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20/10/2004

Bush seria a vitória do fundamentalismo cristão

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
Primeiro foi o vice-presidente Dick Cheney, dizendo que apoiar John Kerry poderia provocar outro ataque terrorista. Depois o presidente da Câmara de Representantes, Dennis Hastert, disse que a Al Qaida seria mais bem sucedida sob a presidência de Kerry do que num governo Bush.

Agora são os bispos católicos que atacam, deixando entender que quem votar num candidato que adote a plataforma de Kerry poderá provar a maldição eterna.

Bispos e republicanos conservadores estão se empenhando em divulgar essa "palavra santa", alegando que quem apóia o candidato católico, que já foi coroinha em Boston e que carrega um rosário e uma bíblia com ele na campanha, está num pacto com as forças do mal.

Numa entrevista ao repórter David Kirkpatrick, do The New York Times, o arcebispo de Denver Charles Chaput declarou que um voto deliberado num candidato como Kerry, que apóia o direito ao aborto e a pesquisa das células-tronco, seria um pecado que teria que ser confessado antes de o eleitor receber a comunhão.

"Se você votar assim, estará colaborando com o mal?", perguntou o arcebispo. "Agora...se você sabe que está cooperando com o mal será que você deve se confessar, a resposta é sim."

Conforme Kirkpatrick e Laurie Goodstein escreveram, os católicos constituem um quarto do eleitorado, e muitos deles estão concentrados nos Estados que decidirão a eleição. Esses bispos e grupos católicos conservadores estão organizando registros de eleitores e fornecendo guias de orientação para votação que freqüentemente ignoram questões tradicionalmente aflitivas para o eleitor católico, como a pena de morte e a guerra --o papa foi contrário à invasão do Iraque. Em compensação, esses conservadores consideram o aborto, casamento gay e o debate das células-tronco "questões inegociáveis."

"Em nenhuma outra eleição tantos bispos se manifestaram explicitamente tão perto de uma eleição, dizendo que votar de uma determinada maneira seria cometer um pecado", diz o artigo.

Já se foi o tempo, com Al Smith e John Kennedy, em que a igreja ficava orgulhosa ao ver católicos disputando a presidência americana. Mas a igreja foi tão inofensiva em 1960, tentando ajudar o primeiro JFK, como está sendo ofensiva agora, tentando prejudicar o segundo JFK.

Os bispos conservadores, salivando para reverter o resultado de um histórico processo legal de aborto --Roe contra Wade-- preferem ter um presidente evangélico anti-aborto que um católico que declarou no último debate: "O que para mim é uma questão de fé não é algo que eu possa legislar, sobre alguém que não compartilha essa minha mesma fé. Acredito que essa escolha deve acontecer entre uma mulher, Deus e o médico da mulher."

Como Bush, esses bispos patriarcais querem fazer o relógio voltar aos anos cinqüenta. Eles não querem a separação entre a igreja e o Estado --a não ser no Iraque.

Alguns dos bispos --pastores de uma igreja cuja hierarquia foi displicente em relação à sedução e ao estupro de tantos garotos, tolerando essa atitude, acobertando, possibilitando, desculpando e pagando propinas pelo silêncio-- ainda estão debatendo se John Kerry poderia ou não receber a comunhão.

Esses bispos são embriocêntricos; eles não estão assim tão preocupados com os 1.080 soldados mortos numa guerra que o governo Bush deflagrou com mentiras, ou com as vidas que poderão ser perdidas com a política bélica do presidente ou com as vidas que poderão ser salvas e regeneradas por meio da pesquisa com as células-tronco.

Bush atribui sua inflexibilidade à sua fé: "Acredito que Deus quer que todos sejam livres", ele disse no último debate, acrescentando que isso faz "parte da minha política externa."

O pensador Ron Suskind escreveu que Bush criou uma "presidência baseada na fé" que dividiu a Partido Republicano.

Bruce Bartlett, um assessor de Ronald Reagan para política interna e funcionário do Tesouro para George Bush pai, disse ao jornalista Suskind que algumas pessoas agora olham para o presidente e vêem que "esse instinto de que ele sempre fala é essa estranha espécie de idéia messiânica sobre o que ele pensa que Deus o mandou fazer."

O republicano Bartlett continua: "É por isso que George W. Bush se mostra tão perspicaz sobre a Al Qaeda e o inimigo fundamentalista islâmico. Ele acredita que você precisa matar todos eles. Eles não podem ser persuadidos a terem consciência de que são extremistas, guiados por uma visão sinistra. Ele os entende, porque é igualzinho a eles."

A certeza arraigada do presidente --a idéia de que pode enxergar as almas das pessoas e de que Deus lhe ensina o que é certo, e que aí só resolve nos contar esses desígnios se ele achar que deve-- tudo isso é perturbador. É como se discordar dele fosse igual a discordar Dele.

A certeza arraigada dos bispos conservadores --a idéia de que você não pode ser um bom católico se você discordar de certos decretos da igreja ou se você quiser manter a sua religião separada da política-- também é perturbadora.

Os Estados Unidos estão inundados pela piedade seletiva, pelos moralistas de ocasião e por absolutistas obtusos. Os que criticam o aborto não se importam com mortos em guerras Marcelo Godoy

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