UOL Notícias Internacional
 

21/10/2004

Bush pretende impor democracia a Oriente Médio

The New York Times
David E. Sanger

Em Washington
Nas duas últimas frenéticas semanas de campanha, chega um momento em todo comício, em todo encontro, em que o presidente começa a falar sobre o que chama de "poder transformador da liberdade".

Ele geralmente acontece perto do final do seu discurso, após Bush acusar o senador John Kerry de buscar uma retirada apressada do Iraque e de querer abrir mão da soberania americana com a criação de um "teste global" para o uso do poder militar.

Ele quase sempre começa com a descrição de Bush de seu relacionamento amistoso com Junichiro Koizumi, o primeiro-ministro japonês, e seu espanto por estar sentado "à mesa com o chefe de Estado de um ex-inimigo" enfrentado por seu pai na Segunda Guerra Mundial.

Mas ele se move rapidamente para uma visão de um Afeganistão e Iraque democráticos, e então para "governos livres no Oriente Médio que combaterão os terroristas, em vez de abrigá-los". É a forma de Bush inserir na história de sua presidência um senso de missão, uma tão grande quanto a libertação da Ásia e da Europa há meio século, uma com a promessa de transformar a região naquilo que o Japão se tornou: rico, pacífico e com sua forma própria de democracia.

É deliberadamente mais Reagan do que Bush, um símbolo do "lance da visão" que o pai de Bush carecia, com resultados eleitorais desastrosos, doze anos atrás. E apesar de o refrão do presidente raramente aparecer nos noticiários noturnos, é um momento para cima na mensagem diária do presidente.

Ela é habilmente desenvolvida para fazer os ouvintes olharem além das manchetes diárias de decapitações e homens-bomba suicidas, de uma insurreição que tem desafiado o poderio militar americano, e concentrar a atenção dos americanos no fato de os afegãos terem acabado de ir às urnas, e que os iraquianos estão tentando fazer o mesmo.

"A liberdade está em marcha", declarou Bush no Al Lang Field em Saint Petersburg, Flórida, na manhã desta terça-feira (19/10), assim que começou a descrever uma missão americana para disseminar a democracia e a liberdade, que há poucos anos era a visão de apenas uns poucos neoconservadores, liderados por Paul D. Wolfowitz, o vice-secretário de Defesa.

Tal argumento conquistou entusiastas no governo enquanto eles pressionavam os argumentos para a derrubada de Saddam Hussein. "A liberdade está se estabelecendo em um parte do mundo que ninguém jamais sonhou que seria livre", disse Bush, "e isto torna a América mais segura".

Kerry e muitos dos outros críticos do presidente argumentam que sua adoção de uma democratização liderada pelos Estados Unidos --repleta de uma calorosa referência a Harry Truman, o presidente que iniciou a reconstrução da Europa e do Japão-- representa pouco mais do que uma justificativa pós-fato para a guerra.

Eles notam que Bush fez apenas um grande discurso sobre a democratização do Oriente Médio antes de invadir o Iraque --apesar de ter falado quase diariamente sobre a ameaça das armas de destruição em massa. ("Nós precisávamos de mais alguns discursos sobre a democratização, e menos do outro", reconheceu posteriormente um de seus principais conselheiros, no ano passado.) Agora, faz parte de sua mensagem diária.

Os críticos argumentam que o discurso de Bush encobre todos os erros dos últimos 18 meses, que dificultaram para os reformadores na região semearem as sementes da mudança.

E é certamente irritante para qualquer um que ouviu Bush argumentar durante a campanha de 2000 que era hora de retirar as forças armadas americanas do negócio de reconstrução de países, apenas para disputar a reeleição em 2004 como um pregador passional do uso do poder americano para reformar os cantos mais não-democráticos do mundo.

Mas a visão de Bush parece sensibilizar seu público entusiasta. E quando Kerry levanta o mesmo assunto --como fez na quarta-feira em Iowa, em uma ampla crítica à política de segurança nacional de Bush-- geralmente é para rejeitar a abordagem do presidente.

"Eu apoiarei as forças do progresso em países não-democráticos", disse Kerry, "não com campanhas imprudentes para impor de fora para dentro a democracia à força, mas trabalhando com os modernizadores internos para construir as bases da democracia".

Nos raros momentos em que tem sido questionado, Bush nunca respondeu à pergunta sobre como reagiria se o Iraque, o Afeganistão ou outros países no Oriente Médio realizassem eleições livres e livremente escolhessem governos islâmicos, fundamentalistas.

Mas seu diretor de comunicação, Dan Bartlett, disse outro dia que "o presidente compreende que parte da democracia é que você não pode ditar o que os eleitores vão fazer. Mas olhe cada passo até o momento" no Afeganistão e no Iraque, disse ele, "e as pessoas demonstraram até o momento que não estão inclinadas a seguir por este caminho".

Bartlett insistiu que o discurso não surgiu da mente de Wolfowitz, ou da caneta de um redator de discursos. "É de Bush", disse ele.

Seja qual for a fonte, Bush fala sobre "o poder transformador da liberdade" com o mesmo tom que às vezes usa para falar sobre o poder da religião de transformar a alma. Ele freqüentemente vincula os dois, repetindo uma de suas frases favoritas de que a "liberdade não é o presente da América para o mundo, a liberdade é o presente de Deus Todo-Poderoso para cada homem e mulher neste mundo".

Às vezes ele realmente se anima com o assunto, como fez em Marlton, Nova Jersey, na segunda-feira. "Após décadas de tirania no Oriente Médio, o progresso rumo à liberdade não ocorrerá facilmente", disse Bush.

"Mas tal progresso está ocorrendo mais rapidamente do que muitos diriam ser possível. Por toda uma região conturbada, nós estamos vendo um movimento na direção de eleições, maiores direitos para as mulheres e uma discussão aberta sobre reformas pacíficas. A eleição no Afeganistão há menos de duas semanas foi um evento marcante na história da liberdade. Tal eleição foi uma derrota tremenda para os terroristas."

E então, para melhor efeito, ele voltou suas armas na direção da visão alternativa de Kerry. "Meu oponente se queixou de que estamos tentando 'impor' a democracia aos povos daquela região", disse ele, enquanto o público vaiava. "É isto o que ele vê no Afeganistão, pessoas relutantes tendo a democracia imposta a força a elas?"

"Ninguém os forçou a se registrarem aos milhões", ele acrescentou um momento depois, "ou a ficar em longas filas nos locais de votação. No dia daquela eleição histórica, uma viúva afegã trouxe todas as suas quatro filhas para votarem ao seu lado. Ela disse isto --ela disse: 'Quando você vê mulheres em fila aqui para votar, isto é algo profundo. Eu nunca sonhei que este dia ocorreria'. Mas o sonho daquela mulher finalmente chegou, da mesma forma que algum dia chegará a todo o Oriente Médio".

Para Bush, talvez fortuitamente, ele ocorreu poucas semanas antes dos americanos irem às urnas, naquele que cada vez mais se parece com um referendo sobre a abordagem do presidente em relação ao mundo. Poderá ser a primeira chance desde 1948 para determinar se o que Truman fez pelo Japão pode ser traduzido para uma época bem diferente, uma região muito diferente do mundo, e se reelegerá um presidente bem diferente. Já Kerry afirma que os governos devem mudar "de dentro para fora" George El Khouri Andolfato

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