UOL Notícias Internacional
 

30/10/2004

Direita culpará a imprensa pela derrota de Bush

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do NYTimes
Por via das dúvidas, a direita já está explicando a derrota do presidente Bush: é tudo culpa da "mídia liberal", especialmente do jornal The New York Times, que, segundo a teoria da conspiração, deliberadamente segurou sua reportagem sobre o desaparecimento dos explosivos de Al Qaqaa --uma reportagem ainda mais maliciosa porque verdadeira-- para a semana anterior à eleição.

É notável que a direita, que domina os noticiários a cabo e a rádio falada, ainda se queixe da influência liberal na mídia. Mas, deixando de lado esse absurdo, eles não estão vendo um ponto crucial: Al Qaqaa dificilmente é a única história de incompetência e mentira que veio à superfície nos últimos dias.

Vamos dar uma olhada rápida em algumas outras:

  • Deixar Osama fugir

    Pouco antes de surgir a história sobre Al Qaqaa, a campanha Bush-Cheney estava tentando freneticamente desmentir a declaração de John Kerry de que Bush deixou Osama bin Laden fugir quando ele estava encurralado em Tora Bora (Afeganistão). Essa fuga, afirma Kerry, foi possível porque o governo "terceirizou" para chefes guerreiros afegãos o trabalho de fechar as rotas de escape.

    Em resposta, o general Tommy Franks afirmou que não sabemos se Osama estava em Tora Bora, e de qualquer modo não terceirizamos o trabalho de apanhá-lo. Dick Cheney chamou as alegações de Kerry de "lixo total". Mas diversas reportagens de 2001 e do início de 2002 confirmam a versão de Kerry. Como escreve o especialista em terrorismo Peter Bergen, a acusação de Kerry é "um reflexo preciso do registro histórico".

  • Deixar Zarqawi fugir

    Na segunda-feira o "Wall Street Journal" confirmou uma reportagem anterior de que em 2002 os militares tinham planos para atacar a base do líder terrorista Abu Musab al-Zarqawi em uma área do Iraque que não estava sob o controle de Saddam.

    Mas autoridades civis vetaram o ataque --provavelmente porque achavam que poderia minar o apoio político à guerra contra Saddam. Assim Zarqawi teve a oportunidade de continuar matando.

  • A situação no Iraque

    Dick Cheney está dizendo a seus seguidores que o Iraque é uma "história de sucesso notável". Mas as notícias do Iraque continuam piorando. Depois que 49 recrutas da Guarda Nacional iraquiana foram mortos, no estilo execução, até o primeiro-ministro Ayad Allawi --que geralmente age como um porta-voz de fato da campanha Bush-Cheney-- acusou as forças da coalizão de "negligência grosseira".

    Agora está claro que a rebelião é muito maior do que as autoridades americanas admitiam inicialmente, e que as forças de segurança iraquianas foram fortemente infiltradas.

  • Mais US$ 70 bilhões

    No início desta semana o "Washington Post" divulgou que autoridades do governo estão planejando pedir mais US$ 70 bilhões depois da eleição para o Iraque e o Afeganistão. Seja qual for o número exato, há muito tempo está evidente para observadores atentos que isso ia acontecer, mas a notícia foi um choque para muitas pessoas que ainda não percebem como é profundo o pântano em que Bush nos meteu.

    Todas essas histórias estariam tendo maior repercussão agora se não fosse pela confusão de Al Qaqaa. Mas podemos entender por que a direita está tão irritada.

    Afinal, a Al Qaqaa ilustra de maneira especialmente clara os fracassos da liderança de Bush na segurança nacional. Soldados americanos passaram por Al Qaqaa, um depósito de munição crucial, mas nunca foram informados de que era importante controlar o local.

    Se as autoridades objetam que não podiam ter mobilizado tropas suficientes para proteger o local, estão admitindo que fizeram a invasão sem tropas suficientes. E o fato de que esses explosivos caíram em mãos desconhecidas é um exemplo perfeito de como a guerra no Iraque piorou a ameaça terrorista.

    A história de Al Qaqaa revelou o pior em uma campanha dedicada à proposta de que o presidente é infalível --e quando as coisas dão errado é sempre culpa de outra pessoa. Aqui está o que Rudy Giuliani disse na quinta-feira: "Não importa como vocês tentem atribuir a culpa ao presidente, a verdadeira responsabilidade por isso realmente seria das tropas que estavam lá. Elas procuraram com suficiente cuidado?" Apóiem as tropas!

    Mas, pior que tudo do ponto de vista da direita, Al Qaqaa perturbou a estratégia de mídia da campanha. Karl Rove claramente pretendia transformar os últimos dias da campanha em uma série de momentos de "teste global" --pegando alguma coisa que Kerry disse e distorcendo seu significado, então gerando as pseudo-polêmicas que dominam as ondas aéreas. Em vez disso, a mídia noticiosa passou os últimos dias discutindo fatos. E isso é uma notícia muito ruim para Bush. Noticiário da última semana gira em torno de fracassos no Iraque Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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