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20/10/2004

Gasto para convencer eleitor a votar bate recorde

The New York Times
Michael Moss* e

Ford Fessenden,

Em Nova York
Um exército de grupos está injetando pelo menos US$ 350 milhões (em torno de R$ 1,05 bilhão) em campanhas para levar os eleitores às urnas. Em uma disputa presidencial cujo resultado dependerá do número de eleitores que de fato comparecerá com seu voto, o movimento está modificando as táticas de eleições.

Os esforços fazem parte da maior campanha por eleitores da história. Eles incluem os principais partidos e seus afiliados, inclusive grupos independentes, mas partidários, conhecidos como 527. As propagandas de ataques veiculadas por estes últimos tiveram um grande papel nas campanhas tanto do presidente Bush quanto do senador John Kerry.

E, pela primeira vez em uma campanha nacional, estão envolvidas centenas de organizações cívicas e de interesses comerciais.

Esses grupos, incluindo a Câmara de Comércio dos EUA e coalizões de grupos de caridade, estão usando milhões de dólares que não precisam ter a origem declarada. No entanto, apesar de os grupos não serem filiados aos partidos, alguns enfatizam questões identificadas com um ou outro candidato.

Os esforços incluem visitas de porta em porta, milhares de mensagens eletrônicas e ligações telefônicas para grupos selecionados de eleitores. O ataque tem sido ainda mais pesado nos Estados que ainda estão indefinidos.

Na Flórida, por exemplo, grupos de direitos civis e sindicatos estão coordenando seus esforços, dividindo o Estado em jurisdições para alcançar o máximo de eleitores possível.

O fervor com o número de eleitores chegou até a Bagdá, onde um lobby Republicano está tentando fazer com que cerca de 100.000 funcionários americanos no Golfo Pérsico votem. Diferentemente dos principais partidos e dos grupos 527 (em alusão à lei que criou grupos políticos vinculados a partidos), os grupos não afiliados não são obrigados por lei a declarar a origem do dinheiro.

"Não divulgamos", disse William C. Miller, diretor político nacional da Câmara de Comércio dos EUA, que vem tentando atingir possíveis eleitores em mensagens eletrônicas em massa.

Diferentemente dos principais partidos e dos 527, os grupos não partidários não podem promover um candidato ou fazer declarações políticas, sem colocar em risco seus benefícios fiscais. Mas talvez consigam o mesmo efeito enfatizando questões "quentes" específicas, que podem ajudar um candidato particular, ou simplesmente voltando-se para grupos que tendem a votar em um determinado partido.

Uma nova coalizão de fundos de caridade, por exemplo, chamada National Voice, está bombeando US$ 80 milhões (cerca de R$ 240 milhões) para motivar eleitores que provavelmente preferirão Kerry. Em Highland, Nova York, uma freira dominicana de 85 anos, Adrian Hofstetter, está usando um programa na Internet da National Voice para ligar para membros das minorias e jovens da Flórida e estimulá-los a votarem. "A metade deles é receptiva", disse ela. "Eles me agradeceram por ligar."

As mensagens eletrônicas da Câmara de Comércio parecem ajudar mais Bush. Uma empresa de energia elétrica não identificada ficou tão motivada com o apelo da Câmara que doou US$ 250.000 (aproximadamente R$ 750.000) nesta semana, disse o grupo.

No oeste de Iowa, fabricantes Republicanos entraram para o Prosperity Project, de uma organização de empresas que enviará mensagens para trabalhadores por e-mail e panfletos anexados aos contracheques. Nos dois casos, o texto liga o voto à segurança no emprego.

Os eleitores têm reações diversas às campanhas. Muitos disseram em entrevistas que apreciavam a oportunidade de conversar com os recrutadores. Outros, no entanto, criticaram a perda de privacidade e disseram que estavam cansados da pressão cada vez maior para votarem antecipadamente. Alguns cabos eleitorais estão até recebendo as cédulas das pessoas distantes de sua jurisdição, em muitos Estados indecisos que permitem a prática.

"Eu não queria votar longe de casa; eles me convenceram", disse Janice Burgess, 72, aposentada em Cedar Rapids, Iowa, referindo-se a dois ativistas Democratas. Ela poderia ter perdido sua chance de votar em Kerry, se um funcionário do condado não tivesse percebido que ela não assinou a cédula; agora, ela vai ter que ir a uma seção no dia da eleição.

Muitas dessas táticas foram usadas em 2000, mas a escala e agressividade da guerra neste ano ultrapassaram em muito as expectativas.

Os grupos não partidários e os 527 estão gastando ao menos US$ 350 milhões (em torno de R$ 1,95 bilhão) neste ano para aumentar a participação do público nas eleições. Esse gasto é muitas vezes maior do que há quatro anos, quando foram computados 105 milhões de votos, de acordo com os que estão levantando os fundos. Neste ano, o número de votantes poderá exceder 121 milhões.

Os dois lados estão se acusando de passar dos limites, cometendo fraudes. Apesar disso, as autoridades acreditam que os incidentes denunciados até agora foram isolados.

Em um deles, Charles E. Coulson, promotor de Lake County, Ohio, disse que um inquérito concluiu que 65 eleitores foram convencidos a pedir cédulas de voto à distância. Os trabalhadores das campanhas teriam apresentado os formulários de pedido como se fossem requisições para cédulas modelo ou para permissão de colocar um cartaz no quintal. As autoridades em vários Estados também estão investigando irregularidades nas inscrições dos eleitores.

Os dois lados também estão prestando atenção à movimentação do outro. Os sindicatos em Cedar Rapids tiraram vantagem de uma lei em Iowa que os permitiu montar cabines de votação no dia 10 de outubro para coletar votos antecipados. Um monitor Republicano, Bill Vernon, estava presente, tomando notas. Ele disse que estava avaliando o crescimento de novas inscrições Democratas, o que requereria um esforço Republicano similar.

Os principais partidos e grupos políticos negam promover o excesso de zelo em seus recrutas, mas admitem que os movimentos para trazer eleitores são vitais.

"A campanha incitando as pessoas a votar decidirá o resultado das eleições. Nós batemos em mais de um milhão de portas no último sábado e estamos quebrando os recordes em telefonemas e visitas diários", disse Karen Hicks, diretora nacional do Comitê Nacional Democrata.

Agentes Republicanos concordam que o resultado da disputa está dependendo de quem vai aparecer para votar e dizem que estão acompanhando os Democratas passo a passo.

"Temos vizinhos falando com vizinhos. É assim que se vence uma disputa apertada", disse Terry Nelson, diretor de política nacional da campanha de Bush.

Vencendo ou perdendo, os grupos que estão participando das campanhas prometem se tornar presentes na política. Sua maior influência talvez nem seja nas disputas nacionais. Eles também têm-se envolvido em campanhas locais, nas quais podem ter enorme influência, decidindo eleições e referendos nos próximos anos.

Na Flórida, um grupo nacional chamado Association of Community Organizations for Reform Now, ou Acorn, fez exatamente isso em novembro, acrescentando uma proposta para um aumento do salário mínimo na cédula. A organização formou um grupo afiliado chamado Floridians for All e rapidamente coletou as assinaturas necessárias. O esforço não parou por aí e registrou 90.000 eleitores de baixa renda e de minorias.

"Acredito no esforço do salário mínimo", disse um doador, Martin Levin, advogado que também contribuiu para Kerry. Mas, acrescentou: "Senti a necessidade de fazer o que pudesse para tirar George Bush."

Floridians for All é típico de dezenas de grupos que estão tendo um papel poderoso na disputa presidencial, apesar de sua única conexão com Bush ou Kerry ser os eleitores que estão tentando motivar.

O envolvimento dos grupos na disputa presidencial está tendo resultados variados. Por um lado, eles estão atraindo pessoas ao processo político e apoiando as eleições com um dinheiro que não carrega as implicações de contribuições ao partido.

Mas, por outro lado, seus fundos são mais difíceis de rastrear. Muitos estão operando fora da lei de financiamento de campanha de 2002, McCain-Feingold, que procura controlar os gastos de eleições proibindo contribuições ilimitadas aos partidos. O braço de caridade do Acorn, Project Vote, gastará ao menos US$ 13 milhões (em torno de R$ 39 milhões) em Estados cruciais neste ano, comparados com US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 3 milhões) investidos em 2000.

"Quanto dinheiro foi colocado nisso, não temos a menor idéia", disse Kent Cooper, co-fundador de PoliticalMoneyLine.com, que rastreia os gastos políticos.

Como a maior parte desses grupos, a Câmara de Comércio não é obrigada a divulgar seus colaboradores, mas o Floridians for All é, porque a lei da Flórida considera o grupo um comitê de ação política.

Um exame de suas finanças mostra que o grupo recebeu apoio significativo de fundos de caridade isentos de impostos, que não costumam colaborar para partidos políticos.

O Solidago Foundation of Northampton, Massachusetts, que apóia causas ambientais e sociais, doou US$ 40.000 (em torno de R$ 120.000), enquanto que o grupo de San Francisco Tides Foundation, outro patrocinador de causas sociais, entrou com US$ 165.000 (aproximadamente R$ 495.000).

Outros patrocinadores do Floridians for All, segundo os documentos apresentados, incluem Richard Foos, fundador da Rhino Records, em Los Angeles, e vários grandes sindicatos, inclusive o National Education Association, que doou US$ 250.000 (cerca de R$ 750.000). Levin doou US$ 130.000 (em torno de R$ 390.000) seus e de sua empresa de advocacia.

Outro grande ator no esforço de levar os eleitores às urnas é o Pew Charitable Trusts. O fundo aumentou em seis vezes suas contribuições em relação a 2000, principalmente por meio de seu patrocínio de US$ 9 milhões (em torno de R$ 27 milhões) para um esforço direcionado a jovens eleitores chamado New Voters Project.

"Houve um enorme enriquecimento nos anos 90. Muitas dessas pessoas estão dizendo que querem 'fazer uma diferença', ter um retorno. E estão preocupadas com a saúde e a felicidade da democracia americana", disse Rebecca Rimel, presidente do Pew Trusts.

*Colaborou Aléxis Rehrmann. Grupos investem US$ 350 mi --mais do que o dobro do gasto em 2000 Deborah Weinberg

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