UOL Notícias Internacional
 

26/10/2004

Clinton e Kerry são aplaudidos por 80 mil pessoas

The New York Times
Jodi Wilgoren

Filadélfia
Ele tinha a aparência um pouco abatida, com o seu terno azul marinho sob um corpo debilitado. E parecia um pouco sem ar quando falava e bebeu água em uma garrafa logo após ter deixado o palanque. Mas ele mordeu os lábios e balançou a cabeça com aquela eletricidade familiar nos olhos, dizendo "obrigado" a uma enorme multidão que o adora, e que encheu as ruas do centro de Filadélfia nesta segunda-feira (25/10), na hora do almoço.

"Freqüentemente, fui chamado de Comeback Kid [algo como 'o garoto que retorna']", disse o ex-presidente Bill Clinton, fazendo campanha lado a lado com John Kerry na sua primeira aparição pública desde que passou por uma cirurgia para colocar quatro pontes de safena há sete semanas. "Em oito dias, John Kerry fará dos Estados Unidos o País que Retorna".

Olhando para um mar de pessoas que se estendia por 12 quarteirões, ele disse: "Se isso não for bom para o meu coração, não sei o que mais pode ser". Foi uma cena pela qual os democratas esperaram desesperadamente nas últimas semanas dessa campanha ferozmente disputada.

Mas foi uma cena que o predecessor de Kerry como candidato democrata, o ex-vice-presidente Al Gore, evitou quatro anos atrás. Gore temia que a indignação com o caso mantido com uma estagiária, que levou Clinton a um impeachment, afastasse os disputados eleitores dos Estados onde a campanha foi mais difícil.

Agora, os assessores de Kerry vêem o ex-presidente como igualmente capaz de motivar a base do partido e telegrafar para os eleitores indecisos aquilo que a campanha está colocando como a pergunta essencial dessa eleição: Você está melhor agora do que quando o presidente Bush entrou no Salão Oval?

Apresentando Clinton como "o último presidente corretamente eleito dos Estados Unidos", Kerry disse: "Ele liderou esta nação rumo à mais robusta economia que já tivemos. Ele estendeu a cobertura do sistema de saúde a milhões de crianças nos Estados Unidos. Ele ajudou a colocar a nossa segurança e a do mundo no patamar onde ela deveria estar, e ele fez tudo isso colocando o povo em primeiro plano e lutando pela classe média".

"Perguntei ao presidente antes de chegarmos aqui: 'Senhor presidente, pode me dizer algo que tenha em comum com George W. Bush?'", disse Kerry. "Ele pensou por um instante e disse: 'Em oito dias e 12 horas, nós dois seremos ex-presidentes".

De Filadélfia, onde o corpo de bombeiros calculou que a multidão chegou a 80 mil pessoas --até agora a maior da campanha-- , Clinton rumou para a Flórida para participar de eventos individuais na segunda e na terça-feira, sendo que Nevada e o Novo México estão no seu itinerário de final da semana, caso a sua saúde permita.

No caminho para casa em Nova York, no próximo domingo (31/10), Clinton planeja parar no seu nativo Arkansas, um Estado onde Bush venceu por uma diferença de mais de cinco pontos percentuais em 2000 e onde uma nova pesquisa revela que a corrida ficou subitamente muito disputada.

O tão esperado retorno de Clinton ao roteiro de campanha ocorre após o cancelamento de pelo menos dez comícios nos últimos dois meses devido à cirurgia, mas o atraso só ajudou a intensificar o efeito da volta. E se ele esteve menos enérgico que o comum e saiu após apertar umas poucas mãos, pelo menos isso reduziu a sombra que costuma lançar sobre o menos carismático Kerry.

Um pequeno trecho do tema perene de Clinton, "Don't stop thinking about tomorrow", foi ouvido nos autofalantes quando ele pegou o microfone, sendo substituído pelo refrão infeliz, "Yesterday's gone, yesterday's gone". A multidão estava coberta com bótons de Kerry, e gritou "Nós o adoramos, John", com mais freqüência do que "Nós o adoramos, Bill".

Enquanto o hino de Kerry, "No Surrender", era entoado, as duas figuras altas e magras --com cabelos respectivamente brancos e prateados, partidos para lados opostos-- sussurraram juntas. Clinton apontava para uma pessoa na primeira fila, Kerry acenava para os fãs nas sacadas de um prédio de dez andares.

"Eu passei por uma cirurgia para colocar quatro pontes de safena em 1989, e sei o que ele está fazendo", disse Jim Mangine, 59, um barrigudo técnico em telefonia que se ausentou três horas do trabalho a fim de participar do comício. "Ele parece fantástico. Não achava que fosse tão bonito-- é um cara de boa aparência, e eu sou homem. Isso com certeza vai fazer com que as pessoas saiam de cima do muro".

Em Davenport, Iowa, onde o presidente Bush fazia campanha, Karl Rove, principal assessor político do presidente, disse a respeito do espetáculo: "Eles tiveram que empurrar Clinton para fora do seu quarto no hospital e trazê-lo para ajudar o senador Kerry, cuja base eleitoral anda muito fraca".

Após o comício, Clinton se uniu a Kerry em uma conferência eleitoral com 2.000 pastores afro-americanos, à qual jornalistas de veículos de mídia negros puderam assistir. Assessores disseram que o ex-presidente e o candidato tiveram uma refeição não agressiva para o coração, composta de frango e salada --havia também biscoitos doces no salão, mas ninguém foi capaz de dizer quem comeu quantos. A seguir Clinton fez a sua característica avaliação da disputa eleitoral.

"Ele estava nitidamente bem informado sobre o que ocorria em cada condado de Arkansas", disse rindo Mike McCurry, ex-secretário de Imprensa da Casa Branca de Clinton, e que atualmente trabalha para Kerry. "Ele disse que muita gente no Estado está trabalhando duro. E disse achar que lá pode surpreender os adversários".

Clinton também deu a Kerry dicas sobre como mobilizar nichos específicos de eleitores, incluindo judeus e negros. Fora do palco, ele brincou: "Fiquei em casa assistindo à campanha". E, a seguir, resumiu a campanha com "uma das leis Clinton da política'.

"Se um candidato tenta assustá-lo e o outro procura fazer com que você pense, se um dos candidatos explora os seus temores e o outro apela para suas esperanças, é melhor que você vote na pessoa que deseja que você pense e tenha esperanças".

Os comentários de Clinton foram transmitidos ao vivo pela CNN, que deixou de cobrir o evento após Kerry ter dito, "Obrigado".

Kerry fez o seu discurso padrão, com referências repetidas a Clinton.

"Vocês estão novamente prontos para um presidente que seja um defensor da classe média?", perguntou Kerry, acrescentando o "de novo" a sua frase de abertura. Ao falar sobre o serviço médico universal, ele disse: "Vamos terminar a jornada iniciada por Harry Truman, e pela qual Bill Clinton lutou". E ele fez uma menção incomum ao trabalho de Clinton no sentido de elevar os padrões trabalhistas nos pactos comerciais com a Jordânia e o Vietnã.

Atrás dele, Clinton ficou de pé com as mãos juntas às costas, e a seguir se posicionou ao lado do senador, com um sorriso brilhante e grande na face enquanto olhava intencionalmente para Kerry, e a seguir para a multidão.

Clinton balançou a cabeça em sinal de aprovação quando o publico gritou nome do outro homem: "Ker-ry, Ker-ry", sob várias bandeiras dos Estados Unidos penduradas em guindastes de construção. Ele aplaudiu vigorosamente quando o candidato democrata prometeu ampliar as pesquisas com células-tronco embrionárias, mas, ao final, as suas mãos mal se separavam, talvez por estar exausto com o esforço.

Depois disso, eles ergueram os punhos no ar para as câmeras, e Clinton saiu rapidamente, deixando Kerry cuidar do restante do comício.

"Ahhh", lamentou Anne DeSalvo, uma atriz de Los Angeles, quando o presidente desapareceu do visor da sua câmera antes que pudesse contar com um close.

"Para mim ele representa uma época nos Estados Unidos na qual alguém realmente lutou pelo povo", explicou DeSalvo. "Algumas pessoas dizem que ele não estava com uma aparência muito boa. Ele perdeu um pouco de peso, mas a sua aparência era ótima. Tão vibrante. Ele é adorável!". Eleitores da Filadélfia demonstram popularidade de ex-presidente Danilo Fonseca

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