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29/10/2004

Clima de disputa enlouquece estudantes dos EUA

The New York Times
Mary Duenwald

Em Nova York
Algumas semanas atrás, os pais de um estudante de Harvard confiaram ao médico Richard Kadison, o chefe do serviço de saúde mental desta universidade, a sua suspeita de que a sua filha estivesse enfrentando um problema sério com drogas.

"A estudante em questão rebateu que, embora ela estivesse precisando de alguma ajuda, o seu problema não era com o abuso de qualquer substância", contou Kadison. "No meu entendimento, o problema não era de saber quem está certo e quem está errado, ou qual é o diagnóstico exato, e sim se ela está obtendo a ajuda da qual ela precisa".

O campus da universidade pode ser um lugar muito estressante. Pesquisas mostram que o número de estudantes universitários com problemas de saúde mental de todo tipo está aumentando de modo constante neste ambiente.

Além disso, alguns estudantes encontram-se emocionalmente em apuros, lutando com problemas que vão desde a saudade do lar e da família e as rupturas de relacionamento até o uso excessivo de drogas ou de álcool, passando por depressões graves ou até mesmo, pensamentos suicidas.

Especialistas indicam que, dada a prevalência das dificuldades emocionais no campus, vale a pena verificar, antes de escolher uma universidade, quais serviços de saúde mental ela oferece.

"Uma vez que cada estudante tem grosso modo 50% de chances de apresentar alguns sintomas de depressão ou outros problemas, me parece que esta questão deve ser levada em consideração quando da escolha de uma universidade", avalia Kadison, que é também autor de um livro intitulado "Universidade dos Arrasados: A Crise de Saúde Mental no Campus e o Que Fazer a Respeito".

A maioria das universidades oferece serviços de orientação e de atendimento psiquiátrico, mas este atendimento pode variar consideravelmente em termos de nível e de qualidade. Alguns tratamentos de saúde mental podem estar cobertos pelo contrato que vincula o estudante ao estabelecimento, no qual uma taxa referente a esses custos pode estar embutida nas mensalidades, ou ainda por um seguro de saúde. Já, outros tratamentos tais como consultas com psicólogos especializados ou com especialistas em medicação existentes na comunidade, por exemplo --podem não contar com nenhum tipo de reembolso.

Uma boa estratégia, explicam os especialistas, é procurar verificar qual é a importância da estrutura e da equipe de profissionais da saúde mental que o centro de saúde do campus mantém em operação, quais tipos de serviços são oferecidos e qual é a política da escola quando surgem casos graves, quando um estudante passa a necessitar de um tratamento de longo prazo ou de uma hospitalização.

Os estudantes que estiverem ingressando na universidade e que já estiverem sendo tratados em função de um histórico de depressão ou de alguma outra enfermidade mental podem querer estabelecer acordos com antecedência, de modo a continuarem aquele tratamento uma vez instalados no campus.

Em determinados momentos, cerca da metade de todos os estudantes acabam se sentindo tão deprimidos que eles têm dificuldades em dar conta das suas atividades, enquanto 15% apresentam sintomas que correspondem aos critérios da depressão clínica, segundo informa uma pesquisa realizada em 2004 pela Associação de Saúde da Universidade Americana.

Entre os estudantes que freqüentam os centros de orientação no campus, o número dos que tomam medicações psiquiátricas cresceu para 24,5% em 2003-04, enquanto essa proporção era de 17% em 2000 e de 9% apenas em 1994, segundo estatísticas da Pesquisa Nacional junto às Diretorias dos Centros de Orientação, que vem sendo conduzida anualmente pelo médico Dr. Robert P. Gallagher, da Universidade de Pittsburgh.

As pesquisas mostram que a maioria dos orientadores para questões de saúde mental também constatou um forte crescimento do número de estudantes que apresentam problemas mentais graves, tais como profundas crises de depressão, de desordem bipolar, ou ainda desequilíbrios no plano da alimentação e problemas com drogas e álcool graves o bastante para exigirem uma hospitalização.

Os sete suicídios aparentes que foram cometidos no ano passado por estudantes da Universidade de Nova York ilustraram a gravidade da ameaça que os distúrbios psicológicos de certos estudantes podem representar.

"Existe a ilusão segundo a qual a universidade é uma área segura num meio-ambiente estável", diz o médico Dennis Heitzmann, que é diretor dos serviços psicológicos da Universidade do Estado de Pensilvânia. "Mas, para muitos estudantes, este ambiente não é nem um pouco favorável".

Embora os critérios de admissão na universidade estejam mais rígidos do que nunca, e embora a carga de atividades nunca tivesse sido tão pesada, os especialistas afirmam que o crescimento dos casos de problemas de saúde mental exigindo tratamento entre os estudantes da universidade se deve a muitas causas.

Além disso, o surgimento de novas medicações para a depressão, a desordem bipolar e outros problemas do tipo está fazendo com que muitas pessoas que não teriam sido capazes disso no passado possam freqüentar hoje a universidade.

Embora alguns estudantes resistam a se submeter a um tratamento, a conscientização geral em relação a distúrbios mentais tais como a depressão aumentou, enquanto o fato de procurar ajuda tornou-se mais aceitável. Além disso, alguns orientadores de universidade afirmam que o mundo no qual os estudantes de hoje vivem é bem maior, mais assustador e gerador de angústias do que era uma década ou duas atrás.

O médico Mark M. Harris, diretor-assistente dos serviços de orientação da Universidade do Iowa, conta que o seu serviço atendeu um número de estudantes 20% maior no mês passado do que em setembro de 2003. E os seus colegas de outras universidades estão relatando aumentos semelhantes de atendimentos.

"Os levantamentos que eu tenho feito na lista nacional dos serviços deste setor sugerem que este tem sido o pior outono no que diz respeito aos casos de emergência em duas décadas", comenta o doutor Harris. "Nós estamos registrando um número muito maior de casos de distúrbios provocados pela ansiedade e de ataques de pânico. Com a guerra global contra o terrorismo e com os graus de alerta ao terror, o mundo, de maneira insidiosa, tornou-se um lugar bem mais assustador de se viver".

Outros problemas menos graves, tais como a saudade de casa ou as disputas com companheiros de quarto, também podem se revelar perturbadores o suficiente para exigirem um tratamento.

De modo característico, as grandes universidades públicas e os colégios privados ricos oferecem os mais completos serviços de saúde mental. Mas os centros de orientação nos campi, qual quer seja o seu perfil, estão trabalhando no máximo de sua capacidade.

O centro de saúde mental típico numa universidade dispõe de um certo número de psicólogos, de assistentes sociais e de enfermeiros diplomados do Estado, e ainda, com freqüência, de pelo menos um psiquiatra, que pode ser um consultor trabalhando em meio-período.

"Alguns campi são tão pequenos que o centro de orientação pode oferecer um único profissional apenas", indica Jaquie Liss Resnick, diretora de orientação da Universidade da Flórida e presidente da Associação dos Diretores de Centros de Orientação em Universidades e Colégios.

Contudo, as grandes instituições não só empregam vários orientadores, como elas podem também recorrer aos serviços de residentes de pós-graduação em psiquiatria.

O centro de orientação da universidade de Pensilvânia, por exemplo, um estabelecimento freqüentado por 43 mil estudantes, conta 12 funcionários experientes que trabalham em tempo integral, mais oito cargos equivalentes que são preenchidos por internos e professores-assistentes de cursos de graduação.

Os estudantes que se apresentam em busca de ajuda são quase sempre encaminhados para uma consulta, de modo que os orientadores possam avaliar a gravidade dos seus problemas.

Por exemplo, um estudante sofrendo de uma depressão significativa pode agendar uma série de sessões semanais de tratamento intensivo ou uma vez a cada 15 dias, e, em certos casos, antidepressivos poderão lhe ser prescritos. Já, um estudante cujo problema não for diagnosticado como tão grave pode se ver oferecer uma vaga numa terapia de grupo.

"Para os grupos mais importantes, nós oferecemos atividades em oficinas ou até mesmo, acesso a salas de discussões na Internet", explica o doutor Dennis Heitzmann. A Universidade de Pensilvânia oferece sessões com um grupo de discussão online sobre a saudade de casa, por exemplo.

Uma terapia nos centros de saúde universitários costuma ter uma duração bastante curta, com quatro a seis sessões apenas. Isso se deve, de um lado, ao fato de muitos estudantes terem uma capacidade de recuperação bastante grande que lhes permite reagirem de modo positivo após terem recebido alguma ajuda, e, de outro, ao fato de os estudantes raramente se apresentarem no centro de saúde antes do segundo semestre, o que faz com que eles recebam alguma orientação ou algum tratamento por um período de tempo relativamente curto, até o final do ano letivo, precisa a orientadora Jaquie Resnick.

A fase crítica ocorre em meados do segundo semestre. É nesse período que os atendimentos nos serviços de orientação tendem a alcançar a sua freqüência máxima, por causa do aumento da pressão provocado pela iminência das provas de final de ano, e dos casos de depressão e de crises de ansiedade provocados pela diminuição da exposição dos indivíduos à luz do sol e a uma vida equilibrada.

O resultado disso é que muitos centros de orientação nos campi acabam sendo obrigados a elaborar listas de espera para o atendimento.

"Nós tentamos atendê-los o mais rápido possível para efetuar uma avaliação inicial e tomar as providências que se revelarem ser necessárias de imediato", precisa o doutor Mark Harris, de Iowa.

"Nós selecionamos as pessoas, e tentamos ter uma idéia a mais precisa possível de quem são os alunos que podem esperar e os que não podem".

Seguro de saúde é imprescindível

Os estudantes que precisarem de uma terapia de maior duração podem ser encaminhados para um centro profissional de saúde mental da comunidade, prossegue Dennis Heitzmann.

"Na verdade, é um procedimento equivocado iniciar o tratamento de um paciente quando você sabe de antemão que será obrigado a limitar o número de sessões".

Mas se os estudantes não tiverem nenhum plano de saúde, ou se a comunidade não dispuser de serviços de psiquiatria adequados, o seu encaminhamento para outros estabelecimentos pode se revelar um verdadeiro desafio.

As universidades que dispõem de centros de formação em medicina podem estar mais bem equipadas para dirigir os estudantes até profissionais que atuam fora do domínio universitário. Mas, em certos casos, os pais podem ter de empreender a sua própria pesquisa para descobrir um terapeuta qualificado --e terão de pagar pelo tratamento do próprio bolso.

Gregory Snodgrass, o diretor do centro de orientação da Universidade do Estado do Texas, em San Marcos, diz não ter conseguido convencer os responsáveis dos postos de atendimento médico do Estado que possuem um serviço de saúde mental a atenderem estudantes. "Eles se recusam a atender estudantes, por considerarem que este é o nosso papel", explica.

Quando os estudantes que não possuem nenhum plano de saúde precisam tomar remédios, acrescenta, os psiquiatras da universidade costumam distribuir as amostras grátis que eles recebem no seu consultório.

Em Harvard, os estudantes ingressando na universidade com problemas que exigem um tratamento continuado são colocados temporariamente sob a supervisão dos médicos do campus ou da comunidade, explica o doutor Richard Kadison. Ele acrescenta que os estudantes de Harvard também são incentivados a adquirirem o seguro de saúde da universidade, que inclui uma cobertura das despesas com atendimento e remédios psiquiátricos.

Em certos casos, os estudantes que já tiverem um histórico de problemas de saúde mental na escola ou mais cedo, durante a infância, poderão sofrer uma recaída na universidade. Os anos de estudos na universidade também costumam ser um período durante o qual certos distúrbios mentais sérios, tais como a esquizofrenia, podem surgir pela primeira vez.

"O final da adolescência e o início da vintena constituem um período em que podem começar a aparecer diversos problemas de saúde mental", confirma Mark Harris.

"É nesta fase que costumam surgir os primeiros sintomas de esquizofrenia. E, com freqüência, isso pode se concretizar com um atendimento de emergência num hospital, uma vez que os distúrbios mentais podem tornar as pessoas vulneráveis a impulsos auto-destrutivos".

Participação dos pais

Além disso, os problemas de saúde mental que podem atingir estudantes podem também suscitar perguntas, principalmente quanto à questão de saber até que ponto o envolvimento de parentes é aconselhável.

Alguns estudantes que procuram auxílio médico preferem manter os seus pais alheios a esses problemas como um todo, e, em geral, os orientadores do campus atenderão normalmente ao seu pedido.

Os estudantes que já completaram 18 anos são legalmente independentes dos seus pais. Mas, a maioria dos orientadores dos centros universitários de saúde mental, se considera autorizada a informar os pais, caso um estudante for hospitalizado, a partir do momento em que este mesmo estudante ainda estiver dependente financeiramente dos seus pais, segundo apurou a pesquisa conduzida pelo doutor Robert Gallagher, da Universidade de Pittsburgh.

Esta pesquisa também apurou que, em geral, quando um orientador suspeita de que determinado estudante esteja sofrendo de tendências suicidas e de que ele corre um risco potencial, ele costuma incentivá-lo a informar os seus pais de sua situação, e, na maioria dos casos, esse estudante irá acatar esta orientação.

Esta questão tornou-se particularmente sensível desde o suicídio, amplamente repercutido pela mídia, de Elizabeth Shin, uma estudante do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, em 2000.

Shin havia tido uma consulta no centro de orientação desta universidade antes da sue morte. Os seus pais estão agora processando a universidade por não terem sido informados sobre o caso.

Entretanto, em outros casos, os pais são colocados diante do problema oposto: Eles sabem, ou suspeitam, de que os seus filhos estão sofrendo, mas eles estão inseguros em relação ao caminho a seguir para convencê-los a recorrerem aos serviços médicos da universidade.

Mas os orientadores afirmam que, por via de regra, eles não pressionam os estudantes a seguirem algum tratamento, a pedido dos seus pais.

"Um dos conceitos no qual nós nos baseamos é a convicção de que os estudantes, ao se tornarem maiores de idade, se tornam indivíduos independentes, e que eles são livres para escolher se querem se submeter a um tratamento ou não", indica Dennis Heitzmann.

Mas os orientadores podem também dar conselhos aos pais em relação às maneiras de lidarem com os seus filhos --ouvindo com mais atenção o que eles têm a dizer, evitando repreendê-los de maneira sistemática e mantendo um contato permanente com eles.

Os pais que tiverem o sentimento de que o seu filho esteja com algum problema podem lhe sugerir que ele faça pelo menos uma consulta no centro de orientação da universidade.

Se o estudante acatar o seu conselho mas, posteriormente se recusar a seguir qualquer tratamento, o que acontece com freqüência, os pais podem não ter outra escolha, a não ser respeitar a sua decisão.

"Uma das coisas que eu sou obrigado a aceitar como médico clínico, o que é doloroso para mim e pode ser uma fonte ainda maior de sofrimento para os pais", conclui o doutor Richard Kadison, "é que você pode conduzir um cavalo até onde está a água, mas você não pode forçá-lo a beber". Cresce o número de universitários com problemas de saúde mental Jean-Yves de Neufville

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