UOL Notícias Internacional
 

17/10/2004

Esforços fornecem estabilidade no caos do Iraque

The New York Times
James Glanz

Em Bagdá
Em uma viagem de seis dias nesta semana, mais de 500 toneladas de componentes do tamanho de uma casa, a caminho da capital, atravessaram a província de Al Anbar, uma região de fronteira imunda e mortífera, na lenta velocidade de 15 a 25 km/h. Protegido por uma armada de helicópteros, tanques Bradley, jipes Humvees e Land Cruisers à prova de balas, o comboio parecia fazer parte de algum tipo de programa espacial, mas na verdade transportava partes de um enorme gerador, financiado pelos contribuintes americanos, para atualizar a rede de energia iraquiana. Em operações como esta, a reconstrução física do Iraque avança centímetros à frente.

Mas contra o esforço de reconstrução há o perigo presente em todo Iraque, de forma aparentemente inevitável e repentina: em um recente exemplo envolvendo um comboio semelhante, dois motoristas jordanianos que trabalhavam para a empresa que transporta os geradores foram mortos a tiros.

Está crescendo a pressão sobre o governo Bush para que mostre que o esforço de reconstrução vencerá esta corrida, e que alguns dos muitos projetos que foram atrasados ou temporariamente abandonados logo melhorem a vida dos iraquianos comuns, lhes dando um motivo para confiarem no governo e rejeitarem a anarquia dos rebeldes.

Mais do que qualquer outro setor da infra-estrutura, é a grade elétrica que enche as autoridades de esperança. É verdade, virtualmente todo projeto está atrasado e poucas metas foram atingidas. De fato, as autoridades envolvidas na reconstrução empregam grande esforço para revisar as projeções extremamente otimistas feitas pelas autoridades de ocupação americanas nos meses anteriores. Mas finalmente há mais megawatts na rede do que antes da invasão, e somado a uma série de grandes projetos em andamento longe dos olhos, as autoridades dizem que é apenas o começo.

"Nós estamos recolocando a crise sob controle", disse Simon Stolp, o diretor de programa para eletricidade do Escritório de Projeto e Contratação, que está administrando bilhões de dólares em dinheiro de reconstrução destinado pelo Congresso. "Há uma cesta inteira de coisas positivas para ser vista", disse ele.

A grade se deteriorou sob a pressão das sanções e foi negligenciada desde que foi recuperada após os bombardeios americanos que a destruíram em 1991, mas Stolp disse que tais problemas estão rapidamente se tornando uma coisa do passado.

"Haverá mais megawatts na rede no próximo verão do que havia em qualquer período desde a Guerra do Golfo", disse Stolp.

Os especialistas iraquianos em eletricidade estão menos impressionados. Saad Shakir Tawfiq, um cientista que lidera equipes iraquianas que trabalham em várias usinas de força, disse que ficou surpreso com fato de seu bairro relativamente nobre de Bagdá ainda estar sujeito a apagões, duas horas sem luz, quatro horas com.

"É a época do ano em que todos desligam os aparelhos de ar condicionado e ninguém usa os aquecedores", disse Tawfiq. "Deveria haver um excedente".

Mas Stolp disse que os iraquianos, com sua recém-descoberta liberdade, estão comprando cada vez mais aparelhos elétricos e sobrecarregando a rede, e mesmo Tawfiq reconheceu que poderá levar algum tempo para que grandes projetos de geração de energia coloquem mais eletricidade nas casas dos iraquianos comuns.

A jornada de 550 quilômetros do comboio do gerador que partiu da Jordânia, à qual o repórter se juntou nos 120 quilômetros finais, revelou quão determinados estão os americanos em levar adiante os grandes projetos de eletricidade.

A missão passou a poucos quilômetros das fortalezas rebeldes de Ramadi e Fallujah antes do comboio de 42 veículos chegar a Bagdá, serpenteando seu caminho pelas ruas mais afastadas da cidade durante a madrugada. Trabalhadores subiam em escadas para cortar cabos de força no alto que impediam o percurso, removendo obstáculos no solo e consertando um tanque que quebrou no caminho do comboio.

Tiros eram disparados repetidamente, apesar da maioria deles ter vindo de soldados americanos que disparavam para o ar para manter o tráfego afastado.

"Esta é uma daquelas tarefas consideradas impossíveis", disse John Yourston, um ex-membro das forças especiais britânicas e agora diretor de operações no Iraque da Olive Security, uma empresa privada que coordenou a jornada, da proteção da rota ao posicionamento dos tanques que viajaram no comboio.

A abreviação militar para a missão era Moag, de "Mother of All Generators" (mãe de todos os geradores). "É um monstro, não é?" disse Yourston.

A Moag, juntamente com uma turbina gigante de gás para alimentá-la e duas outras cargas enormes de equipamento, chegou intacta à usina de força no sul de Bagdá ao raiar da manhã de quarta-feira, dois dias antes do início do Ramadã.

O gerador faz parte de um par fabricado pela General Electric que será instalado na usina no sul de Bagdá em um projeto para adicionar mais de 200 megawatts à rede. Isto mais que dobrará a atual produção das antigas turbinas de vapor da usina e contribuirá substancialmente para os cerca de 5 mil megawatts que todo o país está produzindo no momento, disse Abdul Hassan Qasim, o diretor da usina.

"O que será produzido por esta turbina", disse Qasim sobre a recente entrega, "será essencial para Bagdá, porque está no coração de Bagdá".

Assim, a energia irá para consumidores carentes desta sem se dissipar em longas linhas de transmissão, disse ele. David DeVoss, um porta-voz da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional, que está administrando o financiamento, disse que o custo estimado para o projeto era de US$ 162 milhões. A Bechtel, a gigante internacional de engenharia e construção, administra o trabalho para a agência.

Com sua produção de eletricidade originalmente prevista para dezembro, os geradores não deverão estar prontos antes de junho. O ritmo diminuiu e os custos de segurança aumentaram depois que a insurreição se espalhou pelo país em abril. Dois meses depois, três funcionários da General Electric foram mortos por um homem-bomba suicida enquanto seguiam em um comboio em Bagdá.

Agora a obra, que emprega cerca de 260 iraquianos, lembra o Forte Knox, como colocou um funcionário da Bechtel. (Temendo represália, a empresa pediu que não fosse citado o nome de nenhum de seus funcionários e nenhuma foto mostrando o local pôde ser tirada.) O local está cercado por altos muros de concreto e há um perímetro interno semelhante a um bunker onde trabalham os administradores do projeto.

Sempre que um ocidental penetra no perímetro interior e se mistura com os trabalhadores iraquianos, ele é acompanhado por guardas empunhando rifles da ArmorGroup, outra empresa de segurança privada. Além disso, o local é protegido por cerca de 80 guardas nepaleses conhecidos como gurcas. Há torres de guarda, barreiras e refúgios de sacos de areia para proteção em caso de ataque com morteiro.

Como os diretores e engenheiros ocidentais, todo o pessoal de segurança fica alojado e se alimenta dentro do canteiro de obras. "A segurança desequilibrou este projeto", disse um funcionário da Bechtel que trabalha dentro do complexo. "Não há como dizer qual será o custo". Mas ele alertou que nem todo aumento de custo deve ser atribuído à segurança. Autoridades ligadas à reconstrução disseram que estão atualmente negociando os aumentos de custo com a General Electric.

DeVoss disse não ter informações sobre quanto do contrato será desviado para a segurança, mas outros funcionários disseram que a proporção subiu para 30% ou mais em projetos semelhantes.

Ainda assim, parece improvável que um levantamento exato dos custos de segurança para a Moag algum dia será feito. Em vários momentos o comboio foi protegido pela 1ª Divisão de Cavalaria do Exército; o 11º Regimento Marine do 2º Batalhão; e por pelo menos três outras unidades militares. O capitão Charley Von Bergen dos marines imagina que 500 soldados estiveram envolvidos de uma forma ou outra, mas reconheceu que não há estimativa sólida. Em meio a tudo isto, a Moag continuou seu percurso, marcada em sua base inferior com a palavra "frágil" e o símbolo universal para equipamento que pode ser facilmente danificado - uma taça de vinho. Reconstrução das cidades iraquianas avança em passos bem lentos George El Khouri Andolfato

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