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16/10/2004

No debate, Kerry e Bush tentam seduzir mulheres

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
Eu poderia aplicar todas as racionalizações que as mulheres utilizam a fim de apresentar desculpas para ficar com homens que definitivamente não são os caras dos seus sonhos. Racionalizações encontradas no novo best-seller "He's Just Not That Into You" (algo como "Ele Simplesmente Não Está Interessado em Você"):

"É melhor do que nada". "É apenas a forma como ele foi criado". "Ele simplesmente diz certas coisas sem a intenção de ofender". "Ele tem muitos problemas na cabeça". "Talvez ele esteja intimidado". "Ele simplesmente não está se encontrando".

Mas, no fim das contas, sou obrigada a admitir, eu simplesmente não estou interessada neles.

O terceiro debate entre o Cara Comprida e o Mini-Clone não foi especialmente gratificante, edificante ou eletrizante. Nem o robótico Kerry (ainda lutando para encaixar um soco bem colocado em um presidente sem contato com a realidade) nem o grotesco Bush (ainda tentando achar dentro de si uma personalidade que empolgue a platéia) dão a impressão de terem perfil presidencial ou inspirador.

Os dois candidatos procuravam marcar pontos decisivos na noite da última quarta-feira (13/10), cortejando aquelas mulheres que compõem 61% do eleitorado indeciso: por exemplo, as mulheres solteiras, as mães inscritas no Social Security e as avós que recebem benefícios do Medicare.

John Kerry e George W. Bush se voltaram para as mulheres adotando posturas submissas e espirituais.

Foi uma disputa para ver quem é mais dedicado à família e está mais próximo de Deus. Aparentando ser um guru New Age, Kerry murmurou: "Penso que temos que amar mais o nosso vizinho neste país e neste planeta". Com a impostação de um Moisés, ele saiu com essa: "Todos nós somos filhos de Deus, Bob".

Os dois cavalheiros competiram para ver quem era capaz de fornecer os elogios mais adocicados às suas mulheres e filhas, embora Kerry tenha cometido um erro colossal quando, estrategicamente, arrastou a filha lésbica de Dick Cheney de volta ao debate, deixando escapar um sorriso forçado e ansioso, do tipo "Sou mais inteligente que você, mas estou tentando não demonstrar isso".

E o presidente --percebendo que não basta apenas apavorar as mulheres com relação aos seus filhos, ao deixar o seu sinistro vice-presidente advertir ameaçadoramente que haverá mais atentados terroristas caso Kerry seja eleito-- cortejou o eleitorado feminino de uma maneira que lembra cenas de um filme açucarado.

Kerry procurou demonstrar mais ânimo que Bush ao falar sobre o poderoso alicerce moral proporcionado pela mulher e pelas filhas e divagando ao fazer um tributo sentimental à sua falecida mãe: "E pouco antes de eu decidir concorrer, ela estava no hospital. Fui falar com ela, informar-lhe a respeito do que eu pretendia fazer. Ela simplesmente olhou para mim e disse. 'Lembre-se: integridade, integridade, integridade'. Essas foram as três palavras que ela deixou para mim".

Após muito tempo gasto com conversas amigáveis sobre esposas e pouco com discussões sobre células-tronco e sobre como o presidente e o vice não deveriam ser considerados autoridades em política externa ou segurança nacional, devido ao desempenho horrível apresentado por ambos nessas áreas, comecei a sentir saudade do endiabrado e frio Howard Dean, cuja mulher jamais apareceu para vê-lo fazer campanha, até que a mídia o criticou devido a isso.

O debate de quarta-feira foi um ritual santificado; os oponentes estavam indiferenciados. Ambos, usando gravatas vermelhas quase idênticas e as inevitáveis bandeirinhas na lapela, se enfrentaram de forma igualmente anêmica.

Ao ver a cansativa reprise feita por Bush dos ataques desfechados por seu pai contra Michael Dukakis (Ele é liberal! Ele é liberal! Ele é de Massachusetts! Ele trata Teddy Kennedy pelo primeiro nome! Teddy Kennedy!), fiquei com saudade do episódio original. Se pelo menos Kerry, que segue demais os caminhos ditados por Bush, tivesse quebrado o tédio usando um bóton da turma do Pernalonga.

Ou se o senador tivesse destruído Bush quando este começou a falar coisas como "só um senador liberal de Massachusetts diria que um aumento de 49% das verbas para a educação não é suficiente".

Kerry deveria ter pelo menos tentado perfurar a crosta de hipocrisia de Bush quanto ao Iraque, a Saddam Hussein, à Al Qaeda e à economia, conduzindo o debate para um momento dramático --a la Capitão "Ah, mas os morangos" Queeg, ou Jack "Você não consegue lidar com a verdade" Nicholson--, contra-atacando: "Só um garoto lunático de Crawford que é membro de fraternidades...".

Em tal caso eu teria me interessado. Candidatos abusam do cinismo para conquistar o voto de indecisas Danilo Fonseca

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