UOL Notícias Internacional
 

26/10/2004

Personalidade definirá voto, dizem historiadores

The New York Times
Elisabeth Bumiller

Em New York
Lyndon Johnson declarou famosamente durante a campanha presidencial de 1964 que "não ia mandar rapazes americanos a 15 mil quilômetros de casa para fazer o que os meninos asiáticos deveriam fazer". Reeleito, enviou a maioria das tropas americanas que lutaram no Vietnã. Woodrow Wilson fez campanha para a reeleição em 1916, um ano antes de os Estados Unidos entrarem na Primeira Guerra Mundial, com a promessa de paz e prosperidade. E George W. Bush prometeu em 2000 que adotaria uma política externa "humilde", sem construção de nações.

Enquanto mais de 100 milhões de americanos estão indo às urnas na próxima terça-feira, dia 2 de novembro, para participar da grande experiência democrática de uma eleição presidencial, a história sugere algumas perguntas difíceis.

As guerras e o terrorismo não sobrepujam qualquer presidente, oferecendo o que podemos sentir como um curso de ação inevitável? Acrescentando-se a possibilidade de que um presidente herde um Congresso recalcitrante, ou que ele possa até mudar de idéia, realmente importa o que os candidatos dizem durante os longos meses de campanha? E se o que eles dizem sobre suas posições não importa, então existe alguma maneira melhor de julgar como um candidato vai atuar no Salão Oval?

Para abordar a primeira pergunta primeiro, os ataques de 11 de setembro de 2001 pareceriam defender a tese de que fatos imprevistos superam a teoria histórica do "grande homem", o que significa que os presidentes como indivíduos importam muito menos do que a época em que eles governam. Os defensores de Bush afirmam que sua reação aos atentados foi muito mais abrangente que os próprios atentados, e que sua liderança foi mais importante que as circunstâncias.

A maioria dos historiadores diz que o homem e o evento importam igualmente.

"Interpretar isso é o dilema que todos os historiadores enfrentam", disse Robert A. Caro, que está trabalhando no último livro de um estudo em quatro volumes da vida de Lyndon Johnson.

"Os eventos e os indivíduos interagem. Se você pensar na história como eu penso, como uma equação com muitos fatores --forças econômicas, forças políticas--, um fator certamente é a personalidade do presidente. Às vezes é um fator grande, às vezes pequeno, e às vezes é um fator muito grande, como no caso do homem sobre o qual estou escrevendo."

Imagine se Al Gore teria marchado para Bagdá em março de 2003. "Nenhum de nós acredita que estaríamos lutando no Iraque sob uma presidência Gore", disse Fred I. Greenstein, um professor de Princeton e autor de "Personality and Politics" [Personalidade e política].

"Certamente não acreditamos que teríamos a mesma estrutura fiscal. Kerry e Bush enfrentarão o Iraque de maneira semelhante, mas serão como a noite e o dia em outras questões, como as células-tronco."

Alguns historiadores afirmam que quem é presidente hoje importa mais que nunca, em uma era de dominação global americana e uma Casa Branca que subtraiu constantemente o poder do Congresso.

"Você não precisa aprovar a teoria do grande homem, porque é a teoria do 'grande presidente'", disse o historiador Robert Dallek, autor de uma recente biografia de John F. Kennedy. Enquanto o século 19 foi principalmente um período de presidentes fracos que cederam autoridade ao Congresso, os anos desde Theodore Roosevelt produziram executivos cada vez mais poderosos, que definiram agendas em casa e desfecharam guerras no exterior.

A doutrina da prevenção e invasão do Iraque de Bush levou esses poderes a um novo nível; um presidente pode claramente determinar os eventos se sua política não é esperar que os fatos o forcem a agir. "Veja Bush e a guerra no Iraque", disse Dallek. "O Congresso estava tão intimidado..."

Em 1940, segundo o historiador David M. Kennedy, "fez uma diferença enorme que Franklin Roosevelt fosse presidente". Roosevelt passou anos convencendo os americanos relutantes sobre a Segunda Guerra Mundial, e os estudiosos concordam que se não fosse presidente a história teria sido muito diferente.

"Esse é um momento em que as conseqüências da personalidade e o impacto de um indivíduo sobre os eventos históricos são realmente muito grandes", ele disse. "Mas esses momentos são muito raros."

Roosevelt, por outro lado, fez campanha com a promessa de equilibrar o orçamento, uma promessa absurda depois da Segunda Guerra Mundial. O que traz a segunda pergunta: Quanta atenção os eleitores devem dar ao que os candidatos dizem no palanque?

"A retórica de campanha é maluca, e as pessoas deste país praticamente sabem disso", disse Dallek. "Elas não são bobas. Quando Kerry diz que Bush vai fazer recrutamento e que vão privatizar a Previdência Social, é mais ou menos ver quem consegue enganar quem. É tudo bobagem de campanha."

Kennedy, um eleitor de Kerry, concorda. "Francamente, este eleitor não presta muita atenção nos detalhes dos programas", ele disse. "E é por isso que quando John Kerry diz 'eu tenho um plano' eu fico louco. Os melhores planos de ratos e homens --você sabe. Mas eu penso que o plano é um marcador dos valores e prioridades dos candidatos. O plano é uma indicação de aonde eles gostariam de ir."

Ainda assim, existe a forte tese histórica de que a oratória de campanha, mesmo da variedade distorcida e acalorada que Bush e Kerry têm empregado nos últimos dias da campanha, abre uma janela para o que o candidato realmente fará na Casa Branca.

Em 2000 Bush fez campanha prometendo os grandes cortes fiscais que hoje são lei. Johnson produziu a série de leis da Grande Sociedade que apresentou na campanha de 1964. Em 1860 Abraham Lincoln prometeu que evitaria a expansão da escravidão para os novos Estados.

"Devemos prestar atenção na retórica acalorada, porque parte dela é uma previsão do que as pessoas vão fazer no cargo", disse Greenstein. "E o modo como ela sai também é revelador da personalidade."

E personalidade, segundo os historiadores, é o que os eleitores devem procurar em um candidato quando se envolverem no ato de votar no próximo presidente do país. "Não gosto de pessoas que mentem para mim", disse o historiador John Morton Blum, que foi professor de Bush em Yale.

"Mas além da personalidade existe a questão da adaptabilidade. Um presidente que vai oferecer formas de liderança programáticas e outras precisa ter a capacidade de se adaptar, muitas vezes a contingências imprevistas."

Na próxima semana, depois de todos os debates, gritos e opiniões, entrar na cabine de votação e puxar a cortina será afinal um ato íntimo de fé e esperança, uma aposta nervosa no futuro julgado pelo que se conhece do passado.

"Este é um caso em que você precisa confiar no bom julgamento inato do eleitor americano", disse o historiador presidencial Michael Beschloss.

"Os eleitores devem se perguntar: 'A história dele prediz o que vai fazer como presidente? Ele concorda com meus valores?' Estranhamente, quando as pessoas dizem que votam na personalidade, personalidade não é você gostar dele porque parece o Johnny Carson. O que realmente significa é 'Eu acho que ele compartilha suficientemente meus valores, e quando tomar uma decisão fará a coisa certa?'"

Beschloss disse que não pretende oferecer conselhos aos eleitores americanos, mas tem um último pensamento encorajador: "Se você examinar a história americana, houve muito poucos casos em que a população americana fez uma escolha monumentalmente errada", ele disse. "Geralmente escolhemos bastante bem." Eleitor considera mais o caráter do que promessas dos candidatos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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