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26/10/2004

Como Bush pode vencer se só traz notícia ruim?

The New York Times
Bob Herbert

Colunista do NYTimes
Aqui está o problema de George W. Bush. Como pode um presidente conquistar a reeleição, quando são ruins todas as notícias que os eleitores estão recebendo?

As pesquisas mostram que o presidente está empatado, ou ligeiramente à frente do senador John Kerry. Mas as más notícias estão se acumulando que nem montes de lixo numa greve de lixeiros, e isso nunca é bom para quem está no cargo.

A guerra no Iraque é uma tragédia de entorpecer as mentes, e não há sinal de seu fim. Dezenas de recrutas do exército iraquiano foram massacrados no último sábado (23/10), num dos mais terríveis ataques já realizados contra as forças de segurança iraquianas. No domingo, um diplomata americano foi morto perto do aeroporto de Bagdad, vítima de um morteiro.

O último vídeo pavoroso a chegar da zona de guerra mostra a trabalhadora humanitária de dupla nacionalidade britânica-iraquiana, Margaret Hassan, tremendo, chorando e implorando por sua própria vida. "Por favor me ajudem", ela diz. "Essas podem ser as minhas últimas horas."

Os soldados americanos já lutaram com coragem, mas a determinação deles dá sinais de rachadura. "Isso aqui é um Vietnã", diz Daniel Planalp, um fuzileiro naval de San Diego, de 21 anos, citado na última edição dominical do The New York Times: "Eu nem sei por que estamos lutando aqui."

E, aqui em casa, o mercado de ações afundou, em parte devido à alta recorde nos preços do petróleo. O índice industrial Dow Jones fechou com sua cotação mais baixa na sexta-feira passada, enquanto os preços mundiais do petróleo industrial alcançavam preços ainda mais altos.

O custo desse combustível subiu mais de 75% no ano passado. E com o tempo ficando mais frio no país, a atenção de quem possui casas --muitos deles são eleitores-- passa a ser dirigida ao preço do óleo para os aquecedores domésticos. E o que eles estão acompanhando pelo noticiário não está nada agradável.

O departamento de Energia prevê que as contas do óleo para aquecedores subam cerca de 30% esse ano, e essa pode ser uma estimativa conservadora. Enquanto isso, os termostatos e termômetros no país vão baixando, baixando, baixando...

Os chefes da campanha republicana estão preocupados com essa privação de boas notícias. A escassez de vacinas contra a gripe já causou remarcação nos preços e longas filas de pacientes mais velhos e doentes, alguns deles a beira do pânico.

Semana passada soubemos que o índice que reúne os principais indicadores econômicos caiu em setembro, pelo quarto mês consecutivo, o que poderia ser um sinal de retração no crescimento econômico.

As principais matérias nos jornais The New York Times e "The Washington Post" na última sexta-feira foram sobre o Iraque --e ambas foram desoladoras. O Times informou que altas autoridades americanas estavam reunindo novas informações sobre a cada vez mais mortal insurgência iraquiana, que mostram "haver um número significativamente maior de combatentes e também de recursos financeiros do que já foi estimado."

Já o "Post" informou que, de acordo com uma pesquisa financiada por americanos, os líderes dos partidos religiosos do Iraque estão se tornando os políticos mais populares no país, uma conseqüência extremamente ameaçadora bem diante do governo Bush.

Todas essas são reportagens com potencial para influenciar eleitores, e não são ofuscadas por outras, de teor mais positivo. E as histórias negativas provocam índices de alta ansiedade entre os republicanos.

"Se você está me perguntando se estamos diante de uma 'tempestade perfeita' de más notícias acontecendo, a resposta é não", disse um estrategista da campanha republicana, que pediu para não ser identificado.

"Mas se você está me perguntando se eu gostaria de encontrar nas primeiras páginas e nos noticiários noturnos um cenário um pouco mais róseo, é claro que a resposta seria sim."

Incapaz de neutralizar as más notícias com narrativas de melhores resultados, a campanha de Bush se voltou quase que exclusivamente para a chamada guerra contra o terror. A mensagem, se resumirmos bem, é: tenha bastante medo.

Um comercial da campanha de Bush, lançado há alguns dias, mostra uma matilha de lobos avançando de maneira ameaçadora em direção à câmera. Uma voz que narra o comercial diz: "A fraqueza atrai aqueles que só estão esperando para atacar a América".

Enquanto isso, o Partido Republicano está fazendo o que pode nos Estados decisivos para bloquear o maior número possível de votos para os democratas.

Líderes republicanos coordenaram um imenso esquema, organizado para desafiar --alguns diriam intimidar-- os eleitores em Estados como Ohio e a Flórida, num esforço para neutralizar os efeitos de grandes levas de registros eleitorais e de uma possível onda de grande descontentamento com Bush e suas atitudes no governo.

Autoridades eleitorais em Ohio já disseram que nunca viram um movimento tão grande para desafiar os eleitores no dia da eleição.

A supressão de eleitores é uma prática condenável. É como um tiro dirigido ao próprio coração da democracia. Mas o Partido Republicano evidentemente considera essa prática como uma estratégia essencial, num ambiente onde há tão poucas notícias favoráveis. Na falta de boas notícias, republicanos passam a intimidar eleitores Marcelo Godoy

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