UOL Notícias Internacional
 

25/10/2004

Pesquisas tendenciosas favorecem George Bush

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Se a eleição acontecesse hoje e os votos fossem contados com justiça, o senador John Kerry provavelmente seria o vencedor. Só que os votos não serão contados com justiça, e o processo de "desqualificação" dos eleitores das minorias poderá ser determinante no resultado da disputa.

Resultados das pesquisas recentes variam de uma vantagem de Kerry por três pontos percentuais, segundo apuração da AP-Ipsos poll divulgada na última quinta-feira (21/10), a uma vantagem de Bush por oito pontos, de acordo com o Gallup. Mas se forem alinhadas as pesquisas divulgadas na semana, das mais favoráveis às menos favoráveis ao presidente Bush, encontraremos na metade do caminho pesquisas que indicam um empate de 47 a 47.

Não são boas notícias para Bush, porque eleitores indecisos geralmente se voltam contra quem está no poder --nem sempre, mas aqui estamos falando de probabilidades. Essas pesquisas que indicaram um empate também mostram que Bush tem seu trabalho aprovado por 47%, o que realmente o coloca numa região perigosa.

As projeções para o Colégio Eleitoral, baseadas nas pesquisas realizadas nos Estados, também indicam uma disputa apertada. As projeções, considerando que os eleitores indecisos irão apoiar o candidato desafiante, tipicamente indicam que Kerry teria mais de 300 votos no Colégio Eleitoral.

Mas se você extrai seu noticiário político da TV a cabo, provavelmente você terá uma idéia bem diferente da situação atual. A CNN, que co-patrocinou a pesquisa do Gallup, raramente informa seus espectadores que outras pesquisas indicam uma história bem diferente. O mesmo vale para a Fox News, que tem a sua própria pesquisa simpática a Bush. Como resultado, há uma ampla impressão no público de que Bush mantém uma liderança sólida.

A propósito, por que será que a pesquisa do Gallup, mais influente devido à tradição do instituto, indica uma grande vantagem para Bush, quando tantas outras pesquisas mostram uma situação apertada?

Em grande parte é por causa da maneira como o Gallup determina quem são os "prováveis eleitores": a mesma pesquisa indica entre os eleitores efetivamente registrados vantagem para Bush de apenas 3 pontos percentuais.

Como explica Ruy Teixeira, democrata especialista em eleições (utilizando informações obtidas por um blogger de tendência liberal, Steve Soto), a amostragem construída pelo Gallup sobre os supostos prováveis eleitores contém uma proporção muito menor tanto de eleitores das minorias como de eleitores jovens. Isso se compararmos essa amostragem do Gallup com as verdadeiras proporções desses grupos ocorridas na eleição de 2000.

Fraudes na apuração

Uma visão mais ampla das pesquisas poderia sugerir que Bush está encrencado. Mas ele provavelmente irá se beneficiar de uma contagem de votos distorcida.

A Flórida trouxe o exemplo pioneiro, mas não foi o único caso. Pesquisas recentes na Flórida indicam uma disputa apertada, o que poderá servir de deixa para que haja falhas na contagem de todos os votos. E os votos para Kerry serão sistematicamente sub-contados.

Semana passada eu descrevi o trabalho de Greg Palast na eleição de 2000, relatado recentemente na revista Harper's, que mostra de maneira conclusiva como a Flórida despencou no colo de Bush, devido a uma combinação de fatores que desqualificaram eleitores negros.

Entre esses fatores, uma lista clandestina, que erradamente tirou milhares de pessoas das relações de eleitores, além de máquinas defeituosas que, de maneira desproporcional, falharam ao registrar os votos em distritos pobres e nos distritos habitados pelos negros.

Alguém poderia esperar que o governo da Flórida resolvesse esses problemas no intervalo de quatro anos. Mas muitos desses direitos ao voto, erradamente negados em 2000, ainda não foram restaurados. E a substituição das máquinas que perfuram cartões trouxe novos problemas.

Após o vexame de 2000, uma força-tarefa indicada pelo governador, e irmão do presidente, Jeb Bush, recomendou que o Estado utilizasse uma sólida tecnologia eleitoral que poderia reduzir o número de cédulas inutilizadas, também fornecendo comprovantes impressos que possibilitariam recontagens.

A recomendação se referia a cédulas de papel que podem ser lidas por scanners óticos com capacidade para alertar os eleitores sobre possíveis problemas. Esse sistema já é utilizado em alguns condados mais prósperos da Flórida, habitados principalmente por brancos.

Mas o governador ignorou essa recomendação, assim como também ignorou as autoridades do Estado que pediram a ele para "puxar o plug" de uma nova lista clandestina. Essa lista foi logo desacreditada, assim que um juiz forçou o Estado da Flórida a torná-la pública. E o pedido das autoridades aconteceu dias antes de o governador mandar validar a lista.

Em vez disso, a maioria do Estado irá votar usando máquinas tipo touch-screen (parecidas com as brasileiras), numa tela em que basta digitar para votar, sujeitas à ação de hackers, e que não fornecem vestígios em papel. Palast calcula que depois disso tudo uns 27 mil eleitores ficarão sem votar --desproprocionalmente, pobres e negros.

Muita coisa pode mudar em 11 dias, e Bush ainda tem condições de vencer de maneira convincente. Mas não poderemos repetir o erro de 2000. Não podemos deixar de admitir a possibilidade de que uma vitória apertada de Bush, especialmente se depender da Flórida, poderá estar vinculada à sistemática desqualificação de eleitores das minorias.

E a mídia não poderá avaliar uma vitória suspeita dessa natureza como uma legitimação de relatos distorcidos, que decididamente supervalorizaram o apoio popular a Bush. Apuração de votos deve desqualificar eleitores em redutos de Kerry Marcelo Godoy

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host