UOL Notícias Internacional
 

20/10/2004

Motor flexpower dribla custo da gasolina no Brasil

The New York Times
Todd Benson

Em São Paulo
Quando a companhia de petróleo estatal brasileira anunciou neste mês um aumento no preço dos combustíveis para acompanhar a alta do petróleo, Gutemberg do Brasil, Moreira não se abalou nem um pouco.

Moreira é um cirurgião bucal que passa boa parte do dia enfrentando um tráfego pesado para chegar a hospitais espalhados por toda esta ampla metrópole. Ele dirige um carro que é movido tanto a gasolina quanto a etanol, e cujo motor utiliza a mistura dos dois combustíveis em qualquer proporção. Mas como o etanol --ou álcool, como é chamado pelos brasileiros-- custa apenas a metade do preço da gasolina, Moreira não perde tempo para decidir que combustível usar na hora de encher o tanque do seu Volkswagen Fox comprado há três meses.

"Quando comprei o carro, tentei usar simultaneamente álcool e gasolina", conta ele. "Mas atualmente uso apenas álcool, e o meu gasto mensal com combustível provavelmente diminuiu 40%. Simplesmente não faz qualquer sentido usar gasolina se o carro apresenta um funcionamento igualmente satisfatório com álcool".

Assim como Moreira, centenas de milhares de brasileiros estão driblando o preço elevado da gasolina ao dirigir esses novos automóveis "flexpower", que estrearam nas exposições automobilísticas no ano passado e que, desde então, têm sido um sucesso de vendas.

Atraídos pelo baixo preço do etanol, os brasileiros já compraram quase 220 mil desses veículos híbridos nos primeiros nove meses do ano, um número que representa 24% de todas as vendas de carros novos no país. Alguns analistas e executivos da indústria automobilística prevêem que esse número poderá aumentar 40% até o início do próximo ano, e que o mercado brasileiro acabará dominado por veículos flexpower.

"Eu não ficaria surpreso se, em poucos anos, todos os carros novos do Brasil fossem equipados com motores flexpower", diz João Alvarez, o principal diretor de engenharia da unidade brasileira da Volkswagen. "A demanda só vai aumentar, especialmente se os preços do petróleo e da gasolina continuarem subindo, e já ficou claro que os consumidores gostam do produto".

A fabricante alemã foi a primeira no Brasil a lançar um motor flexpower, ao introduzir, em março do ano passado, o modelo subcompacto Gol TotalFlex. A Fiat, da Itália, e as gigantes norte-americanas General Motors e Ford Motor também seguiram esse exemplo, embora a Volkswagen ainda detenha a maior fatia do mercado flexpower, com 36,5% das vendas totais. As montadoras francesas Renault e Peugeot também deverão lançar modelos flexpower no mercado brasileiro até o final do ano.

"Quem quiser competir neste mercado precisa oferecer motores flexpower", diz Joel Leite, dono de um Web site chamado Autoinforme, que analisa o setor automobilístico brasileiro. "Caso contrário, ficará para trás".

O Brasil começou a levar a sério a idéia de veículos movidos a combustíveis alternativos durante o pico da crise global de petróleo nos anos 70, quando a ditadura militar deu início a uma campanha para a redução da dependência no caro petróleo estrangeiro.

Com o auxílio de subsídios governamentais e generosas isenções fiscais, as montadoras daqui projetaram e começaram a fabricar veículos movidos exclusivamente a etanol. As usinas de açúcar também se beneficiaram da campanha pró-álcool, recebendo o equivalente a milhões de dólares em subsídios governamentais para a transformação da cana-de-açúcar em álcool. O governo não oferece mais tais subsídios, mas a demanda funciona como um incentivo para que se continue a produzir etanol.

Em meados da década de 80, os automóveis movidos apenas a etanol respondiam por 90% de todas as vendas de veículos no Brasil, fazendo do país o maior mercado de combustível alternativo do mundo. Mas uma fraca colheita de cana e a elevação do preço do açúcar causaram um racionamento do etanol em 1990, enfurecendo os motoristas, que acabaram voltando a usar carros movidos a gasolina.

Atualmente, menos de 20% da frota brasileira de automóveis consome exclusivamente álcool. No entanto, toda a gasolina vendida no país possui 25% de etanol. Agora, graças à emergência dos motores flexpower, o etanol está retornando.

Segundo a Datagro, uma empresa de consultoria de São Paulo que analisa os mercados de açúcar e de álcool, o consumo médio de etanol no Brasil deve aumentar em 15,4 milhões de litros, chegando a 13,5 bilhões de litros na próxima safra de cana devido à demanda adicional por automóveis flexpower.

Além do mais, esses carros híbridos consomem até o dobro da quantidade de etanol consumida pelos veículos movidos exclusivamente a álcool, o que representa para os donos de refinarias um incentivo para manter a produção do combustível, assim como do açúcar.

"O mercado de etanol aqui no Brasil ficou praticamente estagnado durante mais de uma década", diz Plínio Nastari, presidente da Datagro. "Os carros flexpower estão modificando essa situação", disse ele, acrescentando que o risco de um outro racionamento é remoto porque atualmente o país mantém reservas estratégicas de etanol para o período da entressafra, quando não se colhe cana e não há produção de etanol.

Um outro fator que diferencia os automóveis flexpower dos seus predecessores movidos exclusivamente a etanol, cujos motores são conhecidos pelo demorado aquecimento nos dias frios, é um pequeno tanque de gasolina sob o capô que é usado para dar a partida nos carros quando a temperatura é baixa.Depois que o motor começa a funcionar, o carro passa automaticamente a consumir o combustível do tanque principal. Na estrada, a maior parte dos carros flexpower tem um desempenho igual com etanol ou gasolina, embora alguns, como o Ford Fiesta, apresentem potência ligeiramente maior quando usam álcool.

"Não se trata de uma fonte de energia pior em termos de desempenho", diz Luiz Salem, gerente geral de marketing da Ford do Brasil, que começou a vender versões flexpower dos modelos Fiesta Sedan e Fiesta Hatchback em setembro. "Na verdade, o desempenho é melhor".

Com o preço do petróleo atingindo recentemente níveis recordes, outros países já estão manifestando interesse em importar a tecnologia flexpower do Brasil. A Volkswagen, por exemplo, já atuou como anfitriã de delegações da Austrália, Reino Unido, China, Índia, Japão, África do Sul e Estados Unidos.

"Todos estão interessados nessa tecnologia", diz Alvarez, o executivo da Volkswagen.

Mesmo assim, os especialistas dizem que provavelmente serão necessários anos --se não décadas-- até o Brasil se tornar um grande exportador de automóveis flexpower. Afinal, poucos países possuem uma indústria produtora de álcool combustível e um sistema de distribuição do produto tão avançado como o do Brasil.

Uma mistura de 85% de etanol e 15% de gasolina, conhecida como E85, está disponível em pelo menos 22 Estados norte-americanos, especialmente em Minnesota e nos Estados do meio-oeste, mas ainda é difícil encontrar esse combustível em outras partes do país. Já no Brasil, um país que tem quase o tamanho dos Estados Unidos, o etanol está disponível em quase todo posto de combustível.

"Pode demorar algum tempo, mas não há dúvida de que a tecnologia flexpower acabará sendo usada em outros países", diz Leite, o analista do setor automobilístico. "Trata-se de uma idéia muito boa para deixar de ser exportada". Montadoras vão exportar tecnologia; álcool aumenta desempenho Danilo Fonseca

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