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27/10/2004

Conceito de raça pode ter fundamentos genéticos

The New York Times
Nicholas Wade

Em Nova York
Uma diferença de opinião sobre os fundamentos genéticos do conceito de raça surgiu entre cientistas do Centro Nacional do Genoma Humano na universidade de Howard e outros geneticistas. O que está em questão é se a raça realmente é um sinal que tem utilidade na identificação dos genes que causam doenças, já que certos males são mais comuns em algumas populações do que em outras.

Em artigos publicados na atual edição da revista "Nature Genetics", cientistas da Howard, um centro de erudição afro-americana, de maneira geral sustenta a avaliação de que não há base genética ou biológica para o conceito de raça.

"Os padrões observados de diferenças geográficas na informação genética não correspondem à nossa noção de identidades sociais, inclusive no que diz respeito ao conceito de 'raça' e de 'classificação étnica'", escreve Charles N. Rotimi, diretor executivo do centro de estudos de genoma da universidade.

Mas, na mesma edição da revista, vários outros geneticistas sustentam que a árvore genealógica humana é dividida em ramos que correspondem às populações ancestrais de cada um dos grandes continentes, e que esses ramos coincidem com a noção popular de raça.

"O quadro que se pode observar é que as populações geralmente se agrupam em amplas regiões geográficas, que correspondem à classificação racial difundida, na África, na Europa, na Ásia, na Oceania e nas Américas", diz a dra. Sarah A. Tishkoff, da universidade de Maryland e o dr. Kenneth K. Kidd, da universidade de Yale.

Embora não haja muita variação genética entre as populações de cada continente, segundo a dra. Joanna L. Mountain e o dr. Neil Risch da universidade de Stanford, novos dados "coincidem bem de perto com grupos definidos por raça auto-identificada ou por ancestralidade continental".

Os dados obtidos são baseados em elementos do DNA encontrados na superfície dos genes, e não tem conexão com a forma física do corpo.

A questão da raça, durante muito tempo ignorada pelos geneticistas, passou ao primeiro plano após a revelação do projeto do genoma humano e com a decodificação do DNA humano. Geneticistas descobriram diferenças na estrutura do DNA entre a população mundial. Essas diferenças se aglutinam basicamente em cinco grandes grupos, que efetivamente coincidem com as cinco grandes áreas continentais do planeta.

As pessoas que integram cada um desses grupos geralmente se identificam como sendo de uma mesma raça. Esse padrão reflete o fato de que, depois de os primeiros humanos terem-se dispersado da África, as populações de cada continente começaram linhagens próprias em seu isolamento, desenvolvendo seus próprios quadros de variações genéticas.

Essas diferenças são simplesmente variações sobre um tema comum, que é a cadeia de genes herdada de uma população ancestral. Há dois anos, Neil Risch, especialista em genética de populações, mergulhou nesse assunto que até então era um tabu, dizendo que esses padrões geográficos se correlacionavam com a noção popular de raças baseadas nos continentes --principalmente no que diz respeito aos africanos, asiáticos orientais, índios americanos e caucasianos (um grupo que inclui europeus, o povo do Oriente Médio e o povo do subcontinente indiano).

Essas categorias foram úteis na compreensão das raízes genéticas das doenças, muitas das quais seguem o mesmo padrão geográfico dessas raízes, segundo Risch. O artigo dele foi provocado por editoriais de publicações médicas, que sugeriam não haver base biológica para o conceito de raça.

Os artigos na edição desta quarta-feira (27/10) da "Nature Genetics" equivalem a uma espécie de segundo round desse debate. Os cientistas de Howard concordam que existe um padrão geográfico na variação genética humana, mas preferem a abordagem de investigação das causas genéticas básicas das doenças sem se levar em conta qualquer possível correlação dos males com o conceito de raça.

"Não precisamos usar a raça como substituto da biologia, quando nós podemos identificar a base biológica", segundo Georgia M. Dunston, diretora e fundadora do centro de genoma da universidade de Howard.

"Meus colegas e eu concordamos que as classificações raciais comprometem definitivamente nosso compromisso com a aplicação da boa ciência. Ao remover as barreiras implícitas nas classificações raciais, poderemos estudar de maneira mais eficaz as diferenças populacionais na distribuição das doenças."

Risch afirmou que a noção de raça pode ser útil, não só na identificação das raízes genéticas das doenças, como também na localização de suas causas ambientais. Um pesquisador que não identificasse a raça poderia ignorar, por exemplo, que os afro-americanos não estariam tendo acesso integral à assistência médica.

Os geneticistas geralmente concordam que as variações genéticas básicas, e não a raça em si, constituem a chave para entender as doenças. Mas sem chegar ao ponto de estabelecer a seqüência do genoma de todos os grupos, muitos argumentam que a noção de raça freqüentemente é um instrumento útil, ainda que imperfeito, para se identificar variações nas causas das doenças.

"A noção de raça ainda é uma espécie de procuração que tem algum valor em potencial", diz Francis S. Collins, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas sobre o Genoma Humano, do Instituto Nacional de Saúde.

"Adoraria entrar numa outra etapa, mas ainda não chegamos lá." Na avaliação de Myles Axton, editor da Nature Genetics, "a classificação de acordo com o continente ancestral é freqüentemente informativa, mas não é o suficiente para a pesquisa genética".

Os defensores do projeto genoma dizem que os remédios à base da pesquisa genética deveriam ser adaptados para os grupos geneticamente identificáveis, para assegurar que a ninguém sejam negados os benefícios da medicina genética.

Mas associar as doenças a uma raça é um "assunto explosivo", segundo Troy Duster, sociólogo da New York University. "Uma vez que você entra nesse terreno, dizendo que algumas doenças são mais comuns nesse ou naquele grupo, a imaginação popular irá querer saber o que mais é comum a qual grupo", como diferenças comportamentais, segundo a previsão de Duster. Pesquisa investiga por que há males que atacam mais certas etnias Marcelo Godoy

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