UOL Notícias Internacional
 

23/10/2004

Empresa dos EUA é acusada de fraude no Iraque

The New York Times
Erik Eckholm

Em Nova York
Os gerentes de uma firma de segurança que conquistou grandes contratos no Iraque alertaram seus chefes em fevereiro passado sobre o que chamaram de práticas fraudulentas de faturamento, sugerem memorandos internos da empresa.

Os memorandos, escritos inicialmente por dois gerentes da empresa, acusam que a firma de segurança, a Custer Battles, cobrou repetidas vezes as autoridades de ocupação por serviços inexistentes ou a preços enormemente inflacionados.

A empresa, que cresceu rapidamente para conquistar contratos de segurança no valor de US$ 100 milhões em pouco mais de um ano, nega as acusações. Ela argumenta que os gerentes confundiram tentativas sinceras de documentar serviços prestados às pressas, em uma zona de guerra, com prática fraudulenta e que a empresa prestou todos os serviços contratados pelo preço acertado.

Os memorandos e o processo impetrado por ex-funcionários citam vários casos específicos, incluindo: a cobrança de US$ 157 mil da Autoridade Provisória da Coalizão por um heliporto que na verdade custou US$ 95 mil, e pela pintura de empilhadeiras abandonadas pela Baghdad Airways e então cobrando milhares de dólares por mês da autoridade, alegando que as empilhadeiras eram alugadas.

Um dos gerentes foi posteriormente demitido pela empresa e participa do processo que acusa a Custer Battles de fraudar o governo federal em dezenas de milhões de dólares. O outro gerente, que de lá para cá foi promovido a um cargo superior na empresa, declarou recentemente que após uma maior análise, ele acredita que as práticas questionáveis foram falha de alguns poucos indivíduos, sem envolvimento dos proprietários.

Em 30 de setembro, o Pentágono, preocupado com as alegações levantadas pelos funcionários, proibiu a Custer Battles de receber novos contratos militares e reteve pelo menos US$ 10 milhões em pagamentos à empresa, que está apelando a decisão.

As acusações em torno da Custer Battles refletem em parte um problema que os auditores do governo americano reconheceram: a incapacidade da autoridade de ocupação do Iraque, particularmente no primeiro ano, de monitorar devidamente a atuação de centenas de empresas, grandes e pequenas, que rumaram para Bagdá em busca de contratos para tudo, de materiais de construção a guardas armados.

Os memorandos, fornecidos por um advogado dos gerentes que impetraram o processo contra a Custer Battles, acusam a empresa de ter apresentado faturas de supostas empresas subcontratadas ou fornecedores que --sem o conhecimento das autoridades americanas que pagaram a conta final-- eram empresas de fachada, recém-criadas pelos executivos da Custer Battles e seus associados.

A Custer Battles, fundada em 2001 por Scott Custer e Michael Battles, ambos na faixa dos 30 anos, disse ter cerca de 700 funcionários.

Em uma fatura típica, escreveu Pete Baldwin, na época o gerente das instalações no Iraque, em um memorando de 2 de fevereiro, a Custer Battles alegava que uma das empresas de fachada tinha instalado um heliporto por US$ 157 mil. Na verdade, a Custer Battles tinha contratado uma firma diferente para construir o heliporto por US$ 95 mil, ele afirmou. "Todos os itens daquela fatura", que foi submetida com um total de US$ 250 mil segundo ele, eram simplesmente "falsos, inventados, inflacionados".

Baldwin escreveu que informou repetidas vezes Custer, o co-proprietário da empresa, de práticas semelhantes, mas em vão. Um advogado da Custer Battles, Richard Sauber, disse que Custer subseqüentemente enviou auditores ao Iraque para esclarecer os livros incompletos, mas eles não encontraram fraudes.

Baldwin escreveu no memorando que, após ter começado a fazer as denúncias, um executivo da empresa tentou demiti-lo. Baldwin foi demitido em 20 de fevereiro --segundo ele devido às suas denúncias de fraude. Larry Robbins, um advogado da Custer Battles, disse que ele foi demitido por "incompetência".

Na semana passada, documentos abertos pelo Departamento de Justiça revelaram que dois ex-gerentes da Custer Battles, incluindo Baldwin, impetraram processo dentro da lei federal de denúncias, acusando a empresa de fraude.

A empresa chamou tais acusações de infundadas e de trabalho de "um concorrente e um funcionário descontente". Os dois ex-gerentes poderão ganhar milhões de dólares em indenizações caso os processos se sustentem.

Em um memorando datado de 28 de fevereiro de 2004, Peter Miskovich, que foi gerente do contrato de US$ 21 milhões da empresa para proteger a nova moeda iraquiana enquanto era distribuída, fez uma severa crítica do projeto, que ele assumiu já em andamento. Miskovich, que não faz parte do processo de denúncia, escreveu para seu superior, Charles Baumann, na época o gerente geral no país, que os registros forneciam "evidência clara de uma conduta consistente com atividade e intenção criminosas".

Miskovich foi nomeado posteriormente diretor do novo Escritório de Integridade Corporativa da empresa. Em uma declaração legal de 13 de outubro, ele disse que, após uma análise mais profunda, concluiu que as impropriedades financeiras foram mais isoladas do que tinha declarado em fevereiro.

Ele disse: "Eu não acredito, com base no que aprendi durante minha gestão" como gerente de projeto, "que Scott Custer ou Mike Battles estiveram envolvidos em conduta questionável".

Contatado por telefone nesta semana, Miskovich se recusou a falar com a reportagem. Baldwin não pode ser contatado para comentar.

A Força Aérea, que suspendeu o contrato da Custer Battles, redigiu um memorando citando suspeita de repetidas fraudes. A Força Aérea cita o memorando de 28 de fevereiro de Miskovich e considera a evidência de conduta indevida da empresa de "natureza tão séria, que afeta sua responsabilidade atual como empresa contratada ou subcontratada do governo".

No caso do projeto de troca da moeda, disse Sauber, o advogado da Custer Battles, a autoridade da coalizão concordou em uma taxa final de US$ 21 milhões, mas que o Pentágono reteve o pagamento final de US$ 10 milhões enquanto investiga o contrato.

No início deste mês o Departamento de Justiça se recusou a processar a Custer Battles, apesar do processo civil prosseguir dentro da lei de denúncia. O departamento não ofereceu nenhuma explicação pública, mas as autoridades disseram aos advogados do processo que, devido a suposta fraude ser contra a Autoridade Provisória da Coalizão, ela não se encontra dentro da jurisdição dos promotores federais. Alguns juristas questionaram tal argumento.

Os fundadores da empresa, Custer e Battles, são ambos veteranos do Exército. Battles concorreu sem sucesso ao Congresso por Rhode Island, pelo Partido Republicano, dois anos atrás.

Os dois começaram a oferecer serviços de segurança para organizações não-governamentais no Afeganistão, após a queda de Cabul no final de 2001.

Mas a empresa deles realmente se firmou em junho de 2003, logo após a queda de Bagdá. Os homens conquistaram um contrato de US$ 16,5 milhões das autoridades de ocupação para fornecer segurança para o aeroporto de Bagdá.

Aquele contrato de um ano não foi renovado, mas a empresa já estava conseguindo outros, diretamente junto à Autoridade Provisória da Coalizão ou como empresa subcontratada de outras.

À medida que abocanhava rapidamente uma fatia lucrativa, a Custer Battles às vezes enfurecia empresas de segurança mais experientes, com seu recrutamento agressivo de escassos especialistas em segurança e com alegações de liderança no setor. A empresa se descreve como "a principal empresa de segurança no Iraque" em seu site na Internet.

Os dois fundadores recebiam elogios por seu empreendimento. Os memorandos internos alegam que parte de tal sucesso, no mínimo, foi obtido com práticas questionáveis.

Um exemplo captura parte da obscuridade do Iraque pós-invasão. Com faturas forjadas, escreveu Miskovich, a Custer Battles cobrou pelo fornecimento de um destacamento de segurança para uma entrega rodoviária de cabines pré-fabricadas de Bagdá a Mosul O abrigo era urgentemente necessário para as equipes que realizavam a troca da moeda.

A empresa não apenas não forneceu proteção para a viagem, disse Miskovich em seu memorando de 28 de fevereiro, como o comboio ficou perdido por uma semana, obrigando os oficiais em Mosul a dormirem em tendas e a empresa a oferecer uma recompensa pela localização das cabines. Firma de segurança de republicano teria superfaturado serviços George El Khouri Andolfato

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