UOL Notícias Internacional
 

22/10/2004

Protegendo o petróleo da Colômbia

The New York Times
Juan Forero

De Puerto Vega (Colômbia)
Na maior e mais ambiciosa ofensiva do exército nos 40 anos de guerra contra os rebeldes na Colômbia, 18 mil soldados do exército colombiano tomaram desde janeiro quatro Estados isolados no Sul, um trecho sem lei que por anos funcionou como uma república de fato para os rebeldes marxistas.

Auxiliadas por helicópteros, planejamento e vigilância americanos, as forças colombianas têm a meta declarada de penetrar no coração histórico do maior grupo rebelde colombiano, para "desferir um golpe decisivo contra os narcoterroristas", como o general James Hill, o comandante das forças americanas na América Latina, colocou meses atrás..

Mas a ofensiva apoiada por Washington tem outro motivo, disseram autoridades militares e do petróleo, um que as autoridades americanas e colombianas discutem apenas cautelosamente: tornar as regiões potencialmente ricas em petróleo seguras para a exploração por empresas privadas e pela empresa estatal de petróleo colombiana.

Com a queda da produção colombiana de petróleo e a avidez do governo Bush em buscar diversificar as importações de petróleo americanas, o governo da Colômbia tornou a proteção das bacias de petróleo potencialmente ricas e da infra-estrutura de energia um ponto fundamental de seus esforços para pacificar este vasto país.

"Para os militares, a prioridade é proteger e fornecer confiança para os investidores, em particular no setor do petróleo", disse Mauricio Salgar, diretor de operações da Ecopetrol, a estatal de petróleo. "Para o investidor, é importante saber que tem um aliado na Colômbia."

A dupla meta da política de proteger a produção de petróleo e desafiar o mais formidável grupo rebelde da Colômbia, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), está mais aparente aqui na província de Putumayo, onde a coca crescia como mato e os rebeldes controlavam livremente cidades e estradas.

Uma das recém-chegadas é a Petrotesting Colombia, uma pequena e animada empresa colombiana que tornou a produção de óleo cru em cantos perigosos da Colômbia em uma espécie de especialidade. Mas ela não opera aqui sozinha.

Quatrocentos soldados patrulham a estreita estrada de terra usada pelos caminhões-tanque para transportar o petróleo. Em um poço da Petrotesting, soldados com rifles de assalto Galil montam guarda em uma base altamente fortificada, cercada por uma dúzia de trincheiras de sacos de areia.

"Nós entramos com o apoio das forças armadas", disse Frank C. Kanayet, o presidente da empresa, em uma entrevista nos novos escritórios da empresa em Bogotá. "Sem o apoio do governo, nós não seríamos capazes de entrar lá."

Grande parte da coca, usada para produção da cocaína, foi destruída aqui em uma ação de erradicação financiada pelos Estados Unidos. Os soldados que agora montam guarda sob o forte calor dizem que foram informados que seu trabalho é vital -assegurar o fluxo das receitas do petróleo e do governo. Ultimamente, eles têm estado animados.

"Tudo isto pertencia às guerrilhas", disse o tenente Luis Villalba, o jovem comandante de um grupo de soldados que montava guarda. "Agora pertence ao exército."

Mas gabar-se disto pode ser prematuro.

Pelas quatro províncias, os guerrilheiros se dispersaram na floresta, evitando confrontos diretos. Mas eles deixaram para trás atiradores e minas terrestres que têm retido as forças do exército, matando cerca de 50 soldados e ferindo centenas. Aqui, nos pastos de gado e florestas ao sul do Rio Putumayo, os rebeldes também queimaram recentemente nove caminhões-tanque, que transportavam petróleo da Petrotesting, e mataram um motorista.

"Eles nos disseram: 'Este é nosso petróleo, e vocês estão apenas ajudando as multinacionais'", disse José Ney, 44 anos, cujo caminhão foi incendiado pelos rebeldes em setembro. "Se me pararem de novo, eles me matarão."

Mas, pela primeira vez em anos, os soldados e a polícia chegaram a bolsões isolados desta província, assim como regiões esquecidas de três outras, Caquetá, Meta e Guaviare. E apesar dos bombardeios contra a infra-estrutura, como oleodutos e poços, continuarem em Putumayo, os ataques caíram de 149 em 2003 para 58 neste ano, até meados de outubro.

Os militares e os representantes das empresas de petróleo dão crédito aos dois batalhões criados apenas para proteção da infra-estrutura do petróleo. Eles e outras unidades protegem empresas como a Argosy Energy International de Houston, que tem 15 poços em Putumayo, e a Petrobank Energy and Resources, uma produtora de petróleo canadense que apostou grande parte de seu futuro na Colômbia na exploração de um depósito de petróleo na região de Orito, que pode conter um bilhão de barris.

"Há um sentimento de segurança, de que estamos mantendo a paz", disse o major Pedro Sánchez, um especialista em contra-insurreição há 18 anos que é o segundo em comando do batalhão que protege as instalações de petróleo em Orito. "Nós fornecemos confiança para que as empresas possam explorar aqui."

Empregar o exército de 200 mil homens da Colômbia para promover os interesses do petróleo é considerado como fundamental para os planos ambiciosos do presidente Álvaro Uribe de ampliar a produção de petróleo. O petróleo é o principal produto de exportação da Colômbia, fornecendo quase um terço da receita do Estado. A terceira maior exportadora de petróleo da América Latina, a Colômbia há muito tem estado entre os 10 principais fornecedores de óleo cru para os Estados Unidos.

Mas o agravamento do conflito, somado a termos de contrato que os investidores potenciais consideravam inaceitáveis, levaram as empresas de petróleo a abandonarem o país e a provocar a estagnação da exploração. De uma produção de 830 mil barris por dia em 1999, a Colômbia agora produz 535 mil por dia.

Com o rápido declínio de muitos dos principais campos do país, como o Caño Limón, da Occidental Petroleum, e Cusiana e Cupiagua, da BP, os planejadores de energia daqui dizem que a Colômbia se tornará uma importadora em 2009 a menos que novas descobertas sejam feitas.

Isto significa atrair companhias de petróleo, grandes e pequenas, até mesmo para regiões como Putumayo, onde os planejadores de energia dizem que a produção de apenas 10 mil barris por dia poderia facilmente quadruplicar com mais exploração.

"Qualquer barril de petróleo que esteja lá fora, nós iremos agressivamente atrás dele", disse Salgar, o diretor de operações da Ecopetrol. "Alguns destes campos são muito pequenos, mas nós achamos que são todos importantes. Um barril de petróleo é melhor do que nenhum."

Apesar de não comprovado, as autoridades de energia da Colômbia acreditam que o país pode conter 47 bilhões de barris de petróleo, uma estimativa baseada na proximidade da Colômbia com sua vizinha rica em petróleo, a Venezuela, com a qual compartilha muito da mesma geologia produtora de petróleo.

Mas a Colômbia é enormemente subexplorada, com a exploração e a produção transcorrendo em apenas sete das 18 bacias sedimentares do país, disseram autoridades da Ecopatrol.

Para promover a exploração, o Estado reduziu em 2001 a participação obrigatória da Ecopetrol de 50% para 30% nas joint ventures. Então, em 2002, o governo substituiu seus 20% fixos de royalties por uma escala progressiva que aumenta a viabilidade financeira dos pequenos projetos.

Em abril, o Estado foi ainda mais longe, eliminando a participação obrigatória da Ecopetrol nos projetos. Os impostos também foram reduzidos, a duração dos contratos foi prolongada e a distribuição das concessões se tornou mais flexível. A própria Ecopetrol foi dividida em duas unidades, uma dedicada ao desenvolvimento do setor.

A amplitude das mudanças levou o presidente regional de uma grande companhia de petróleo, que pediu que seu nome não fosse citado, a comentar: "O governo está literalmente desesperado".

Armando Zamora, diretor da Agência Nacional de Hidrocarbonetos, que administra as concessões, concordou: "Nós estamos angustiados e é isto que nos permitiu realizar estas reformas".

As medidas têm atraído atenção e negócios. A maior atração neste ano foi a Exxon Mobil, que juntamente com a Petrobrás, uma antiga produtora de petróleo aqui, tirou proveito dos termos vantajosos para realizar um ambicioso projeto de exploração marítima.

Outras grandes empresas como a ChevronTexaco e a Occidental Petroleum prorrogaram contratos de gás natural e petróleo. A Harken Energy Corp., Repsol-YPF da Espanha, Hocol e várias empresas menores assinaram nos últimos meses contratos de exploração ou acordos de viabilidade que provavelmente levarão a exploração.

Ao todo, 20 contratos de exploração foram assinados neste ano, dando continuidade à tendência de 2003, quando 21 empresas assinaram contratos. Em 2002, em meio ao conflito e antes dos novos termos terem sido introduzidos, 14 contratos foram assinados.

Mas o Estado percebeu que precisava tratar da segurança se quisesse que as companhias de petróleo explorassem regiões como os contrafortes dos Andes, nas províncias Meta e Casanare, ou na região de Catatumbo, devastada pela guerra, no nordeste da Colômbia. Estas áreas podem ter petróleo, mas não têm lei e são violentas.

Após assumir o governo em agosto de 2002, Uribe aumentou a proteção das linhas de transmissão de energia e reduziu o roubo de gasolina pelos grupos paramilitares de direita, que mantinham uma antiga prática de roubar dos oleodutos do governo.

O governo também estabeleceu um novo posto na presidência, o Conselheiro Presidencial para Proteção da Infra-estrutura, que se reúne freqüentemente com os oficiais militares, diretores da Ecopetrol e autoridades de petróleo para discutir medidas de segurança.

Enquanto isso, o governo Bush mudou a política americana e enviou treinadores das Forças Especiais do Forte Bragg, Carolina do Norte, para treinarem os soldados colombianos para proteção do oleoduto de 800 quilômetros utilizado pela Occidental Petroleum, que tem sede em Los Angeles, que bombeia óleo cru de seus campos do Nordeste.

As autoridades de petróleo do governo dizem que a idéia agora é simplesmente atrair empresas potenciais até a Colômbia para discussão das questões de segurança. "Nós diremos para as empresas temerosas: 'Enviem primeiro seu pessoal de segurança'", disse Zamora, da Agência Nacional de Hidrocarbonetos. "Eles virão, nós os levaremos até o Ministério da Defesa, ao Ministério das Minas e Energia, até as outra empresas, para que possam ver por si mesmos."

Tais medidas geraram preocupações entre alguns analistas políticos, que questionam o uso de recursos públicos, tanto americanos quanto colombianos, para benefício de empresas, a maioria privadas.

Muitas das empresas são americanas e, como a Occidental, há muito tempo fazem lobby em Washington para um apoio mais forte ao governo colombiano. Os planejadores militares americanos também tiveram um papel importante no planejamento dos esforços militares para proteção tanto da infra-estrutura quanto do ataque às guerrilhas.

"Apesar do governo Uribe ter lançado ofensivas a outros lugares, a assistência americana tem ocorrido em locais onde há reservas de petróleo", disse Adam Isacson, um analista sênior de política que acompanha a Colômbia para o Centro para Política Internacional, uma organização em Washington que promove a desmilitarização e os direitos humanos. "Coincidência?"

Mas as políticas têm, em muitos casos, beneficiado colombianos comuns, esquecidos há muito tempo pelo Estado.

Agora há forças de segurança em todos os 1.100 municípios colombianos de todo país; há dois anos, cerca de 200 cidades não tinham polícia nem soldados. Os soldados e os tanques leves margeiam estradas vitais próximas de grandes cidades, onde os colombianos eram freqüentemente seqüestrados.

Para a subsidiária colombiana da Petrobank, a Petrominerales, a presença de tropas tem sido tranqüilizadora. Steven J. Benedetti, o gerente geral da Petrominerales na Colômbia, notou que a empresa não passou ilesa: rebeldes têm atacado seus poços desde que a produção teve início em janeiro de 2003.

Ainda assim, Benedetti continua otimista. "É uma situação onde nós temos que pesar os riscos com os benefícios", disse ele. "Putumayo será importante no futuro próximo." George El Khouri Andolfato

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