UOL Notícias Internacional
 

21/10/2004

Candidatura Kerry avança no Estado de Michigan

The New York Times
R.W. Apple Jr.

Lansing, Michigan
Demorou bastante para que John Kerry deslanchasse em Michigan, muito mais do que previam os analistas de Washington. Só após os debates a sua campanha finalmente entrou nos eixos em um Estado que parecia ser o seu alvo mais fácil entre todos os campos de batalha política acirrada do meio-oeste.

Esse é um Estado no qual as organizações trabalhistas ganharam força há muito tempo, graças a Walter P. Reuther e à United Auto Workers, entre outros, e que nunca mais dela abriu mão. Com 760 mil membros, os sindicatos de Michigan representam quase um quarto dos trabalhadores do Estado, o dobro da média nacional, e nesta campanha, os seus membros não parecem inclinados a abandonar a senda democrata, como muitos fizeram quando Ronald Reagan ou George C. Wallace disputaram as urnas.

Michigan tem uma governadora democrata popular e articulada, Jennifer Granholm, além de dois senadores democratas. A drástica redução do número de empregos no Estado ocorreu durante o governo Bush, incluindo a perda de um quarto dos empregos fabris, o que deixou o presidente bastante vulnerável por aqui.

Em 2000, Bush não chegou nem perto de ganhar. Al Gore venceu o atual presidente no Estado com uma vantagem de 217.279 votos.

Não obstante, Kerry apareceu na retaguarda em certas pesquisas feitas no final do mês passado. "A idéia de que ele vai vencer facilmente no Estado é duvidosa", disse David Rohde, professor de ciência política da Universidade do Estado do Michigan.

Se esse não é mais o caso --se "a probabilidade de ele vencer no Estado é agora bastante alta", conforme disse Rohde--, isso não se deve ao fato de o candidato democrata ter feito qualquer campanha intensa por aqui, como o fez em Ohio, Iowa e Wisconsin. Ele não visitou Michigan desde que discursou no Clube Econômico de Detroit, em 15 de setembro, e não se espera que ele retorne antes do dia da eleição.

Na verdade, Michigan não dá tanta impressão de ser um Estado onde a eleição será difícil, embora os seus 17 votos no Colégio Eleitoral sejam um alvo tentador, o oitavo maior conjunto de votos do país.

Os republicanos do Estado montaram uma grande campanha de cartazes, com slogans como "Lembre-se, é o seu dinheiro". Mas Bush tampouco tem aparecido ultimamente por aqui, e o Estado está distante da tempestade propagandística que se abateu sobre Flórida e Ohio.

Só Grand Rapids aparece na lista feita pela Universidade de Wisconsin das 25 cidades que tiveram o maior número de propagandas eleitorais neste outono. Grand Rapids ficou em nono lugar. (A cidade ficou em terceiro lugar na lista de intensidade do esforço de propaganda da campanha de Bush, porém, os republicanos admitem que o presidente está se saindo pior que o esperado nesse reduto conservador). O segundo grupo de 25 cidades inclui Detroit, Flint, Lansing e Traverse City, no noroeste.

Michigan é mais importante para Kerry do que para Bush, da mesma forma que Ohio é mais vital para o presidente. Pelo menos nos anos políticos "normais", os democratas ganham em Michigan; eles o fizeram nas últimas três eleições. Nenhum republicano jamais ganhou a eleição presidencial sem vencer em Ohio.

"Se Kerry terminar vencendo nesse Estado", diz Bill Ballenger, editor do jornal "Inside Michigan Politics", um jornal bastante lido, "ele o fará sem lutar muito por isso, ou, de certa forma, por merecimento".

Mas não há dúvidas de que os ventos políticos têm soprado na sua direção nas últimas semanas. Uma pesquisa completada imediatamente antes do terceiro debate presidencial, na semana passada, para o jornal "South Bend Tribune", na fronteira estadual com Indiana, mostrou Kerry com 48% das intenções de voto, contra os 43% de Bush. Ralph Nader ficou com 2% e os indecisos foram 6%. A pesquisa tem uma margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou para menos.

Uma segunda pesquisa, feita pela Strategic Vision, uma firma de orientação republicana, deu a Kerry uma dianteira de nove pontos percentuais (49% a 40%), com 11% dos eleitores indecisos --uma diferença que vai bem além da margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa foi concluída em 14 de outubro, o dia seguinte ao debate presidencial.

Segundo Rohde, foram os debates que fizeram a maior diferença. Ele diz que em Michigan, "uma grande proporção do eleitorado atual considera, pela primeira vez, John Kerry um presidente plausível".

O terceiro debate, centralizado nas questões domésticas, e em grande parte nas econômicas, pode ter sido especialmente importante para os eleitores do Estado. Na maior parte do país, os eleitores apontam o terrorismo, o Iraque e o desemprego como questões de significado semelhante, mas segundo pesquisas feitas em Michigan, no Estado o desemprego é a maior preocupação.

Embora insistindo que "ninguém está dando nada como certo", Granholm manifestou confiança em que Kerry venceria aqui. Segundo ela, o desemprego, atualmente de 6,5%, é o maior motivo para isso; o Iraque é menos importante.

"As pessoas sabem que a coisa está uma bagunça e que isso vai atingir o presidente. Mas eles não sabem o tamanho da bagunça --como ela é terrível-- e como povo não queremos acreditar no estrago feito à nossa reputação no exterior", afirmou ela.

Granholm mostrou um papel no qual ela anotara as manchetes dos noticiários matinais de televisão, e leu as anotações em voz alta: "o déficit está maior; o Dow caindo; os pedidos de seguro desemprego em alta, atingindo um recorde; as previsões de lucro da General Motors abaixo do esperado, com as solicitações de cobertura de saúde prejudicando os lucros; preços do petróleo em alta". Segundo ela, essas manchetes foram agregadas "a uma tempestade perfeita de más notícias".

Ela poderia ter dito que os preços altos persistentes do petróleo tiveram impacto sobre o Estado de mais de uma forma. Eles prejudicaram não só as vendas de carros, e, conseqüentemente, o nível de emprego na indústria automobilística, mas também a psicologia coletiva do Estado. Em Michigan, quase todo mundo possui um carro ou dois, assim como um barco, e considera um direito divino usá-los com a freqüência que desejarem.

Assim, por que Kerry demorou tanto a assumir a liderança no início? "Ele estava perdendo os votos das mulheres idosas", diz Ed Sarpolus, consultor político e pesquisador de opinião da Lansing. "Entre as mulheres de mais de 60 anos, para as quais o sistema de saúde e o Social Security significam muito, as suas intenções de votos estavam abaixo dos 50% no início do verão. Essa foi a primeira vez que vi um desempenho tão ruim de um candidato democrata em muitos anos. Ele fez alguma viagens até aqui, e quando apareceu, não tinha uma mensagem para o eleitorado local. Kerry jamais fechou o acordo que estava à sua espera no Estado. Agora, finalmente, ele provavelmente não terá problemas por aqui, mas até o momento não conhecemos a intensidade dessa recuperação. Se não fosse pelos debates, desta vez Bush poderia ter vencido em Michigan".

Granholm pode ajudar Kerry com dois dos seus principais grupos-alvos. Como uma democrata centrista do estilo Clinton, menos liberal e austera que o candidato da Nova Inglaterra, ela pode proporcionar a ele a credibilidade junto aos eleitores operários em locais como o Condado de Macomb, que votou em Reagan, e cuja visão sobre o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo é mais conservadora que as suas posturas econômicas. No início, muitos apoiavam o deputado Dick Gephardt como candidato à presidência.

Granholm é também muito popular junto aos independentes, que respondem por cerca de um quinto do eleitorado, e às mulheres trabalhadoras dos subúrbios, como ela própria.

Com a ajuda da filial em Michigan da organização sindical AFL-CIO, liderada por um ex-líder de sindicato de caminhoneiros chamado Mark Gaffney, os democratas montaram aquilo que Gaffney chama de a maior mobilização eleitoral local já organizada por um movimento trabalhista em Michigan.

Em um único sábado, neste mês, voluntários do partido fizeram 131.452 contatos com eleitores, batendo diretamente nas portas destes ou por meio de ligações telefônicas. Democratas se arriscaram a perder para Bush reduto fundamental Danilo Fonseca

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