UOL Notícias Internacional
 

26/10/2004

Gays obtêm orientação sobre HIV em sala de chat

The New York Times
David Tuller

Em São Francisco
Quando as autoridades de saúde daqui descobriram há poucos anos que vários gays diagnosticados com sífilis encontraram parceiros sexuais por meio da mesma sala de bate-papo online, o incidente acentuou o que muitos especialistas de saúde temiam: encontros amorosos arranjados pela Internet estavam alimentando a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis entre os gays.

A preocupação aumentou de lá para cá devido a pesquisas sugerirem que os homens que encontram parceiros sexuais online apresentam maior probabilidade que outros homens gays de praticarem sexo de risco e apresentar um histórico de doenças sexualmente transmissíveis, incluindo HIV. E a prática de encontrar parceiros sexuais online se tornou tão popular que é chamada por alguns homens como "lance gay". ('takeout' gay)

Mas autoridades de saúde e educadores disseram que a tendência, apesar de alarmante, também lhes apresenta a oportunidade de difundir orientações sobre sexo seguro, assim como informações sobre prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis de formas inovadoras.

Nos últimos anos, agências públicas e privadas de muitas cidades iniciaram estratégias de promoção online para atingir os homens gays, incluindo a colocação de banners de propaganda em sites de sexo, promovendo debates online sobre estratégias de sexo seguro e permitindo que usuários da Internet realizem o download de guias de laboratório para testes de doenças sexualmente transmissíveis.

"A comunidade de saúde pública tem informado que a Internet supera bares e saunas como o meio mais freqüentemente usado para encontrar parceiros sexuais pela primeira vez", disse Ronald Valdiserri, vice-diretor do centro nacional para prevenção do HIV, doenças sexualmente transmissíveis e tuberculose dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma agência federal, em Atlanta.

"Em saúde pública, nós gostamos de ir aonde a ação está, logo é um espaço chave", disse ele. Como a intervenção na Internet ainda está em sua infância, a maioria dos esforços tem sido iniciada pelas agências locais, com poucos dados para orientá-las sobre estratégias eficazes.

Muitos agentes de saúde dizem que estes programas podem ser particularmente úteis para atingir homens em áreas rurais, gays jovens e outros que podem não querer se identificar ou visitar um centro comunitário gay.

"Eu acho que o anonimato é de extrema ajuda", disse Lyndon Cudlitz, 21 anos, coordenador de educação e alcance para a Outright, um grupo de direitos civis gays do Estado de Maine que disponibiliza contato com orientadores que podem responder perguntas sobre sexo seguro e outras questões ligadas a saúde. "Como nunca sabemos quem é, eles podem fazer qualquer tipo de pergunta sem se sentirem constrangidos."

A pergunta sobre como atingir os homens online ganhou urgência com estudos sugerindo que os homens que procuram parceiros sexuais por meio da Internet apresentam um perfil diferente dos demais gays. Segundo um estudo do Departamento de Saúde de Los Angeles, dois terços dos homens que conhecem parceiros sexuais online são portadores de HIV.

Eles também apresentavam uma probabilidade três vezes e meia maior de praticarem sexo anônimo e o dobro de probabilidade de usarem drogas injetáveis do que homens que encontram parceiros de outra forma. Um estudo de San Francisco revelou que 39% dos 91 homens pesquisados sobre suas atividades online realizaram sexo anal sem proteção com homens que conheceram online.

Agências públicas e privadas de São Francisco desenvolveram algumas das abordagens mais diversificadas para prevenção online. Educadores de saúde da cidade lançaram um site na Internet, www.safesexcity.com, que inclui links para pesquisas de saúde, contatos de homens que não querem se envolver em comportamento de risco e fóruns de debate.

O departamento de saúde da cidade também criou um site, www.stdtest.org, em que as pessoas podem imprimir guias de laboratório que lhes permitem realizar anonimamente testes de sífilis, com notificação eletrônica do resultado.

Deborah Levine, diretora dos Serviços de Informação sobre Sexualidade na Internet, um grupo sem fins lucrativos de São Francisco que ajudou a estabelecer o programa, disse que cerca de duas dúzias de homens usam o serviço mensalmente.

O grupo de serviços de informação e o departamento de saúde também estabeleceram recentemente um programa que permite que homens com teste positivo de doença sexualmente transmissível possam enviar avisos eletrônicos, anonimamente se preferirem, para parceiros sexuais.

"Muitas pessoas relutam em dizer às autoridades de saúde ou médicos quem são todos seus parceiros sexuais, assim isto lhes dá uma oportunidade de contatá-los", disse Levine.

Vocabulário do chat

No início deste ano, o departamento de saúde também ajudou a financiar uma campanha de propaganda dirigida aos usuários gays da Internet. A campanha apresentava outdoors no bairro de Castro destacando a terminologia ambígua utilizada pelos homens que buscam contatos sexuais em salas de bate-papo online, e criou um site no endereço www.be-clear.org.

A premissa da campanha era de que muitos homens não-portadores de HIV estão procurando outros que não são, enquanto outros que são portadores estão procurando outros portadores. Termos como "clean" (limpo) ou "disease free" (livre da doença), normalmente usados nas postagens de Internet, são freqüentemente vagos demais para ajudar os homens a avaliarem seu risco, disseram os organizadores da campanha.

A campanha encoraja as pessoas a perguntarem diretamente sobre a condição do HIV, sobre doenças sexualmente transmissíveis e a serem explícitas sobre as atividades nas quais estão interessadas, disse Raul Cabra, fundador da Cabra Diseno, a agência de marketing que criou a campanha.

"O problema é que a linguagem utilizada pelas pessoas é um tanto desajeitada", disse Cabra, acrescentando que esperam "fornecer formas pelas quais possam explicar o que querem de forma clara e direta".

Educadores de saúde reconhecem que, apesar da riqueza de esforços online, eles não sabem ao certo quais técnicas funcionam melhor, ou mesmo se funcionam.

"Nós realmente não temos nenhuma intervenção específica na qual podemos nos apoiar e dizer: 'isto é o que funciona'", disse o dr. Jeffrey Klausner, diretor da clínica de doenças sexualmente transmissíveis do Departamento de Saúde Pública de São Francisco.

Klausner é autor de "Ask Dr. K" (pergunte ao dr. K), uma coluna de informações e conselhos sexuais que é postada na página do departamento de saúde na Internet assim como no site gay.com. Perguntas recentes respondidas por Klausner incluem "Posso contrair HIV por um corte?", "Sabão e desinfetante bucal me protegem?" e "Quão seguro é o sexo oral?"

Klausner e outras autoridades de saúde disseram que tentam trabalhar com os donos de sites populares, nem sempre com sucesso. Mas os administradores de sites dizem que as autoridades de saúde nem sempre compreendem as necessidades de seus clientes e tendem a passar sermão em vez de simplesmente informar.

"Muitos dos nossos clientes querem saber, caso decidam correr o risco, como minimizar o risco de transmissão", disse um porta-voz da Advanced Membership Services, responsável pelo site M4M-USA.com. "Mas muitas agências de saúde pública apenas querem que sejamos como pais rígidos, passando sermão em nossos clientes."

Alguns sites, como o manhunt.net e gay.com, foram elogiados pelas autoridades de saúde por sua disposição em tratar das preocupações de saúde. O Manhunt, por exemplo, recentemente veiculou propagandas, produzidas pela Gay Men's Health Crisis (crise de saúde dos gays), de Nova York, alertando sobre os riscos do uso da metanfetamina cristal.

Várias agências postaram contatos com educadores de saúde no site da Manhunt, e as autoridades de saúde de Massachusetts foram autorizadas a contatar os parceiros sexuais de membros do Manhunt que foram diagnosticados como sendo portadores de doenças sexualmente transmissíveis.

Mas os donos de sites também impuseram alguns limites. Profissionais de saúde em salas de bate-papo podem responder às perguntas feitas a eles, mas não são autorizados a contatarem os membros primeiro, mesmo se acharem que tais membros estão praticando atividades inseguras.

"Se nossos clientes sentem que seu direito de praticar sexo da forma que escolheram está sendo violado, isto coloca em risco todo o programa", disse Stephen Adelson, diretor de operações da Online Buddies, responsável pelo Manhunt.

"Nós realmente estamos tentando encontrar um equilíbrio entre fornecer educação de saúde e contatar e respeitar a liberdade de expressão e escolha dos associados." Salas de bate-papo concentram homens que praticam sexo inseguro George El Khouri Andolfato

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