UOL Notícias Internacional
 

29/10/2004

Sul-africanos erguem barreiras para isolar pobres

The New York Times
Michael Wines

Em Johanesburgo
Nick Karvelas diria que esta não é uma cidade típica de Robert Frost. Como toda criança americana sabe, Frost foi o poeta que escreveu que "boas cercas geram bons vizinhos". A conclusão lógica seriam os moradores de Johanesburgo como vizinhos excepcionais: na última década, eles ergueram cercas e portões que fecharam 1.245 vias públicas.

Na prática, é claro, as barreiras são a antítese da boa vizinhança. Seu propósito é proteger as pessoas atrás delas --em geral brancas e ricas-- de uma epidemia de crimes nas ruas, na maior parte de negros de baixa renda.

É por isso que Karvelas está em uma cruzada para derrubá-las. A noção de que os brancos podem impedir os negros pobres de usarem vias públicas não é apenas ilegal, diz ele, é uma volta aos dias em que milhões de negros ficavam fechados em guetos e impedidos de andar nas áreas de brancos sem passes do governo.

"Simplesmente acredito que as pessoas mudaram do lado da cerca. Antes, cercavam as massas, agora, se cercam das massas", disse ele. "Realmente acho que é apenas outra forma de apartheid".

Karvelas, diretor escolar e palestrante universitário, formou um lobby e um site na Web para promover sua causa. Ele atazanou a prefeitura de Johanesburgo, sugeriu que ia questionar judicialmente a constitucionalidade das cancelas e portões e, no mês passado, defendeu sua causa diante do Conselho Nacional de Direitos Humanos.

Na maior parte das grandes cidades, talvez fosse desprezado como um militante cívico irritante, que vem incomodar as reuniões do conselho. De fato, em outras cidades, a questão seria resolvida em sessões sonolentas de comitês do departamento de trânsito e de associações de moradores.

Não em Johanesburgo. Aqui, o assunto toca aos ricos e pobres, negros e brancos. O debate sobre o isolamento das ruas impõe questões espinhosas sobre até que ponto o direito de uma pessoa andar livremente pode ser contrabalançado pelo direito de segurança de um morador.

Mas além disso, a questão desafia a fantasia que ainda une essa sociedade multirracial, 10 anos depois do fim do apartheid: o conceito de uma nação multicolorida milagrosa, nascida pronta da benevolência de Nelson Mandela. Colocando de lado o ativismo de Karvelas, essa não é uma questão inteiramente racial ou clara.

As cancelas (que os sul-africanos chamam de "booms") começaram a surgir nos subúrbios mais ricos, do norte da cidade, depois da transição de 1994 para o governo da maioria --e o êxodo de muitos servidores civis brancos. As mudanças levaram a um declínio dramático na proteção policial e um aumento nos crimes violentos.

O crime, não a raça, é o que está por trás da proliferação de cancelas, dizem seus advogados.

Johanesburgo tem fama de ser uma das cidades mais violentas do mundo, uma reputação que o governo diz ser um mito racista. Mito ou não, o crime é uma dor de cabeça: com base nos dados policiais de 2001, o famoso Centro de Estudos da Violência e da Reconciliação concluiu que um em cada 110 moradores tinha sofrido roubo à mão armada naquele ano, um em cada 605 tinha sido seqüestrado e um cada 1.332, assassinado.

Por comparação, o FBI diz que um em cada 2.431 habitantes de Detroit foi morto em 2001, e um em cada 134, roubado. Os dados equivalentes de Nova York foram de um em cada 12.195 foi assassinado e um em cada 284, roubado.

A maior parte desses crimes ocorreu em áreas pobres. Pode-se questionar se os suburbanos ricos correm risco real ou se estão apenas assustados. O que parece menos discutível é que as barreiras realmente reduzem os crimes para quem está atrás delas.

Alphen Park, um bairro de classe média a oeste do centro de Johanesburgo, sofreu inúmeros roubos, assaltos de carros, seqüestros e um assassinato antes de receber permissão para fechamento de sua rua de acesso.

"Em dois anos e meio, não houve nenhum crime. Nenhum seqüestro. Nenhum estupro. Acho que alguém roubou um ferro de passar roupas", disse em entrevista telefônica George W. Botha, cuja empresa supervisiona as cancelas e os seguranças que trabalham neste e em outros bairros.

O líder de um lobby em favor das cancelas em cerca de 40 bairros, chamado Combined Chairpersons for Road Closures, foi claro: "Este lugar é diferente da 'sociedade normal'. Temos assaltos a qualquer hora do dia, seqüestros constantes, assaltos a mão armada contra cidadãos de qualquer cor ou classe econômica, que não podem contar com uma força policial competente", disse Pat Redford, em mensagem eletrônica.

Judith Stockhill, do conselho do bairro de Sandhurst, que é cheio de cancelas, diz que fica irritada com o argumento de que as cercas e os portões excluem os negros para que os brancos se sintam seguros.

A maior parte das vítimas em sua área, disse ela, são trabalhadores negros que caminham entre seus empregos domésticos e de jardinagem em Sandhurst e a favela próxima de Alexandra.

"As vítimas de crime são predominantemente negras, porque a população é predominantemente negra", disse ela. "E como têm que andar pelas ruas à noite, são vulneráveis. Certamente se beneficiam com ruas seguras."

"Pseudoliberais", responde Karvelas. "Observamos as cancelas. Os guardas não tratam as mulheres brancas da mesma forma que tratam os homens brancos e não tratam os homens negros da mesma forma. Como disse um sujeito nas audiências do Conselho de Direitos Humanos, se a pessoa parecer suspeita, eles a impedem de entrar."

O debate levou o Conselho de Direitos Humanos a estudar a questão. O conselho emitirá uma opinião sobre a utilidade das cancelas no mês que vem.

Karvelas disse que pretende levar o assunto ao ministério de segurança nacional, alegando que os "booms" são inconstitucionais. Ele compara o fechamento das ruas com a tomada ocasional de grandes rodovias pelas multidões de pobres, protestando contra a falta de serviços municipais em seus bairros.

No entanto, é provável que Karvelas ainda tenha que percorrer muitos quilômetros nessa batalha, antes de poder descansar. Apesar de a prefeitura desencorajar as cancelas, também tomou medidas para legalizar as que obedecem suas normas, entre elas, ter o apoio de 80% dos moradores.

O prefeito mora em uma rua fechada. Assim como --observou o presidente Thabo Mbeki, em recente ensaio sobre raça e crime nesta nação-- um número crescente de negros ricos. Justificativa é reduzir níveis de criminalidade nas grandes cidades Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h00

    0,85
    3,154
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h05

    -1,26
    74.443,52
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host