UOL Notícias Internacional
 

18/10/2004

Europa monitora sacerdotes muçulmanos

The New York Times
Elaine Sciolino*

Saint-Leger-de-Fougeret

Na França
Em uma colina coberta por árvores na região rural da Borgonha, há um modesto castelo do século 19 onde é desempenhada uma incrível missão: o treinamento de sacerdotes muçulmanos, os imames, para pregarem aos muçulmanos da Europa.

Aqui, por US$ 3.200 ao ano, cerca de 150 alunos franceses e estrangeiros estudam e vivem em uma ex-colônia de férias, úmida e despojada, dotada de uma pequena biblioteca e de alguns computadores, mas sem nenhuma televisão. O local está fora da zona de cobertura de telefonia celular.

O objetivo do Instituto Europeu de Ciências Humanas, conforme é conhecido o estabelecimento, é urgente, e conta com o apoio de líderes políticos, oficiais de inteligência e autoridades policiais de todo o continente.

Eles acreditam que a crescente população muçulmana da Europa deve conter a migração de sacerdotes muçulmanos que muitas vezes se auto-intitulam imames, não tem familiaridade com o Ocidente, são fiéis a interesses estrangeiros e, nos casos mais extremos, estão carregados de ódios e são capazes de cometer ações terroristas. Segundo essas autoridades, é por isso que deve ser criada uma casta de imames nativos.

"Estamos aqui para criar imames modernos, que responderão às necessidades dos nossos muçulmanos na França e em toda a Europa", diz Zuhair Mahmood, diretor da escola, um cientista nuclear nascido no Iraque e que ajudou a fundar a instituição há 12 anos. "Precisamos de mais mesquitas para os fiéis, e isso significa mais imames".

A ameaça enxergada é tão grande que vários governos europeus monitoram de perto as atividades e os sermões dos seus sacerdotes muçulmanos.

A França expulsou mais de dez deles por violações dos direitos humanos ou da ordem pública desde 2001, sendo que o mais recente foi Abdelkader Bouziane, um imame argelino que tem doze filhos e que assegura que o Alcorão permite que os homens espanquem mulheres infiéis. Na Itália, em novembro passado, o ministro do Interior deportou um imame senegalês após este ter estimulado ataques suicidas a bomba e declarado um "pacto de sangue" com Osama Bin Laden.

Na sexta-feira, o Reino Unido decidiu denunciar judicialmente o clérigo radical muçulmano Abu Hamza al-Masri, um ex-leão-de-chácara de boates que apoiava Osama Bin Laden, sob a acusação de conspiração terrorista, interrompendo um processo norte-americano para extraditá-lo para os Estados Unidos.

Mas a criação de um exército de imames cultos, respeitadores da lei e europeizados não é tarefa fácil. O envolvimento do Estado com a religião no mundo árabe é corriqueiro, mas na Europa uma intervenção do governo poderia ser vista como violação da privacidade e dos direitos humanos.

O ministro do Interior da Espanha, Jose Antonio Alonso, gerou uma tempestade de críticas em maio, ao propor a criação do registro obrigatório de imames e locais de culto muçulmano, além do monitoramento dos sermões.

A Holanda está fazendo experiências com programas obrigatórios exigidos pelo governo para que os imames freqüentem "cursos de integração" sobre os novos valores holandeses, incluindo uma maior aceitação da eutanásia e do uso das drogas. Segundo as novas leis em vigor no Reino Unido, os clérigos muçulmanos e outros "sacerdotes religiosos" que desejem ingressar no país precisam demonstrar que possuem domínio básico da língua inglesa.

O Islã não exige que os seus líderes religiosos possuam uma formação oficial em religião. Um imame não precisa ser um especialista em islamismo, podendo ser qualquer pessoa designada pelos fiéis.

"Na Itália até mesmo um açougueiro pode se intitular imame", afirma Omar Danilo Speranza, presidente da Associação de Muçulmanos Italianos.

Speranza diz que a sua organização começará a certificar os imames que se acredite serem competentes, ou seja, aqueles "que têm uma interpretação mais pacífica e mais amorosa do Alcorão".

Mas para muitas comunidades muçulmanas na Europa, os laços pessoais e étnicos com os seus imames são freqüentemente mais importantes do que um certificado externo de aprovação.

"A idéia de produzir imames ainda é polêmica", diz o norte-americano James Piscatori, professor de Política Muçulmana da Universidade Oxford. "Por um lado, queremos os nossos próprios imames porque aqueles importados são tidos como transmissores de más idéias. Por outro lado, a comunidade não reconhece o nosso direito de determinar que indivíduos poderão ser imames e como estes devem ser treinados".

Talvez o maior obstáculo para a criação da profissão aqui na Europa seja de ordem financeira: É difícil ganhar a vida como imame.

"A posição de imame não é oficial e, portanto, quem segue este caminho á mal pago e não conta com segurança profissional", diz Olivier Roy, acadêmico francês especialista no Islamismo. "Por que um jovem francês ou britânico brilhante deveria passar cinco anos estudando o islamismo, apenas para descobrir que não há para si um emprego real, que a comunidade quer apenas alguém que lidere as orações e que conduza funerais e casamentos?".

De fato, entre os graduados do instituto da Borgonha há vários candidatos a professores e conselheiros, mas um número muito pequeno de aspirantes a imames. Vários estudantes comparecem apenas para o programa de dois anos de língua árabe. No ano passado, só um indivíduo se graduou como imame, conseguindo emprego em uma mesquita.

"Fiz marketing empresarial no meu país, e é dessa forma que vendo o meu produto, que é o Islã", afirma Fahimul Anam, um britânico de 31 anos, nascido em Bangladesh, e cujo sonho é se tornar um diretor educacional. "Não sinto que tenha necessariamente que me tornar um imame para fazer tal coisa".

Para complicar a situação, o governo francês vê o grupo Organizações da União Islâmica, que administra a escola da Borgonha, assim como filiais no País de Gales e em um subúrbio de Paris, como sendo potencialmente perigoso.

A organização se inspira na banida Irmandade Islâmica, do Egito, que enfatiza a purificação pessoal e o proselitismo nas bases para influenciar todos os aspectos da vida muçulmana. Mahmood, o diretor, foi manchete nos jornais há oito anos, quando ganhou uma ação judicial exigindo que a escola de segundo grau na vizinha cidade de Chateau-Chiron permitisse que as suas duas filhas cobrissem os cabelos na sala de aula.

Em março passado, cem seguidores do grupo de ultra-direita Frente Nacional organizaram uma demonstração na cidade, exigindo que a escola da Borgonha fosse fechada, chamando-a de "ninhal de extremismo" que estaria produzindo os "futuros agitadores político-religiosos da Europa".

No oeste de Londres, a Faculdade Muçulmana, financiada por uma fundação da Líbia vinculada ao governo daquele país, também formou indivíduos com conhecimentos em língua árabe e estudos islâmicos. No entanto, pouquíssimos alunos graduaram-se como imames. "Se as autoridades os pagassem, todos se tornariam imames", garante Zaki Badawi, o diretor egípcio da faculdade. "Eles são tentados por outras áreas".

As rivalidades dentro das comunidades muçulmanas tornaram mais difícil forjar uma abordagem comum a todos os imames.

Desde a sua fundação, em 1998, a Universidade Islâmica de Roterdã, na Holanda, alega ter treinado cerca de 20 imames praticantes, segundo Gokcekuy Ertogrul, o secretário-geral da instituição.

Mas nos últimos anos, segundo alguns acadêmicos, a universidade tem sido cada vez mais financiada e influenciada por um movimento islâmico turco, e vem sendo criticada por perder o seu caráter holandês.

"Grande parte do que eles dizem sobre os seus alunos não é verdade", diz Johan Hendrik Meuleman, do Centro de Estudos Muçulmanos da Universidade Oxford, que já deu palestras voluntariamente na universidade. "Voluntários como eu não aceitam o controle vindo da Turquia".

Ertogrul nega energicamente as acusações.

Em 2001, Meuleman ajudou a criar a Universidade Islâmica da Europa, próxima a Roterdã, que foi elaborada para treinar capelães muçulmanos para hospitais, prisões e as forças armadas, e talvez um pequeno número de imames. Usando financiamento municipal, Meuleman já forneceu aulas de holandês e um curso de cultura holandesa a um grupo de imames que vivem e trabalham em Haia.

Um outro problema para se treinar imames na Europa é decidir quem está qualificado para fazê-lo. Dalil Boubakeur, diretor da principal mesquita de Paris, e presidente de um conselho nacional muçulmano francês sancionado pelo Estado, se orgulha da sua incipiente escola de treinamento de imames.

"Estamos formando uma cátedra de imames que falam francês e que se relacionam bem com os jovens muçulmanos da França", diz Boubakeur.

Mas tanto a mesquita quanto a escola são financiadas pelo governo argelino, e isso as torna suspeitas aos olhos de alguns especialistas.

"Não se trata de uma escola real", diz Roy, talvez o acadêmico muçulmano mais respeitado do Islamismo. "Trata-se apenas de um instrumento de poder de Boubakeur".

Boubakeur critica a escola da Borgonha porque todos os seus cursos são em árabe, e não em francês, e ele rotulou a organização que a financia de "fundamentalista".

Os imames que estudaram na Europa avaliam de formas diversas o desempenho dos programas.

Vicente Motta al-Faro, 29, um espanhol convertido ao islamismo e o único a se graduar pela escola da Borgonha no ano passado, foi incapaz de encontrar emprego como imame e deve começar a dar aulas de cultura islâmica em um centro em Valência. "Tornar-se um imame é algo que depende de qual comunidade muçulmana possui dinheiro, e poucas o tem", afirma Vicente.

Já Chedli Meskini, um cidadão francês de 38 anos nascido na Tunísia, e que completou um curso de quatro anos na instituição em 1997, teve mais sorte. Ele conseguiu um emprego de tempo integral na mesquita em Le Havre, onde prega tanto em francês quanto em árabe.

"Atualmente, há uma grande demanda por imames", diz ele. "E para encontrar um imame que fale árabe e francês, bem, não quero colocar as coisas desta forma, mas eles precisam de gente como eu".

O salário de Meskini é equivalente a US$ 8,90 por hora, o que é menos que o salário mínimo na França.

*Colaboraram Ariane Bernard, de Paris, e de Jason Horowitz, de Roma. Instituto quer evitar "imames" dispostos a ações terroristas Danilo Fonseca

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