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20/10/2004

Guerra de Bush ressucita alistamento obrigatório

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
As pessoas que estão se preocupando quanto à volta do serviço militar obrigatório nos Estados Unidos estão na mesma posição das que se preocupavam com a volta dos déficits orçamentários há quatro anos, quando o presidente Bush começou a enviar seu programa de cortes de impostos.

Na época ele insistiu que não deixaria o orçamento entrar na faixa deficitária --mas os observadores mais atentos decididamente suspeitaram que a verdade seria outra. Agora ele insiste que não irá restaurar o alistamento obrigatório. Mas os fatos indicam que ele acabará tomando essa atitude.

Havia duas razões pelas quais alguns de nós nunca acreditamos nas promessas de Bush quanto ao orçamento. Em primeiro lugar, as alegações dele, de que seus cortes nos impostos eram sustentáveis, se fundamentavam em projeções orçamentárias evidentemente fora da realidade.

Em segundo lugar, seus objetivos políticos mais amplos incluem a privatização parcial da Previdência Social, o que evidentemente consta de sua agenda para um segundo mandato. E isso exigiria um grande montante financeiro, que não estava incluído naquelas projeções irreais. Tudo isso levou à suspeita justificada de que, apesar de suas promessas de ano eleitoral, Bush promoveria um retorno aos déficits orçamentários.

É exatamente a mesma coisa quando se trata do alistamento obrigatório. As alegações de Bush de que não precisamos expandir nosso contingente militar são flagrantemente irreais; são declarações que ignoram o severo grau de fadiga que nosso exército já enfrenta. E a experiência no Iraque mostra que a determinação de implantar sua doutrina mais ampla no que diz respeito à política externa --a "doutrina Bush" de guerra "por antecipação"-- demandaria um contigente militar muito maior do que o existente no momento.

Isso nos leva a uma suspeita justificada de que, depois da eleição, Bush buscaria uma ampla expansão de nossas tropas, muito provavelmente através da volta do alistamento obrigatório.

As atuais garantias de Bush de que isso não irá acontecer são fundamentadas no princípio de negação da realidade. Na semana passada, o Comitê Nacional Republicano enviou uma carta raivosa e ameaçadora para a organização Rock the Vote, que está antecipando a questão do alistamento para mobilizar jovens eleitores.

Na carta escreveram: "Esse mito urbano que diz respeito ao alistamento obrigatório já foi inteiramente desmascarado". E citaram Bush: "Não precisamos desse tipo de alistamento. Vejam, o exército totalmente formado por voluntários está funcionando bem."

Na verdade, o exército formado apenas por voluntários está seriamente sobrecarregado. Uma investigação coordenada pelo secretário de defesa Donald Rumsfeld chegou à mesma conclusão de qualquer outra pesquisa independente: Os Estados Unidos atualmente têm "um contingente inadequado" para exercer as operações planejadas.

No Iraque, a falta de soldados necessários para proteger comboios de suprimento, e também para pacificar o país, é a causa essencial de incidentes como o dos reservistas que se recusaram a cumprir o que eles descreveram ser uma "missão suicida."

Os comandantes no Iraque já reivindicaram mais soldados (apesar da negativa do governo) --mas não há mais soldados para enviar. A escassez de contingente é tão grave que unidades de treinamento como o famoso Regimento do Cavalo Negro, especializado em treinar outras unidades para as batalhas, também está sendo enviado para o combate. Como o especialista em assuntos militares Phillip Carter definiu: "Isso é igual a comer nossas próprias sementes de milho."

Seja como for, será que a essa altura temos realmente um exército todo formado por voluntários? Milhares de reservistas e de integrantes da Guarda Nacional não estão mais servindo voluntariamente: eles têm sido mantidos no serviço militar após o período de alistamento combinado, por meio de "suspensões de baixas".

A estratégia do governo de negar essas realidades foi ilustrada num momento revelador durante o segundo debate presidencial. Depois de o senador John Kerry descrever a política de suspensão de baixas como um "alistamento clandestino", o moderador Charles Gibson tentou arrancar um comentário de Bush, acrescentando: "E com os reservistas mantidos em serviço."

Nesse momento Bush cortou Gibson e rapidamente mudou o assunto, da sina dos reservistas americanos para a honra de nosso aliados poloneses, encerrando o que ele obviamente encarou como sendo uma linha perigosa de questionamento.

E, durante o terceiro debate, Bush tentou minimizar o assunto, afirmando que os reservistas enviados ao Iraque "não encaravam seu serviço como um alistamento clandestino, mas sim como uma oportunidade para servir ao seu país." Nesse caso, por que eles estão sendo forçados, e não solicitados, a continuar em ação?

A realidade é que a guerra do Iraque, que foi planejada para demonstrar a viabilidade da doutrina Bush, empurrou as tropas americanas para além de seus limites. Ainda assim não há sinais de que Bush esteja se contendo.

De acordo com todas as previsões, num segundo mandato os arquitetos dessa doutrina, como Paul Wolfowitz, seriam promovidos, e não removidos. A única maneira disso fazer sentido, e ser colocado em prática, seria uma atitude de Bush em direção a forças armadas mais amplas --e isso significaria retomar o sistema de alistamento obrigatório. Em 2000, o republicano também prometeu não fazer déficit, mas . . . Marcelo Godoy

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