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29/10/2004

Mestre brasileiro do jazz inicia turnê pelos EUA

The New York Times
Larry Rohter

No Rio de Janeiro
Miles Davis costumava chamá-lo de "aquele albino louco", mas o compositor e versátil instrumentista Hermeto Pascoal nunca se ofendeu. Aqui em seu país, já era conhecido como "o gênio louco da música popular brasileira" e "o bruxo". Assim, mais um apelido afetuoso apenas reforçava sua fama de prodígio excêntrico.

Por outro lado, descrever a música de Pascoal sempre se provou uma tarefa difícil. Pascoal e seu quinteto tocarão na série de jazz do Lincoln Center, nas noites de sexta-feira (29/10) e sábado, no que será o início de uma rara turnê pelos EUA no mês de novembro.

Ele admite, entretanto, que estaria igualmente confortável tocando com uma orquestra sinfônica ou em um baile folclórico campestre.

"Tenho 68 anos e, até hoje, nunca fui capaz de definir o tipo de música que faço", disse Pascoal em uma entrevista, antes de se apresentar no Rio de Janeiro, neste mês. Apesar de dar preferência ao piano, usa uma variedade de instrumentos: "Sou um músico de jazz quando toco jazz. É uma parte, uma parte forte, da minha música. Mas é apenas uma das coisas que faço, não é a única."

Para os luminares do jazz com quem Pascoal trabalhou durante os anos, desde Davis até Ron Carter e Cannonball Adderley, pouco importa o rótulo de sua música. Hoje em dia, a influência de Pascoal é igualmente forte entre jovens músicos, que procuram seus discos antigos em vinil e admiram a complexidade das harmonias em seus arranjos orquestrais e a imprevisibilidade brincalhona de suas composições.

"Ele é um dos meus compositores prediletos de todos os tempos, e o apresentei a muitas pessoas", disse o trompetista Nicholas Payton, em entrevista por telefone de New Orleans. "Ele está tão à frente que levou um longo tempo para que o público o acompanhasse e para que tivesse a exposição que merece."

Uma das coisas que o tornam tão especial, acrescentou Payton, é que "ele é muito contemporâneo, mas com os pés no chão". Como disse Payton: "Ele não tem medo de se arriscar; é selvagem; faz qualquer coisa, mas o que o me inspira é que mesmo quando está fazendo abstrato, você sente os ritmos brasileiros, a conexão com o centro de sua cultura, de sua música."

Cada vez mais, porém, o apelo de Pascoal se estende para além do mundo do jazz. Suas composições para orquestra foram apresentadas na Europa e na América Latina. O Kronos Quartet ficou impressionado com um de seus shows nos EUA, nos anos 80, e encomendou e toca uma composição enérgica de Pascoal, "Marcando Tempo".

"Não sei se é uma comparação justa, mas uma pessoa similar na música americana poderia ser Charles Ives", disse o violinista David Harrington, fundador do quarteto.

"Hermeto é criativo da forma mais fundamental e revigorante, com uma imaginação expansiva como a de uma criança, uma enormidade de fontes de inspiração e uma curiosidade vibrante, um sentimento de que, onde quer que estejamos, há sons que podem se tornar parte de experiências musicais."

Origens

Nascido no Estado pobre de Alagoas, no Nordeste do Brasil, ainda criança Pascoal foi atraído pelo que chamou de "a beleza sagrada e abertura da música". Mas como tinha problemas visuais associados com sua condição de albino, os professores de música não o quiseram como aluno, dizendo-lhe que não seria capaz de ler ou escrever partituras.

Como resultado, teve que aprender a tocar instrumentos sozinho e é, em suas próprias palavras, "completamente autodidata". Ele começou aos 7 anos com o acordeão, que ele tocava nos bailes do interior. Adolescente, mudou-se para a cidade grande de Recife, quando passou a tocar em programas de rádio.

"Não tínhamos nada lá na roça, nem rádio, nem piano, nem nada, então me sentia um órfão", lembra-se. "Até fazer 14 anos, eu tocava mais para os bichos, e essa experiência é parte da minha essência."

No início da era da bossa nova, entretanto, Pascoal já tinha chegado ao Rio e encontrado trabalho como instrumentista e arranjador. Ele passou grande parte dos anos 60 em uma banda com o percussionista Airto Moreira, tocando uma mistura de samba, bossa nova e jazz.

Miles Davis

Foi em torno de 1970, em sua primeira viagem aos EUA, que Pascoal conheceu Davis. Moreira, então membro do Davis Group, tinha pedido a seu antigo colega de banda que escrevesse músicas e arranjos para um disco que planejava gravar.

No entanto, quando Davis ouviu as músicas que Pascoal escrevera, não apenas quis entrar no estúdio para gravá-las com Pascoal, como também convidou o "albino louco" a excursionar com a banda como pianista.

Pascoal recusou a oferta, mas duas de suas composições, "Igrejinha" e "Nem Um Talvez", acabaram sendo incluídas no disco inovador de Davis, "Live Evil".

Originalmente creditadas a Davis, sua autoria foi restaurada a Pascoal depois de uma longa batalha, mas atualmente aparecem novamente como composições de Davis, o que significa que Pascoal não está mais recebendo os royalties pelas músicas.

"Isso foi erro da empresa fonográfica, não de Miles", disse ele. "Ele e eu tínhamos uma amizade muito espiritual, e ele sempre me protegia. Certa vez ele até me levou para ver seu médico e disse a ele, em sua voz rouca: 'cuide bem dele, é um gênio.'"

Os críticos no Brasil e nos EUA também compararam Pascoal a Frank Zappa. Ambos mostram uma predileção por tripletos, orquestrações densas e temas melódicos que mudam rapidamente. No entanto, Pascoal, que por muitos anos nem tinha um toca-discos, disse que nunca ouviu a música de Zappa.

"Todo mundo faz essa comparação, mas eu nunca me preocupei em ouvir muita música, para não ser influenciado pelos outros", disse ele. "Nem ouço muito a minha música, para não me repetir."

Como Zappa, Pascoal é famoso por seus ensaios longos e exigentes. Frequentemente, ele pede aos membros da banda para trocarem de instrumentos, para que tenham maior versatilidade e apreciação pela estrutura das peças que estão tocando.

"Tínhamos que aprender essas partes extremamente complexas e harmonicamente difíceis. Então, praticávamos cinco dias por semana, fizesse sol ou chuva, seis horas por dia", disse Jovino Santos Neto, pianista brasileiro que tocou na banda de Pascoal por 15 anos e agora mora em Seattle.

"Ele sabe como desafiar o músico. Ele dá um pouco além do que você sabe fazer, mas não tão longe que você não possa eventualmente alcançar."

O próprio Pascoal estabelece um padrão alto como instrumentista. Ele toca piano, saxofone, violão, flauta, acordeão e uma variedade de instrumentos de percussão, alguns inventados por ele.

"O instrumento que mais gosto é o que eu estou tocando na hora", disse ele. "Mas se Deus me fizesse escolher apenas um, eu tocaria o piano, porque contém tudo: melodia, harmonia e ritmo, e é o pai de todos os instrumentos."

Profundamente espiritual, acreditando que "música é prece", Pascoal também é um compositor prolífico, que algumas vezes escreve "música nos guardanapos" quando não tem papel à mão.

Em um exercício memorável, publicado em forma de livro como "Calendário do Som", ele escreveu uma música para cada dia do ano, terminando pouco depois de uma apresentação no Central Park, no dia 21 de junho de 1997, o último dia em que se lembra de ter tocado na cidade de Nova York.

"A chave para ser capaz de compor é nunca fazer nada de forma premeditada, mas se dar por inteiro ao momento, à intuição e à energia que está no ar", disse ele.

"Você pode não acreditar nisso se não quiser, mas quando estou compondo, sinto outros compositores que já foram para o céu se aproximando", de Chopin e Mozart a Thelonious Monk e Davis.

Entre os músicos, as histórias sobre a habilidade de Pascoal de ouvir música em tudo são abundantes. Certa vez, enquanto gravava o disco "Slave Mass", nos anos 70, ele levou um par de porcos para o estúdio e "tocou" os bichos como se fossem gaitas de fole. Em outra ocasião, ele gravou a narração de um jogo de futebol no rádio e escreveu uma música baseada em seus ritmos e tons.

"Música é a expressão de algo que flui por Hermeto 24 horas por dia", disse Santos. "Estar em sua companhia é como estar perto de uma cachoeira. Esteja ele andando, compondo ou tocando, tem algo acontecendo o tempo todo." Albino louco, Hermeto Pascoal faz uma música além de definições Deborah Weinberg

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