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17/10/2004

Série "Epitáfios" prova o talento dos latinos

The New York Times
Larry Rohter

Em Bueno Aires
Um assassino serial psicótico está à solta em uma cidade sombria e desalmada, e a polícia está perplexa. É uma trama familiar em um gênero familiar, mas entre as coisas que tornam "Epitáfios" diferente do thriller habitual de televisão está isto: é a primeira minissérie dramática que a HBO encomendou em espanhol, escrita e filmada na América Latina, por latino-americanos e tendo espectadores latino-americanos em mente.

No ar no horário nobre das 22 horas nas noites de domingo desde meados de agosto, "Epitáfios" exibe assumidamente um ex-policial cansado do mundo como seu personagem principal, juntamente com algumas outras convenções do gênero. Mas a série em 13 episódios também enfatizou alguns elementos distintamente latino-americanos e suas estratégias de produção visando ajudar a HBO a melhorar seu perfil em um mercado que às vezes têm provado ser difícil de penetrar.

"Após anos sendo o irmã caçula da HBO, operando em um território muito menor em termos de assinantes e poder econômico do que nosso rede doméstica, nós precisávamos iniciar um processo semelhante ao que a HBO fez nos Estados Unidos e gerar nossa própria programação", disse Luis Peraza, vice-presidente da HBO Latin America e que também é produtor executivo da série.

Mas os latino-americanos crescem assistindo telenovelas, que têm audiências imensas em qualquer lugar onde são exibidas, e têm pouca exposição a thrillers fora aqueles que vêm dos Estados Unidos. Assim, a escolha de "Epitáfios" como o primeiro esforço da HBO Latin America era arriscada, como os diretores e roteiristas responsáveis pela série sabiam desde o início.

"Os americanos fazem muitos thrillers, e fazem muito bem, seja no cinema, na televisão ou no cabo, com mais recursos do que jamais teremos", disse Alberto Lecchi, um veterano de cinema e televisão que é um dos dois diretores da minissérie, filmada na Argentina com elenco argentino. "Assim, o primeiro desafio que enfrentamos foi como contar uma história que foi contada muitas vezes antes e ainda assim, dentro do orçamento que tínhamos, prender a atenção do espectador".

Uma solução foi dar aos personagens principais características que seriam reconhecíveis para espectadores nos mais de 20 países nos quais "Epitáfios" está sendo exibida. Renzo Marquez, o ex-detetive da polícia e motorista de táxi que é o protagonista, pode ser desiludido, mas ele e seus ex-colegas aos quais se junta quando seu nome aparece na lista de vítimas de um assassino estão longe de ser frios.

"Nós não podemos esquecer que estamos na América Latina, com todos os processos autodestrutivos e impulsos que acompanham o fato", disse Jorge Nisco, o outro diretor da série. "Estes personagens não são europeus ou americanos. Eles são mais passionais, com sensibilidades mais exacerbadas, dados a explosões emocionais e não escondem seus sentimentos, seja amor, medo ou euforia".

Para tornar "Epitáfios" ainda mais realista para os cerca de 2 milhões de assinantes da HBO Latin America, a série ocorre em um mundo onde a polícia "carece dos meios para investigar, o que a força a improvisar", disse Walter Slavich, um dos roteirista. "Isto não é 'CSI'", ele acrescentou, o que significa que os veículos de patrulha fica sem gasolina e os peritos não têm dinheiro para realizar os testes que poderiam ajudá-los a resolver o caso.

Slavich e seu irmão gêmeo, Marcelo, o outro roteirista, também conceberam alguns elementos de roteiro que esperam que prenderão os espectadores. "Epitáfios" não exibe apenas "um assassino perseguindo um policial e não o contrário", como destacou Lecchi, mas também permite que a identidade do assassino, que tem matado professores, alunos e administradores em uma escola particular de elite, seja revelada no final do terceiro episódio.

"Nós queríamos ser provocadores", disse Marcelo Slavich. "Nós sabemos que o espectador dirá: 'Como isto é possível?' É uma forma diferente de fazer as coisas, e eu acho que funciona. O público sabe a identidade do assassino, mas não por que ele mata ou como a história se desdobrará. E como o espectador sabe quem é o assassino e os personagens não, nós tornamos o espectador um cúmplice".

Assim que estas questões foram resolvidas, os produtores então tiveram que lidar com a dúvida sobre se os atores falariam com sotaque argentino, que possui uma forte entonação italiana e o uso de algumas palavras e estruturas gramaticais não comuns em outros lugares. No final, eles decidiram fazer o elenco tentar falar o que Peraza chamou de "espanhol neutro" e minimizar as inflexões argentinas.

"Foi muito estranho no início", disse Julio Chávez, que interpreta Renzo Marquez. "Eu não acho que era realmente necessário, mas não sou o produtor e não é a minha área. Mas o que podia e fiz foi pegar o roteiro e eliminar o máximo de elementos que me pareciam peculiares".

De forma semelhante, apesar do cenário de "Epitáfios" ser claramente Buenos Aires, com cenas situadas em locais identificáveis como o Cemitério Recoleta, onde Evita Peron está enterrada, o nome da cidade nunca é mencionado. "Nós não nos referimos ao local porque queremos contar uma história que se passa em qualquer metrópole latino-americana", explicou Nisco.

À medida que a série avança, uma detetive atrevida e esgotada chamada Marina Segal, interpretada por Cecilia Roth, desponta como uma pessoa detestada por Renzo Marquez mas que se torna sua aliada. Roth, provavelmente mais conhecida fora da Argentina como uma das musas do diretor espanhol Pedro Almodóvar, não tem trabalhado muito na televisão nos últimos anos, mas disse que se sentiu atraída pela novidade do projeto "Epitáfios" e os desafios que ele apresenta.

"Nós nos sentimos um pouco como ratos de laboratório em uma experiência, já que estávamos cientes de que estávamos fazendo algo novo e muito diferente", disse ela.

A HBO Latin America não é vista na Espanha, mas já há interesse lá e em outros países europeus em exibir "Epitáfios" no cabo ou nos canais abertos. Os produtores da série reconhecem a dificuldade em conquistar o público de língua inglesa nos Estados Unidos, que assiste "Família Soprano" e "A Sete Palmos". Mas eles esperam atingir o crescente mercado hispânico por meio do canal de língua espanhola da rede, o HBO Latino.

"Nós ainda não temos um acordo, mas estamos em negociação com a HBO Latino", disse Peraza. "A HBO doméstica é mais difícil para algo não falado em inglês, mas a HBO Latino está mais interessada e nós estamos muito otimistas. Cedo ou tarde, nós esperamos obter algum retorno de nosso investimento".

Até o momento, crítica e público têm aprovado a série. Pode até mesmo haver um "Epitáfios II". Mas mesmo se não houver uma segunda temporada, Chávez já vê desdobramentos, tanto na rede local quanto além das fronteiras.

E independente do destino de "Epitáfios", a HBO planeja seguir em frente com mais programação original de outros países da América Latina. A rede já encomendou duas minisséries que serão feitas no Brasil. A primeira, baseada em um personagem criado pelo romancista brasileiro Rubem Fonseca, está prevista para entrar no ar daqui um ano e dará um vislumbre aos espectadores de língua espanhola do gigante vizinho de língua portuguesa.

"Este é o lado bom da globalização, um que nos oferece a possibilidade de crescimento", disse Roth. "É uma boa forma de nos unirmos, mas ao mesmo tempo vermos como somos diferentes. O mundo de língua inglesa tem feito este tipo de coisa há algum tempo, mas na América Latina, nós temos nos distanciado uns dos outros. Então este é um importante passo à frente". Produção da HBO na América Latina é sucesso onde passa George El Khouri Andolfato

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