UOL Notícias Internacional
 

29/10/2004

Casa Branca é uma mansão mal-assombrada

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes
O vice-presidente Dick Cheney chegou ao apogeu cedo demais. Ainda faltam alguns dias para o Dia das Bruxas.

Ficamos suficientemente assustados ao achar que o vice-presidente havia criado a sua própria realidade com objetivos políticos. Mas se ele realmente acredita que o Iraque é uma "notável história de sucesso", então a situação é de fato assustadora. Ele já assumiu a sua identidade do domingo: o cientista maluco na mansão mal-assombrada, manipulando tubos de ensaio para obrigar o mundo a se curvar à sua visão distorcida.

Após o 11 de setembro, Cheney se envolveu na sua grande capa negra e se enclausurou no seu calabouço, cuja localização é desconhecida, lendo livros sobre varíola, peste e os piores cenários de terrorismo.

A sua repulsiva imaginação alçou vôo, e ele arrastou um presidente não testado e um país nervoso para a sua casa de horrores, desenhando um retrato sangrento sobre como o Iraque poderia deixar que armamentos temíveis caíssem na mão de malfeitores.

Ele empurrou os Estados Unidos para a guerra a fim de prevenir esse tenebroso banho de sangue. Mas, em uma reviravolta de dar calafrios, a invasão ilegítima do Iraque, protagonizada pelo governo norte-americano, acabou permitindo que armas pavorosas caíssem nas mãos de malfeitores.

A invasão também possibilitou a criação de laços entre a Al Qaeda e o sunitas do Partido Baath, algo que Cheney e os seus Ígors de olhar ensandecido do Pentágono inventaram para justificar a sua ânsia de refazer o Oriente Médio.

Trata-se de algo visto com freqüência em filmes apavorantes: o indivíduo faz o papel de Deus para criar algo à sua própria imagem, e o monstro acaba perseguindo o seu criador.

Determinado a apavorar para valer o mundo árabe, o vice-presidente acabou assustando a legião de espíritos malignos jihadistas que havia conjurado, assim como o mago sem limites de "Fantasia". O Pentágono fez da ocupação um tamanho estrago que possibilitou que a insurgência crescesse como uma gigantesca bolha.

Assim como uma Catherine Deneuve passando por alucinações bizarras no clássico do horror "Repulsion ao Sexo", Cheney e os neoconservadores mergulharam em uma desconcertante psicose ideológica, ficando obcecados com armas imaginárias enquanto permitiam que os inimigos dessem sumiço nas armas reais.

As autoridades encarregadas de nos proteger soaram tantos falsos alarmes que acabaram ignorando todas as ameaças de verdade.

O presidente Bush é como um daqueles felizes e ignorantes adolescentes dos filmes "Sexta-Feira 13", bradando slogans como "A liberdade está em marcha", enquanto Freddy Krueger está à espreita no armário, pronto para arrancar-lhe a pele com as garras.

Bush ignorou as advertências dos seus próprios especialistas, que diziam que Osama Bin Laden planejava conduzir um ataque dentro dos Estados Unidos, que uma invasão do Iraque poderia criar uma peçonhenta aliança entre terroristas externos e os militantes do Partido Baath, e fazer com que todo o mundo islâmico simpatizasse com eles, que Donald Rumsfeld estava planejando uma guerra e uma ocupação sem contar com tropas suficientes, que os tubos de alumínio de Saddam não tinham fins nucleares, que as tropas dos Estados Unidos deveriam tomar conta de 380 toneladas de explosivos lacrados capazes de derrubar aviões e edifícios, e que, após a invasão, o Iraque poderia mergulhar em uma guerra civil.

E, é claro, o presidente ignorou o alerta de Colin Powell, que disse algo semelhante àquele aviso que se encontra nas lojas de peças de cerâmica: Se você quebrar a peça, ela é sua (e você deve pagar por ela).

A marionete do governo norte-americano no Iraque, Ayad Allawi, se voltou contra Cheney e Bush nesta semana, em uma cena que parece ter saído do filme de terror "Chucky".

Allawi acusou as forças da coalizão de "grande negligência" por não terem protegido os desarmados recrutas da Guarda Nacional Iraquiana, que foram trucidados por insurgentes vestindo uniformes da polícia iraquiana. Os recrutas iraquianos estão sendo mortos tão rapidamente que não dá para fingirmos que vamos entregar-lhes o país.

Se você realmente quiser sentir medo até a medula dos ossos neste Dia das Bruxas, ouça aquilo que Peter W. Galbraith, um ex-diplomata que ajudou a tecer a justificativa para uma invasão do Iraque, a pedido de Paul Wolfowitz, disse na sua coluna do "The Boston Globe" na última quarta-feira.

Ele disse ter falado a Wolfowitz sobre "o cenário catastrófico que se seguiria à invasão, a pilhagem desimpedida de todas as instituições públicas de Bagdá, a devastação da herança cultural iraquiana, a raiva do cidadão iraquiano comum que seria incapaz de entender por que a única superpotência do mundo deixaria que tal desgraça ocorresse".

Ele disse a Wolfowitz que multidões estavam saqueando laboratórios iraquianos nos quais havia vírus vivos da leishmaniose visceral e HIV, e roubando barris de yellowcake.

"Mesmo após a minha explanação, os líderes do Pentágono nada fizeram para salvaguardar as instalações nucleares iraquianas", disse ele.

Na sua coluna, Galbraith disse que as armas saqueadas do depósito bélico Al Qaqaa podem ter ido parar no Irã, que obviamente poderá usá-las para procurar fazer artefatos nucleares.

Ele disse que, em abril de 2003, em Bagdá, disse a um jovem tenente que estava do outro lado da rua que amostras do vírus da leishmaniose visceral e HIV tinham acabado de ser roubados. O soldado ficou arrasado e respondeu: "Espero que eu não seja o responsável pelo Armagedom".

É uma pena que isso nunca tenha ocorrido a Cheneystein. Bush e Cheney são bruxos; só isso explica por que invadiram Iraque Danilo Fonseca

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