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27/10/2004

Novos eleitores podem não comparecer às urnas

The New York Times
James Dão*

Em Columbus, Ohio
Lionel White, aparentemente, é um novo eleitor que poderia ajudar os Democratas a vencerem este Estado disputado. Ele tem 23 anos, é negro e trabalha em uma lanchonete. Ele se revolta com a economia, com a deterioração urbana e a guerra no Iraque.

No entanto, White inserveu-se para votar pela primeira vez neste ano, porque foi pago pela Liga Urbana para registrar eleitores. Ele não assistiu aos debates, confessa ter um interesse apenas secundário em política e acha que os candidatos não falam sobre as questões que importam para ele. Sua atitude em relação às urnas na semana que vem é, no máximo, morna.

"Acho que nenhum dos dois dá a mínima para nós", disse ele, em sua casa, no lado oeste da cidade.

Como sugere sua história, eleitores recém registrados são coringas, cuja fidelidade incerta pode virar a balança em Estados empatados como este. A situação os coloca no foco de um intenso cabo de guerra entre os partidos.

Certamente, há muitos deles. Em Ohio, quase 750.000 pessoas registraram-se para votar neste ano, gerando número recorde de eleitores registrados no Estado: 7,8 milhões. Também em Iowa, Flórida e Pensilvânia, as campanhas pelas inscrições --em grande parte por grupos Democratas-- fizeram inchar as listas de eleitores, aumentando a probabilidade do número de votantes ser o maior desde 1992, segundo os especialistas.

A possibilidade de os novos eleitores decidirem as eleições tornou-se graficamente evidente nas ruas, na mídia e nos tribunais do Estado, onde os Democratas marcharam com cartazes proclamando: "Todo Voto Conta", e Republicanos vêm questionando milhares de novos registros.

Mas uma questão fundamental permanece: será que os novos eleitores votarão? Historicamente, eleitores recém registrados --por serem mais jovens, mais independentes ou menos engajados politicamente-- votam menos do que o resto do eleitorado, em geral abaixo de 50%, dizem os especialistas.

Uma visita ao bairro de Columbus, onde grupos Democratas registraram eleitores, mostra o desafio que a campanha de Kerry enfrenta em tentar levar os novos eleitores às urnas. Dos seis novos inscritos na lista do condado em uma só quadra, três tinham-se mudado recentemente, um não pôde ser encontrado e um tinha endereço errado.

Somente os eleitores que se registraram por causa de seu interesse intenso na disputa têm alta probabilidade de votar, disseram os especialistas. Christopher Marshall é um deles.

Em seus 37 anos, Marshall teve quatro filhos e testemunhou as idas e vindas de oito presidentes. Mas nunca votou --até este ano, ou seja, quando a guerra no Iraque fez a eleição parecer vital e importante.

Agora, ele pretende dar o primeiro voto de sua vida para o senador John Kerry. "Por causa da guerra. Foi desnecessária, completamente", disse Marshall, que é assistente do atendimento ao consumidor do Departamento de Saúde do Estado.

Sandra Santabene, 62, aposentada que mora em Cincinnati, subúrbio de West Chester, era quase tão desligada da política quanto Marshall. Ela parou de votar há duas eleições, pela falta de carisma dos candidatos e pelo discurso superficial --ou baixo. Entretanto, ela se registrou novamente, para dar seu voto ao presidente Bush.

"Acho que Bush fará mais em relação aos remédios; talvez force os preços para baixo. Não vejo Kerry fazendo isso", disse Santabene.

As pesquisas mostram Bush e Kerry essencialmente empatados em Ohio. Os dois partidos começaram operações para levar os novos eleitores às urnas, o que é realmente crítico, porque a disputa está muito acirrada. A Suprema Corte dos EUA determinou, nesta terça-feira (25/10), que Ralph Nader não estará na cédula de Ohio.

Neste Estado, as pessoas não declaram seu partido ao se registrarem, portanto não se sabe ao certo quantos novos eleitores de cada partido se inscreveram. Mesmo assim, acredita-se que 60% dos novos inscritos são eleitores de Kerry.

Os Republicanos, por sua vez, intensificaram seus esforços para eliminar fraudes e questionar a legalidade de novos eleitores em jurisdições Democratas.

Na semana passada, o Partido Republicano em Ohio questionou mais de 35.000 novas inscrições, depois que correspondências enviadas a esses endereços voltaram. No entanto, milhares dessas objeções foram anuladas por problemas técnicos com os formulários. Os Republicanos, entretanto, querem que se investiguem mais de 17.000 inscrições questionáveis na área de Cleveland,reduto de Kerry em Ohio.

Os Republicanos de Ohio também planejam instalar representantes em mais de 3.600 pontos de votação, especialmente nas áreas urbanas de maioria Democrata, para questionar o direito de algumas pessoas votarem. Além disso, o partido está pedindo investigações criminais para acusações de registros fraudulentos em Cleveland, Columbus, Cincinnati e várias outras cidades.

"Estamos vendo uma parte do problema", disse David Beckwith, porta-voz da campanha de Bush em Ohio. Os Democratas dizem que a campanha Republicana de combate à fraude é um esforço para suprimir a votação em áreas Democratas, particularmente em comunidades negras.

Acorn, um grupo sem fins lucrativos que conduziu campanhas de inscrição de eleitores em bairros pobres, afirma que 46% das objeções Republicanas no condado de Cuyahoga, que inclui Cleveland, foram contra negros, que representam apenas 27% da população do condado.

Os Republicanos disseram que seus questionamentos não se baseavam na raça e questionaram a validade da análise da Acorn, dizendo que o grupo tinha sido responsável por fraudes nos registros de eleitores.

Ohio não está sozinho na enxurrada de novos registros. A Pensilvânia ultrapassou a marca de oito milhões de eleitores neste ano. Os Democratas conquistaram 11.000 novos registros a mais do que os Republicanos, de acordo com o Departamento de Estado da Pensilvânia.

A Flórida registrou mais de um milhão de novos eleitores desde fevereiro, chegando ao recorde de 10,3 milhões de votantes. Houve quase 45.000 novos registros Democratas a mais do que os Republicanos no mesmo período, segundo os arquivos do Estado.

Curtis Gans, diretor do Comitê para o Estudo do Eleitorado Americano, grupo apartidário, estima que, com as novas inscrições, haverá de 12 a 15 milhões a mais de votos neste ano do que em 2000.

Uma pesquisa do Gallup divulgada nesta semana também indicou que Kerry está na frente de Bush, por 10 pontos, entre as pessoas que dizem que estão votando para presidente pela primeira vez, apesar da amostra ter sido pequena.

Novos eleitores, entretanto, têm fraco desempenho. Muitos nesse grupo são jovens, que historicamente votam menos. Entre os adultos, muitos dos recém registrados vêm de bairros mais pobres, altamente voláteis, onde a participação dos eleitores historicamente é baixa.

"Votar é um hábito, e muitos novos eleitores não têm esse hábito. Mesmo com as grandes operações para levar as pessoas a saírem de casa para votar, seria extraordinário ver mais do que 50% dos recém registrados votando", disse John Green, diretor do Bliss Institute for Applied Politics na Universidade de Akron.

Para os Democratas, os estudantes têm sido uma fonte importante de novos eleitores. Uma recente pesquisa no Instituto de Política da Universidade de Harvard revelou que Kerry estava na frente de Bush entre os universitários, com 52% contra 39%. Além disso, dos alunos entrevistados, 72% disseram que "definitivamente" vão votar neste ano.

*Colaborou Abert Salvato. Mais jovens e mais pobres, eles não costumam ser fiéis aos partidos Deborah Weinberg

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