, em torno de questões de justiça social como meio-ambiente, guerra e, mais freqüentemente, pobreza.

"Nesta eleição, algumas vozes religiosas dizem que todas nossas crenças se resumem --eu diria reprimidas-- a duas questões básicas, aborto e direito dos gays", disse o reverendo Jim Wallis, convocador e presidente do Chamado para Renovação, em um sermão aqui.

Wallis, cujo grupo está comprometido em reduzir a pobreza, acrescentou: "Nós temos os Batistas do Sul que exibem buttons que dizem: 'Vote em seus valores'. Eu digo: 'Vote em todos seus valores'. O choro dos pobres ecoa de uma capa a outra na minha Bíblia. Deus escuta o choro dos pobres. E nós?"

Os efeitos dos esforços só serão conhecidos depois de 2 de novembro, porque o registro continua em alguns Estados como Wisconsin até o dia da eleição. Mas um quadro parcial está surgindo. Em Dane County, onde fica Madison, a coalizão "Vá Votar", não-partidária porém liberal, registrou 20 mil eleitores, muitos deles de baixa renda.

A Fundação Gamaliel, uma organização inter-religiosa de base, estimou que registrou 44 mil pessoas em sua campanha em 18 Estados. Isto inclui mais de 17 mil na região metropolitana de Detroit, ou mais de 1 entre 10 dos 100 mil novos eleitores registrados no sul de Michigan neste ano, disse a diretora da campanha, Laura Barrett.

Em Minnesota, a Convenção Batista do Sul, uma união de igrejas negras, liderou uma coalizão que registrou mais de 10.500 eleitores, disse o reverendo David L. Everett, o coordenador do programa.

Por meio de sua rede antipobreza Let Justice Roll, o Conselho Nacional das Igrejas disse que registrou mais de 100 mil eleitores, com 40 mil em Oregon.

Apesar dos grupos dizerem que estão superando suas metas, seus números são modestos em comparação a esforços maiores e melhor financiados como o Rock the Vote da MTV. Tal esforço diz já ter conseguido o registro de quase 1,4 milhão de eleitores.

Os cristãos conservadores dizem que seus pares mais liberais não representam ameaça. Seu ativismo é fraco demais para conter o impulso do movimento evangélico, disse Tony Perkins, presidente do Conselho de Pesquisa da Família, um grupo conservador.

"Historicamente, o que eles defendem é uma posição não descrita e carente de qualquer valor, incluindo os princípios nas Escrituras", disse ele. "É difícil empolgar as pessoas com mingau."

Os cristãos liberais poderiam contrabalançar a direita religiosa, disse John C. Green, diretor do Instituto Ray C. Bliss de Política Aplicada, um instituto de pesquisa bipartidário na Universidade de Akron.

As pessoas que se identificam com a direita religiosa correspondem a 12,6% da população, mostra a pesquisa de Green, e são predominantemente republicanas. Mas a "esquerda religiosa" tem tamanho igual e "provavelmente está crescendo" e "se movendo na direção democrata", revelou a mesma pesquisa.

O problema para os organizadores da esquerda religiosa é que eles não se comportam com a mesma previsibilidade e coesão da direita, disseram Green e outros acadêmicos. Os da esquerda são mais heterodoxos em suas posições e menos dispostos a aceitar ordens de marcha dos pastores, dificultando sua mobilização, ele acrescentou.

"Um motivo para a esquerda religiosa não ser levada tão a sério", disse ele, "é que ela pode ser capaz de reunir uma multidão, mas as pessoas não acham que seja capaz de influenciar uma eleição".

Kerry não seria Deus na Terra

A Convenção Batista de Minnesota percorreu os seis distritos no Estado com menor comparecimento às urnas em 2000, com exceção de um na região das Cidades Gêmeas, e todos de baixa renda e classe trabalhadora. Os voluntários visitaram casas, abrigos de sem-teto e até mesmo participaram de reuniões dos Alcoólicos Anônimos, disse Everett.

"Eu já estive em esquinas com homens desempregados, sem-teto e até mesmo fazendo algo ilegal, mas mesmo assim eles queriam votar, e estive com famílias onde ambos os pais trabalham", disse Everett. "Eu lhes digo que estamos aqui porque fomos convocados por Deus a fazer a diferença em nossa comunidade, e quando falamos mais longamente, eu lhes recordo que pessoas morreram para lhes garantir o direito de votar."

Com as campanhas de registro de eleitores quase encerradas, moderados e liberais estão se concentrando em assegurar que as pessoas de fato votem. Em Dane County, a participação dos eleitores nos bairros pobres é de 21%, disse Wendy Cooper, que faz parte do comitê de planejamento da coalizão Vá Votar.

O grupo planeja começar a telefonar para os novos eleitores duas semanas antes da eleição. Uma empresa de táxi ofereceu dar 1.300 viagens gratuitas para as pessoas que precisarem de ajuda para ir aos locais de votação, disse Cooper.

Voluntários como Box e Knox irão de porta em porta para dizer às pessoas onde ficam os locais de votação, as lembrando de levarem uma identidade e irem cedo, para evitar possível caos devido a tantos novos eleitores.

Se Kerry vencer, o ativismo liberal poderá diminuir, disse Laura Olson, uma professora associada de ciência política em Clemson, "porque muito disto é uma mobilização em resposta ao governo Bush".

Alguns cristãos moderados e liberais argumentam que os problemas do país são graves demais e que os religiosos são tenazes demais para darem as costas agora.

"Se Bush for reeleito, o trabalho continua, e se Kerry for eleito, o trabalho continua", disse o reverendo dr. John C. Lentz Jr. da Igreja Forest Hill, uma instituição presbiteriana em Cleveland Heights, Ohio. "O fato de Kerry ser eleito não significa que conquistamos o reino de Deus aqui na Terra." Eles preferem lutar contra a pobreza a gritar contra aborto ou gays George El Khouri Andolfato

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