UOL Notícias Internacional
 

23/10/2004

Mistura de religião e política conduz EUA ao caos

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista no NYTimes

Em Washington
Quando era pequena, eu era muito talentosa para dar saltos de fé. Uma freira colava no quadro um desenho de um pico de montanha coberto de neve e dizia que a primeira criança a enxergar a face de cristo na neve que se derretia seria a mais abençoada. Logo eu mostrava, presunçosamente, ao resto da turma o "miraculoso" contorno da face expressiva e barbada.

Mas nunca pensei que veria o dia em que os saltos de fé se tornariam uma política nacional; uma época em que o destino da nação dependesse da possibilidade de um milagre.

O que isso nos diz a respeito de um presidente cujas justificativas para a guerra são tão inconsistentes que a única forma que encontrou para justificá-la foi acreditar que o conflito era um desejo de Deus? Ou um presidente cuja única política atual para o Iraque --enquanto as nossas tropas combatem rebeldes ferozes e o sonho de uma democracia desmorona-- é uma crença em milagres?

Os milagres tornam os indiferentes ainda mais indiferentes. As pessoas que vivem norteadas por certezas religiosas não perdem seu tempo com fatos recalcitrantes ou com dúvidas morais. Elas não precisam torturar as suas mentes, por exemplo, ao mandarem jovens norte-americanos para armadilhas no deserto cheias de inimigos fantasmas, sem que contem com cobertura, blindagem, expectativas ou treinamento cultural apropriados.

Qualquer presidente que confiasse mais nos fatos do que na fé teria enxergado que tais tropas seriam alvos fáceis: a experiência de Donald Rumsfeld --enviar uma força leve e ágil-- conflitava diretamente com a necessidade de uma força avassaladora para que se colocasse em prática o esquema grandioso dos neoconservadores no sentido de transformar o Iraque em uma democracia modelo.

JFK teve que lutar contra a expectativa antipapista de que o seu Salão Oval receberia ordens do céu. Para W., isso se trata de um fato plenamente aceito. Alguns católicos de extrema direita querem que John Kerry seja excomungado, enquanto que os evangélicos chamam o presidente de um mensageiro de Deus. "A benção de Deus está com ele", disse o evangelista Pat Robertson na televisão, acrescentando. "É a bênção dos céus ao imperador".

Bush mostrou a todos os eleitores evangélicos que não gostam do seu pai que ele, para usar as palavras de Robertson, "recebe as suas ordens do Senhor".

Quando Paula Zahn perguntou nesta semana ao tele-evangelista se Bush, como cristão, deveria reconhecer os seus erros, Robertson disse ter advertido um satisfeito Bush sobre a questão do Iraque: "O Senhor me disse que aquilo seria (a) um desastre, e (b) uma bagunça.

Robertson afirmou: "Ele é o homem mais seguro de si que eu já conheci". Parafraseando Mark Twain, Robertson disse que Bush é "como um cristão feliz com quatro ases. Ele estava simplesmente sentado lá, como se estivesse no topo do mundo, e eu o alertei sobre esta guerra. Eu tentava dizer-lhe, senhor Presidente, é melhor você preparar o povo norte-americano para as baixas. 'Ah, não. Não sofreremos nenhuma baixa'".

Parece que W. realmente acredita ser o escolhido. Presidente Neo. (E os seus assessores são os discípulos. Foi por isso que Condi Rice se mostrou tão disposta a deixar de lado as suas tarefas relativas à segurança nacional para divulgar o evangelho de Bush nos Estados onde o resultado da eleição é imprevisível. E foi por esse motivo que Karen Hughes correu a contestar a autenticidade de Robertson, após este der descrito o seu assustador encontro com W.).

A deliberada cegueira de W. deriva do fato de ele assumir erroneamente que os seus desejos equivalem às vontades de Deus, como se soubesse qual é a posição do Criador sobre todas as questões, da democracia no Iraque às reduções de impostos sobre os lucros com investimentos financeiros.

Conforme Lincoln observou no seu Segundo Discurso de Posse sobre a Guerra Civil, ninguém pode falar em nome de Deus: "O Todo Poderoso tem os seus próprios objetivos".

Bush não apenas ignorou a advertência de Robertson --ele ignorou também os seus próprios especialistas em inteligência, que alertaram antes da guerra que uma invasão do Iraque angariaria mais apoio para o islamismo político e geraria um conflito violento, incluindo uma insurgência que aglutinaria membros do Partido Baath e terroristas em uma combinação tóxica.

Conforme Michael Gordon escreveu na sua série de artigos em The New York Times desta semana sobre "pontos cegos" na estratégia para garantir a segurança no Iraque, a equipe de Bush cometeu uma inacreditável série de erros: assumiu que seria capaz de retirar as tropas do território iraquiano 60 dias após a tomada de Bagdá; permitiu que a insurgência crescesse; aboliu as forças armadas iraquianas e colocou vidas norte-americanas em risco; não interpretou corretamente a reação óbvia a uma ocupação norte-americana de um país muçulmano.

E os oficiais de inteligência da CIA estavam tão perdidos que queriam distribuir centenas de bandeirinhas dos Estados Unidos no Iraque antes do início da guerra de forma que iraquianos agradecidos pudessem agitá-las para saudar os seus libertadores. A agência planejou filmar tal momento apoteótico e difundir triunfalmente essa imagem no mundo árabe.

O presidente está imbuído dessa estranha idéia de que a sua crença em Deus significa conhecimento detalhado e perfeito de tudo o que o Criador deseja. Bush pode ter a intenção de manter a cabeça enfiada nas areias do Iraque, mas corre o risco de descobrir que o Todo Poderoso possui os seus próprios objetivos. Bush usa fé para justicar e insistir em suas iniciativas mal sucedidas Danilo Fonseca

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