UOL Notícias Internacional
 

19/10/2004

PT vê eleição paulistana como largada para 2006

The New York Times
LARRY ROHTER

Em São Paulo
Na teoria, a eleição que será realizada em São Paulo no final de outubro será para escolher o prefeito da maior cidade do Brasil. Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu Partido dos Trabalhadores estão se comportando não apenas como se quisessem que a votação fosse um referendo sobre sua própria atuação, mas também o tiro de largada de sua própria campanha para reeleição.

Mas as coisas não transcorreram exatamente bem para eles aqui. No primeiro turno da eleição, em 3 de outubro, José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que foi o principal adversário de Lula na eleição presidencial de 2002, terminou com uma vantagem confortável sobre a candidata de Lula, Marta Suplicy, a atual prefeita desta cidade de 11 milhões de habitantes.

Em outros lugares no Brasil, o Partido dos Trabalhadores de Lula conseguiu ganhos significativos, mais que dobrando o número de prefeituras que detinha, para 400 dos 5.500 municípios do país. Mas o revés em São Paulo --capital do Estado de São Paulo, que é o berço do Partido dos Trabalhadores, sua principal base de poder e lar de quase um quarto dos 120 milhões de eleitores registrados do Brasil-- está claramente amargurando os líderes do partido.

Com as pesquisas a mostrando 12 pontos atrás de seu oponente no segundo terno de 31 de outubro (obrigatório porque nenhum candidato conseguiu maioria absoluta no primeiro turno), Marta Suplicy partiu para ataques pesados. Ela acusou o partido de Serra de reter verbas para programas sociais quando estava no poder e alertou que "o segmento mais pobre da população será prejudicado se não continuarmos nosso trabalho".

Com o aparente consentimento de Lula, Marta, uma psicóloga que já foi apresentadora de um programa popular de educação sexual na televisão, também tem buscado se associar ao presidente. Os textos de sua campanha falam da necessidade de fortalecer "Marta aqui e Lula em Brasília", e a cidade está repleta de outdoors que os mostram lado a lado, sorridentes.

Serra, por outro lado, parece estar seguindo a teoria de que "já que as eleições para prefeito são locais, não há sentido em atacar o Partido dos Trabalhadores na esfera federal", disse Fernando Limongi, diretor do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, em São Paulo. "Talvez isto seja parte de seu sucesso."

Em vez disso, Serra, um economista freqüentemente considerado mais como um tecnocrata brando do que um político com carisma, tem buscado enfatizar sua competência. Ele cuidou das pastas do planejamento e saúde durante o governo anterior e prometeu que se for eleito, ele buscará políticas que trarão de volta as 2.500 empresas que, segundo ele, deixaram a cidade desde que Marta foi eleita.

"Eu acho que é um erro tratar a eleição aqui como se fosse um plebiscito, mas esta é a postura que o Partido dos Trabalhadores assumiu desde o início", disse Serra em uma entrevista enquanto fazia campanha em um bairro de classe média-baixa.

"Eles parecem achar que uma derrota aqui seria catastrófica, mas eu acho que as pessoas vão pesar as questões locais mais do que as nacionais e votar na pessoa que acharem que será mais capaz de melhorar seu dia a dia."

Pode parecer estranho um presidente de um país de 175 milhões de habitantes ter um interesse tão ativo em uma disputa municipal. Mas uma vitória de Serra aqui fortaleceria a oposição e Geraldo Alckmin, o governador do Estado de São Paulo, que é visto por alguns líderes do Partido dos Trabalhadores como o mais provável e perigoso oponente de Lula na eleição presidencial de 2006.

O próprio Lula é um ex-líder trabalhista que iniciou sua carreira política nos subúrbios industriais de São Paulo, e portanto tem certo prestígio pessoal em jogo. Mas em setembro ele se envolveu em problemas com a Justiça Eleitoral quando veio a São Paulo, com dinheiro dos contribuintes, para inaugurar uma obra inacabada e pedir no evento por votos para a reeleição de Marta.

O ministro da Justiça atenuou posteriormente a ação, o chamando de "pecado venial", e o presidente emitiu um pedido de desculpas que os comentaristas políticos descreveram como indiferente. Mas um juiz não ficou satisfeito e ordenou que Lula pagasse uma multa de R$ 50 mil por violação das leis eleitorais. O governo apelou.

O presidente também foi acusado de violar a ética política ao convocar seus prefeitos eleitos e outros líderes do seu partido ao palácio presidencial, durante o expediente normal, para discutir estratégias políticas para o segundo turno das eleições municipais. "Nós precisamos vencer a eleição em São Paulo --nós não podemos arcar em perder lá", disse um dos prefeitos aos repórteres antes de entrar para a reunião.

Imprensa e imagem

Esses e outros incidentes alimentaram um debate nacional sobre os limites do partidarismo em uma eleição. Serra se queixou de que gangues do Partido dos Trabalhadores o impediram de fazer campanha "em alguns bairros que acreditam pertencer a eles", e outras figuras políticas da oposição acusaram o partido do governo de buscar monopolizar o poder.

"Até certo ponto, o que está em causa é o risco de se consolidar no Brasil um estilo não-democrático de utilização das regras democráticas", disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em uma coluna mensal que ele escreve para jornais. A democracia no Brasil está, ele acrescentou, "arriscada de ser caudatária de um partido único, tanto pela fragilidade dos demais como pela organização e pelo apetite pantagruélico do partido que chegou ao poder nacional".

José Genoino, o presidente do Partido dos Trabalhadores, recusou os pedidos de entrevista. Mas em um ensaio publicado em alguns jornais brasileiros, ele acusou Fernando Henrique de promover argumentos que são apenas "chantagem antidemocrática, com vista a disseminar preconceitos e intimidar o eleitor" a escolher Serra e outros candidatos da oposição.

"Essa técnica é indisfarçavelmente autoritária", acrescentou Genoino. "A arrogância do PSDB o faz pressupor que existe democracia somente quando ele está no poder."

Analistas políticos dizem que o resultado da eleição pode depender tanto de diferenças de personalidade quanto de ideologia, com Marta claramente em desvantagem. As pesquisas indicam que um número três vezes maior de pessoas expressa sentimentos negativos em relação a ela do que em relação a Serra. Marta é consistentemente retratada na impressa paulistana como esnobe, vaidosa, arrogante, ditatorial, fria, distante e predisposta a acessos de ira.

Além disso, logo após Marta ter sido eleita quatro anos atrás, ela se separou e se divorciou de seu marido, um senador que apoiou sua carreira política e se empenhou em sua campanha. Apesar das pesquisas terem mostrado que o divórcio afastou alguns de seus eleitores, ela pode ter aumentado o prejuízo ao se casar com um assessor de campanha, Luis Favre, que nasceu na Argentina e que tem sido repetidamente ridicularizado na imprensa brasileira como um alpinista social, cujos conselhos de campanha têm sido desastrosos.

Marta recusou os pedidos de entrevista, assim como Favre. Mas a manchete de uma coluna recente do jornal "Folha de S.Paulo" resume o que muitos estrategistas políticos de fora do partido consideram como o principal problema da campanha do PT aqui: "É a Marta, estúpidos".

Mas durante uma recente parada de campanha em dois bairros pobres, Marta estava altamente encantadora. Ela beijou bochechas e apertou mãos, parou para um cafezinho em uma padaria e posou para fotos com crianças e carteiros. Partido do governo Lula conquista espaço --exceto onde interessa George El Khouri Andolfato

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