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27/10/2004

Saramago traz autocrítica como ataque ao "outro"

The New York Times
Richard Eder
Crítico literário
Do NYTimes
Os romances de José Saramago criam eventos ou circunstâncias sobrenaturais --como aquele "E se?" que encontramos na ficção científica--, enchendo-os de uma humanidade murmurante, azarada e docemente investigativa.

Em um deles, ["A Jangada de Pedra"] Espanha e Portugal se despegam da Europa, vagam à deriva pelo mar e estacam em algum lugar entre as Antilhas e a África. Em outro, um revisor de textos altera a história de Portugal ao inserir um "não" em uma narrativa das guerras contra os mouros ["O Ano da Morte de Ricardo Reis"]. Em um terceiro ["Ensaio Sobre a Cegueira"], a cegueira baixa misteriosamente sobre uma nação inteira, e desaparece mais tarde com um efeito redentor.

Saramago, o português ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, erige formigueiros absurdos e os derruba, não porque odeie as formigas, mas porque gosta delas, e, ao perturbá-las dessa forma, faz com que assome a preciosa natureza formicular dos insetos.

Assim como Deus, esse comunista octogenário e ateu devoto assopra o pó para criar seres humanos, só que a sua criação é ainda algo imperfeita.

E, antes dos homens, ele monta uma comédia humana para que eles nela atuem: um Éden com a serpente ardilosa e a maçã explosiva. Ele é melancólico, engraçado, assustador e socialmente furioso em vários graus.

Tais elementos raramente funcionaram melhor em conjunto do que em "O Homem Duplicado", o seu último romance. É tentador pensar no livro como a sua obra-prima. Certamente é um dos dois ou três melhores, a alegoria aqui não sendo tão tumultuosamente grandiosa como em outras obras, mas manipulada de forma mais perfeita.

"O Homem Duplicado" ("The Double"), traduzido para o inglês por Margaret Jull Costa, tem início com Tertuliano, um professor de História cuja profissão não mais o interessa. Também não mais o atrai a sua namorada, Maria da Paz, apesar da sua devoção leal e --conforme ele e nós descobrimos-- a sua inteligência formidavelmente fundamentada e sedutora. Para Saramago a inteligência pertence às mulheres e é erótica; os homens não passam de dispersão.

Tertuliano é um vácuo anômico. A natureza abomina coisas desse tipo; e o autor também, de forma que corre a preenchê-lo com uma das suas características poções da caixa mágica: uma bizarrice ligeiramente sobrenatural, e até mesmo cômica, que se avulta até assumir uma aterradora dimensão filosófica.

Um amigo lhe recomenda uma fita de segunda categoria para animá-lo. Ao assisti-la, ele vê um ator secundário que tem a sua aparência exata, exceto pelo fato de usar um bigode. Tertuliano raspou o seu bigode cinco anos atrás. A seguir, ele percebe que o filme foi feito há cinco anos. Entra em cena o horripilante.

E também surge a obsessão, e Tertuliano a persegue. O nome não consta na lista telefônica, já que se trata de um pseudônimo usado no filme. Por meio de uma série de manobras absurdamente improvisadas, ele descobre o nome real. Antônio. Ele telefona. Helena, a mulher de Antônio, atende. O horror cresce. Ela acha que a voz é a do marido.

Não demora muito para que ele esteja ao telefone com Antônio, falando sobre detalhes corporais como pintas e cicatrizes que ficam exatamente nos mesmos lugares.

Estão em jogo mais do que a curiosidade e a coincidência; há a sombra escura de algo assustador. Tertuliano insiste para que os dois se encontrem. Antônio simula indiferença, mas logo fica igualmente obcecado.

Eles se conhecem em um retiro campestre; ao tirar as roupas, descobrem que são idênticos. Até mesmo as datas de nascimento são as mesmas, embora Antônio tenha nascido 31 minutos antes. Ele se gaba de ser o original; e Tertuliano a cópia.

Tertuliano retruca com azedume, dizendo que o outro morrerá primeiro, por uma diferença de 31 minutos. Antônio diz esperar que Tertuliano aproveite esses 31 minutos de identidade pessoal, absoluta e exclusiva, porque isso é tudo do qual este último poderá doravante desfrutar.

Presenciamos a indesculpável violação suprema de território: uma invasão mútua de identidade. Embora os sósias se separem rangendo os dentes (para não morderem), um ódio metafísico letal criou raízes entre os dois.

Esse ódio se transformará na vingança pela simetria apavorante, e, depois disso, em tragédia --tudo montado com tal suspense e desenvolvido com tamanha engenhosidade estratificada e prazerosa que contar mais sobre a estória seria escandaloso.

E além do mais, devido ao fato de se tratar de um romance de Saramago, aquilo que é aterrorizante, a seguir extremamente triste, e depois diabolicamente irônico, consegue ser também engraçado. E, além de tudo isso, delicado. O escritor utiliza uma única máscara para a tragédia e a comédia, e as expressões se alternam.

Julgar "O Homem Duplicado" pelo tenor da trama e do tema seria perder a riqueza da obra. Os contratenores têm importância no mínimo igual e, se houvesse tais figuras, esse também seria o caso com as contrasopranos e contraltos.

E também com o contracachorro. (Quando Tertuliano passa a noite na casa da mãe, o cão desta, Tomarctus, vem farejar a porta do quarto do personagem. "Porque aquilo que os cães mais querem na vida é que ninguém parta").

A forma como Tertuliano e Antônio lidam com a situação daria uma fábula unidimensional, maravilhosamente concebida e desenrolada. A tragédia grega sem o coro seria uma peça delgada; a humanidade purificadora de "O Homem Duplicado" deriva daqueles personagens que testemunham e advertem.

Helena se opõe ao plano de Antônio no sentido de conhecer Tertuliano. Se eles ficarem nus, quem será o seu marido? A mãe de Tertuliano percebe o tom ligeiramente abalado do seu relato sobre o que está para acontecer. O "Bom senso" se transforma em um personagem falante, acossando Tertuliano continuamente com uma estupidez perigosa. Mas o bom senso conhece as suas próprias limitações.

Após aceitar bem uma sugestão de ordem tática, o geralmente recalcitrante Tertuliano aceita o Bom Senso, mas este se recusa a colaborar. "Não é saudável para a mente viver face a face com o Bom Senso", adverte este último.

"Comendo na mesma mesa, dormindo na mesma cama, levando-o ao trabalho, e pedindo a sua aprovação ou permissão antes de tomar uma iniciativa, é preciso assumir alguns riscos por conta própria".

Quanto a Maria, as discussões maravilhosamente circulares nas quais procura lembrar ao seu mentalmente inflado namorado quem ela é, são comoventes e sagazes. Para citar uma passagem, após ele tecer um comentário condescendente sobre um pensamento dela, inesperadamente original (na opinião dele), Maria responde: "Você é o historiador, mas eu diria que só depois que os nossos ancestrais tiveram as idéias que os fizeram inteligentes, eles realmente começaram a ser suficientemente inteligentes para terem idéias".

O crescer e o minguar de vozes, transmitindo de maneira única a sensibilidade de Saramago, conduzem as suas estórias e ao mesmo tempo as subvertem. Os personagens (Tomarctus e o Bom Senso incluídos, e é claro, o autor) possuem todos um ponto de vista que é freqüentemente alterado. Eles pronunciam, ouvem, ignoram e discutem um com o outro e com si próprios.

Eles servem como o artífice de sua criação enquanto protestam contra ela. É a idiossincrática dialética pós-marxista de Saramago: materialismo, mas apenas como uma maneira de embasar a alma.

"The Double"

De José Saramago; traduzido para o inglês por Margaret Jull Costa. 324 páginas. Editora Harcourt. Preço: US$ 25. Em "O Homem Duplicado", materialismo serve para embasar a alma Danilo Fonseca

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