UOL Notícias Internacional
 

24/10/2004

Custo da guerra no Iraque pode atingir US$ 1,9 tri

The New York Times
Anna Bernasek

Em Nova York
Muitas vezes já se disse que a verdade é a primeira baixa da guerra. Durante uma campanha eleitoral para a presidência, isso pode ser mais verdadeiro que nunca. Considere uma pergunta aparentemente simples: Qual é o custo da guerra do Iraque para os Estados Unidos? O presidente Bush e o senador John Kerry deram respostas diferentes, mas ambos os candidatos ignoraram o que talvez seja o item mais caro: o impacto da guerra sobre a economia em geral.

Afinal, o custo real da guerra não é apenas o dinheiro gasto, mas também os efeitos econômicos, bons ou maus. Por exemplo, a Segunda Guerra Mundial provocou níveis enormes de produção e emprego nos Estados Unidos, enquanto a guerra do Vietnã puxou para baixo o crescimento econômico conforme se estendeu.

Assim, depois de 19 meses de conflito no Iraque, como a guerra afetou a economia americana, e qual é a perspectiva para o futuro?

É claro que calcular o efeito líquido de uma guerra em curso não é fácil nem preciso. É por isso que muitos analistas hesitam em tentar. Mas alguns economistas tarimbados fizeram estimativas arrazoadas e os resultados são surpreendentes.

O custo econômico envolvido até agora pode ser tão grande quanto --ou maior que-- o que foi gasto diretamente na guerra. (Embora as estimativas variem, o número oficial de gastos está em torno de US$ 120 bilhões desde o início do conflito.) E provavelmente haverá grandes custos econômicos com a continuação da guerra.

Mas vamos começar pelo impacto econômico até hoje. Dois economistas, Warwick J. McKibbin, do Instituto Brookings, e Andrew Stoeckel, do Centro para Economia Internacional da Austrália, calcularam que a guerra pode já ter custado aos Estados Unidos US$ 150 bilhões em perda de Produto Interno Bruto desde o início dos combates em março de 2003.

Isso é quase um ponto percentual de crescimento perdido no último ano e meio. Se esse número estiver correto, o índice de crescimento econômico anual do país, que foi de 3,7% nesse período, poderia ter sido quase 4,7% sem a guerra.

De onde vem esse número US$ 150 bilhões? O estudo levou em conta fatores como o aumento dos preços do petróleo, maiores déficits orçamentários e maior incerteza. Ao analisar os efeitos da incerteza, os autores estimaram o impacto da guerra sobre mercados financeiros, investimentos empresariais e gastos do consumidor.

É claro, os resultados de qualquer modelo econômico são abertos a debate, e a estimativa de US$ 150 bilhões não é exceção. Alguns economistas, como David Gold, da New School University, afirmam que o número pode estar baixo demais, enquanto outros, como Mark Zandi, da Economy.com, afirmam que está exagerado.

Mas se McKibbin e Stoeckel estiverem corretos em sua estimativa, o custo real da guerra até hoje, incluindo gastos diretos e perda de crescimento econômico, está em torno de US$ 270 bilhões.

A maioria dos economistas concordaria que a guerra prejudicou a economia, principalmente com a alta de preços do petróleo e da constante incerteza. A conseqüência da guerra sobre os preços do petróleo é difícil de destrinchar de fatores como o aumento da demanda global e problemas de fornecimento, mas acredita-se de modo geral que o papel da guerra foi significativo.

"Não é coincidência o fato de os preços do petróleo terem superado a barreira de US$ 50 por barril um ano e meio depois do início da guerra", disse Stephen S. Roach, economista chefe global do Morgan Stanley.

Zandi disse que a guerra claramente "teve um impacto muito grande em nossa economia e na psicologia das empresas e dos consumidores". Ele explicou a coisa desta maneira: primeiro, no período anterior à guerra, o medo e a incerteza contiveram a recuperação econômica. Depois, quando a invasão inicial teve sucesso, a economia se recuperou com força e retomou o pé. Agora, conforme a guerra se prolonga, a alta do petróleo e a confiança abalada estão prejudicando o ritmo do crescimento e da criação de empregos.

O que realmente preocupa os economistas, porém, é o impacto econômico futuro. "Quanto mais essa guerra demorar, mais fraco será nosso crescimento em longo prazo", disse Zandi. Isso ocorre porque os gastos em coisas como a ocupação e a manutenção da paz no Iraque nada fazem para melhorar a capacidade produtiva da economia americana.

E aumentam o crescente déficit orçamentário. "Com um déficit já em 3,5% do PIB, é realmente uma coisa importante", disse Roach.

Para ver quais poderão ser os futuros custos econômicos, considere um estudo preparado por William D. Nordhaus, um economista de Yale. Em 2002, quando estavam sendo discutidos os méritos de ir à guerra com o Iraque, Nordhaus publicou uma análise abrangente dos potenciais custos econômicos. Ela se tornou o estudo mais influente sobre o assunto. (McKibbin e Stoeckel colaboraram com Nordhaus, e se basearam em muitas de suas hipóteses para construir seu modelo.)

Nordhaus calculou o volume de produção que a economia perderia, com base em duas possibilidades: uma vitória rápida ou um conflito prolongado.

Embora não tenha atualizado seus resultados, a versão do conflito demorado tem se mostrado bastante precisa até agora. Ele estimou que esse conflito resultaria em US$ 140 bilhões em gastos diretos do governo, número do qual já estamos perto. Ele também previu que os preços do petróleo subiriam muito e que a maior incerteza prejudicaria a economia. Além disso, ele esperava grandes custos adicionais associados à ocupação e às operações de manutenção da paz, assim como de reconstrução e esforços de consolidação do Estado.

Somando tudo, ele chegou a um número impressionante de US$ 1,9 trilhão de custos durante a década seguinte à invasão.

É claro, qualquer análise do impacto econômico da guerra com o passar do tempo não é completa se não considerar os futuros benefícios potenciais para os Estados Unidos e o resto do mundo. Uma maior estabilidade política no Oriente Médio, mercados de energia estáveis e a redução do terrorismo global poderiam pagar maiores dividendos. Na verdade, muitas pessoas em Washington esperam que os benefícios acabem superando os custos, por maiores que sejam.

Até agora, porém, com 19 meses de conflito, esse tipo de benefício continua além do horizonte. E, por enquanto, estimar a probabilidade e a magnitude desses benefícios está no reino da política, e não da economia. Cálculo inclui gastos dos EUA e alta do petróleo na economia global Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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