UOL Notícias Internacional
 

29/10/2004

Bush mostra nervosismo; Kerry arma showmício

The New York Times
Elisabeth Bumiller e

David M. Halbfinger

Em Columbus, Ohio
O senador John Kerry e o presidente Bush fizeram críticas mútuas ao falarem nesta quinta-feira (29/10) sobre as qualidades necessárias à liderança. Kerry atacou o presidente perante uma multidão gigantesca em Ohio e em Wisconsin, chamando Bush de incompetente e de indiferente a seus erros. Já Bush ironizou o rival, a quem chamou de "o homem errado para o cargo errado no momento errado".

Ao lado de Bruce Springsteen, que cantava músicas elogiosas a Kerry --e o hino da campanha, "No Surrender"--, o candidato democrata disse às grandes multidões, que podem ter comparecido aos comícios para ver o cantor de rock, mas que aplaudiram e saudaram o político, que está impaciente para aliviar Bush do seu "trabalho duro".

Pelo quarto dia seguido Kerry atacou Bush devido ao sumiço de 380 toneladas de explosivos poderosos no Iraque, um material que deveria ter sido guardado pelas tropas dos Estados Unidos. Desta vez, ele também aproveitou o fato de Bush ter invocado o nome do presidente John F. Kennedy em uma apelação aos eleitores democratas no dia anterior.

"As explicações e desculpas inconstantes do presidente, além dos seus ataques contra mim, demonstram mais uma vez que Bush acredita que o presidente dos Estados Unidos não tem a obrigação de dizer a verdade", disse ele a uma animada multidão em Toledo. Segundo ele, o ruído que o povo fazia com os pés lembrava "assustadoramente" a campanha de bombardeios "Rolling Thunder" na Guerra do Vietnã.

Kerry falou ao público sobre a resposta de Kennedy à fracassada invasão da Baía dos Porcos, em Cuba: "Todos nós sabemos que quando a operação na Baía dos Porcos fracassou, John Kennedy teve a coragem de olhar para o povo norte-americano nos olhos e dizer, 'Eu assumo a responsabilidade. Foi minha culpa'".

"Senhor presidente, já passou da hora de você começar a assumir a responsabilidade pelos erros que cometeu", acrescentou Kerry.

Já Bush, fazendo campanha em Michigan, Ohio e Pensilvânia, atingiu o seu adversário com novos e contundentes ataques a respeito do seu caráter e confiabilidade, e disse que a forma como Kerry muda de posição com relação à guerra envia uma mensagem perigosa de recuo às nações inimigas.

As palavras foram ligeiramente diferentes --a campanha de Bush agora reescreve parte dos discursos do presidente todas as noites--, mas o tema foi o mesmo: votar em um homem com tamanha "falta de convicção" é algo muito arriscado em um período vulnerável da história do país.

"O que essa falta de convicção indica para os nossos inimigos?", questionou Bush em um comício para 8.000 eleitores em um ginásio de hóquei em Saginaw, Michigan, a sua primeira parada do dia. "Seria algo como, se tornarmos a situação desconfortável, se causarmos problemas, John Kerry recuará? E esse é um sinal muito perigoso para enviarmos neste período".

Bush se apresentou como sendo a única opção, um impecável comandante-em-chefe que aprendeu as suas lições durante os quatro anos que passou no Salão Oval. "Um presidente precisa deixar nítidas as prioridades dos Estados Unidos nesse mundo incerto", afirmou.

"Aprendi a esperar o inesperado, porque a história pode despejar um horror súbito de um suave céu de outono. Acho que é melhor saber no que acreditar, para que não se corra o risco de ser jogado de um lado para outro pela bajulação dos amigos ou o coro dos críticos".

Bush fez apenas uma menção passageira na quinta-feira aos explosivos desaparecidos no Iraque, embora o general Tommy Franks, que foi o mais graduado comandante no Iraque e no Afeganistão, e que fez campanha com o presidente nesta quinta-feira, tenha repetido a acusação feita por Bush no dia anterior, segundo a qual Kerry estaria fazendo "acusações levianas" sobre a munição sumida.

Bruce Springsteen

O grande cabo-eleitoral do dia foi Springsteen, que fez a abertura de enormes comícios de Kerry em Madison, em Wisconsin, e, a seguir, novamente, perante milhares de pessoas em Columbus, na Universidade do Estado de Ohio, onde discursou apoiando Kerry entre a interpretação dos seus românticos hinos de campanha "Promised Land" e "No Surrender".

"Como compositor, escrevi sobre os Estados Unidos durante 30 anos", disse Springsteen em Madison, defronte a uma platéia de 80 mil expectadores que lotavam a larga avenida que leva ao capitólio de Wisconsin.

As casas de telhados inclinados dos dois lados da avenida estavam cheias de estudantes universitários dependurados nas escadas de incêndio e varandas superlotadas. "Tentei escrever sobre quem somos, sobre as idéias que defendemos, sobre aquilo pelo qual oramos, e acredito que essas idéias essenciais referentes à identidade norte-americana estarão em jogo em 2 de novembro".

Em Toledo, Kerry intensificou os seus ataques a Bush quanto à questão dos explosivos desaparecidos, o assunto que dominou a campanha nesta semana. O candidato democrata aproveitou o sumiço da munição, usando o fato como um símbolo de tudo o que há de errado quanto à conduta do governo na guerra.

Bush tocou no assunto pela primeira vez na quarta-feira, acusando Kerry de fazer "acusações levianas" e de "denegrir as ações" das tropas no campo de batalha. Na quinta-feira, em Toledo, Kerry insistiu em dizer que as tropas dos Estados Unidos estão tendo um desempenho admirável, acrescentando que é o comandante-em-chefe que não está à altura da função.

"Vou aplicar o padrão Bush a isso", disse Kerry. "Ontem, George Bush disse, e eu repito suas palavras: 'Um candidato político que se apressa a tirar conclusões sem conhecer os fatos não é uma pessoa que desejamos ter como comandante-em-chefe quando o assunto é segurança'".

"Bem, Senhor presidente, eu concordo com você", disse ele, argumentado que Bush "se apressou a tirar conclusões" de maneira desastrosa referentes a vínculos entre Saddam Hussein e os ataques de 11 de setembro, à posse de armas de destruição de massa por parte do Iraque, e à maneira como as tropas invasoras dos Estados Unidos seriam saudadas pelos iraquianos.

"Senhor presidente, aqui estão os fatos que todo norte-americano, menos o senhor, é capaz de entender", disse ele, referindo-se aos explosivos. "Eles não estão onde deveriam estar; você foi alertado para guardá-los; você não os guardou, eles não estão em segurança, e adivinhem só? Segundo as palavras do próprio George Bush, ele não deveria ser o nosso comandante-em-chefe --e eu não poderia concordar mais intensamente com tal afirmação".

Durante o dia Bush acusou seguidamente Kerry de não possuir caráter e determinação para ser presidente.

"Várias vezes durante o curso desta campanha, o senador mudou de posição por conveniência política", disse Bush em Dayton, Ohio. Ele acrescentou: "O senador defendia integralmente a remoção de Saddam Hussein quando fomos a Bagdá, e ele nos deu muito apoio quando o capturamos. Afinal, as pesquisas demonstravam que o fato era muito popular à época. O povo gostou".

Bush acrescentou: "Quando a missão ficou difícil, e quando enfrentamos uma oposição determinada e as coisas não eram mais tão populares, o senador já não deu tanto apoio. Na verdade, ele mudou inteiramente de idéia, dizendo que o Iraque foi a guerra errada no lugar errado e no momento errado".

Nervosismo

O ataque contínuo do presidente contra Kerry reflete o nervosismo na campanha de Bush apenas cinco dias antes daquilo que se espera que seja uma eleição especialmente difícil.

Embora os assessores da campanha de Bush continuem a divulgar notas públicas carregadas de otimismo e a repetir que sempre esperaram que a eleição fosse muito disputada --um dos assessores se referiu à disputa, na última quarta-feira, como sendo uma "briga de cães"--, não há dúvida de que eles não desejariam estar nesta posição faltando tão poucos dias para o 2 de novembro.

Os assessores de Kerry receberam os relatos sobre os explosivos desaparecidos como uma bênção inesperada nos últimos dias da campanha. Alguns disseram ter observado atônitos a forma como Bush demorou três dias para falar sobre o assunto.

Eles se lembraram de seu próprio erro quando demoraram muito a responder ao ataque de agosto contra o histórico de Kerry no Vietnã, desfechado pelo grupo anti-Kerry, Veteranos das Lanchas de Combate pela Verdade.

Um outro cabo eleitoral de Bush, o ex-prefeito de Nova York, Rudolph W. Giuliani, trocou ataques a respeito dos explosivos desaparecidos com o companheiro de chapa de Kerry, o senador John Edwards, após Giuliani ter falado sobre o incidente no programa "Today", da rede de televisão NBC.

"Não importa como se procure culpar o presidente pelo fato, a responsabilidade real seria das tropas que lá estavam", disse Giuliani no programa. "Eles procuraram de forma suficientemente cuidadosa ou não? Não sabemos".

Giuliani acrescentou: "Bush não quer culpar as tropas quando não está claro que estas devam arcar com a culpa. Na guerra as coisas nem sempre se desenrolam como esperamos".

Edwards, que leu os comentários de Giuliani para uma multidão em Duluth, Minnesota, não mencionou as referências do ex-prefeito à incerteza quanto ao fato de os explosivos estarem ou não no local. Isso fez com que Giuliani disparasse de volta, acusando Edwards de citá-lo fora de contexto.

"Deixe-me dizer isso de forma bastante cuidadosa em meu nome e em nome de John Kerry", disse Edwards. "Nossos homens e mulheres em uniforme fizeram seu trabalho. George Bush não fez seu trabalho". Republicanos demonstram ter sentido o sumiço das armas no Iraque Danilo Fonseca

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