UOL Notícias Internacional
 

30/10/2004

Indefinido, "velho oeste" decidirá futuro dos EUA

The New York Times
Timothy Egan

Em Acoma, Novo México
Ao pôr-do-sol do dia da eleição, o Oeste americano poderá se tornar o cenário da vitória para o homem que se tornará o presidente pelos próximos quatro anos.

Apesar de toda a atenção dada pelos partidos a Sioux City, Iowa, ou Dayton, Ohio, a eleição poderá ser decidida em locais como Lake Havasu City, Arizona, onde a Ponte de Londres foi transplantada para as areias escaldantes do Deserto Mojave, ou aqui em Acoma, um povoado de índios americanos que alega ser a cidade ininterruptamente habitada mais antiga do país.

Altamente urbanizado apesar de seus espaços abertos, e em breve de maioria hispânica, o Oeste também é uma região imprevisível em busca de uma nova identidade política. A guerra, terror, custo cada vez mais alto dos planos de saúde, tudo importa aqui tanto quanto em qualquer outro lugar, mas as pessoas tendem mais a ser independentes.

Já que o mapa eleitoral secou no Sul para os democratas, eles se voltaram para o há muito esquecido interior do Oeste. Mas ambas as campanhas descobriram que lealdade política é difícil de ser encontrada aqui.

"Eu sou um democrata que votou em George Bush na última eleição, mas votarei em John Kerry porque as coisas não parecem certas, e talvez a mudança seja a única saída", disse Amanda Mordem, uma assistente de enfermagem em Bullhead City, Arizona, uma cidade em crescimento na divisa de um condado que inclui várias reservas indígenas.

Cinco Estados --Oregon, Nevada, Arizona, Colorado e Novo México, com um total de 36 votos eleitorais-- ainda estão ao alcance de ambos os candidatos, segundo as mais recentes pesquisas.

Uma viagem por estes cinco Estados nesta semana, enquanto milhões de pessoas estão buscando votar antecipadamente, revelou um grande território envolvido profundamente nas batalhas finais da campanha.

"Não dá para ignorar neste ano --as pessoas estão altamente interessadas nesta eleição", disse Elisabeth Boyd, que trabalha no Face to Face Spa em Bend, Oregon, onde a política tem dividido espaço nas conversas sobre esfoliantes maravilhosos e cremes faciais que não atacam o meio ambiente.

O ex-presidente Bill Clinton planeja uma visita ao Novo México nestes sábado e domingo (30 e 31/10), para convencer os eleitores a dar aos democratas os mesmos cinco votos eleitorais pedidos pelo pai do presidente Bush na quinta-feira.

"Eu nunca vi uma agitação como estamos vendo neste momento no Oeste", disse Ron Judd, diretor da região Oeste da central sindical AFL-CIO. "Esta mobilização se assemelha a que ocorreu em 1994, quando o Congresso mudou de mãos, como se estivéssemos às vésperas de algo grande."

Choque cultural no Oregon

No Oregon, um Estado onde os médicos podem prescrever medicamentos para que os doentes terminais possam se matar, mas onde o auto-atendimento nos postos de gasolina é proibido, as pessoas estão votando há mais de uma semana por correspondência.

Durante grande parte do ano, o Oregon parecia que seria decidido por cara ou coroa, com uma ilha de democratas na região metropolitana de Portland cercada por condados republicanos do interior.

Alguns habitantes acreditam que o Estado está seguindo o mesmo caminho que o Colorado nos anos 90, cheio de exilados republicanos da Califórnia.

Mas os democratas ainda estão otimistas.

Al Gore conseguiu uma vitória por 7 mil votos em 2000, mas foi prejudicado por Ralph Nader, que obteve 5% dos votos. Neste ano, Nader não está na cédula.

Democratas e republicanos estão lutando no condado de Deschutes, do outro lado das montanhas em relação a Portland. O condado cresceu 54% nos anos 90, atraindo pessoas que viviam das trutas que vivem nos riachos que serpenteiam através do deserto.

"Onde há dinheiro, há republicanos", disse Johnston. "E há muito dinheiro lá."

Os coringas de Nevada

Ao sul, em Nevada, o dinheiro está no ar ininterruptamente, e em terra, já que as campanhas transportam de ônibus as pessoas até os centros móveis de votação.

"Quem quer votar, venha por aqui até o ônibus", disse um colaborador da campanha de Bush na última terça-feira, do lado de fora do gigante Victory Christian Center, em um shopping de rua em Henderson, durante grande parte da última década a cidade que crescia mais rapidamente no país.

Apesar de Nevada ter apenas cinco votos eleitorais, eles têm sido disputados como se fossem o último terreno disponível na avenida principal de Las Vegas.

A poucos quarteirões de distância, sindicalistas treinavam seus argumentos e estudavam os mapas do bairro para um dia de campanha a pé. Eles foram instruídos a lembrarem as donas de casa sobre o depósito de lixo nuclear planejado para o Monte Yucca --uma questão que tem sido explorada por Kerry.

Paul Sanchez, um dos muitos líderes sindicais de fora do Estado que estão fazendo campanha política no deserto, tem um número de telefone rabiscado nas costas de sua mão. "Eu vou até os bairros pobres, bato nas portas, e apenas peço para as pessoas ligarem para este número --assim alguém virá buscá-las para levá-las até os centros de votação", disse Sanchez.

Apesar dos republicanos serem considerados como tendo uma ligeira vantagem em Nevada, os coringas são as medidas que serão submetidas a plebiscito na cédula, em particular uma popular, que aumentaria o salário mínimo.

Questões locais são uma grande preocupação para Debra Pinkerton, uma eleitora indecisa que mora em Searchlight, uma cidade onde venta muito, no extremo sul do condado de Clark.

"Um dos meus filhos trabalha em Vegas e ganha US$ 11 por hora, mas precisa pagar US$ 70 por semana de plano de saúde, que ele precisa porque ele e sua esposa acabaram de ter um bebê", disse Pinkerton, que se considera uma das pioneiras de Nevada, com avós que se mudaram para o Estado nos anos 30, quando Nevada mal contava com 90 mil habitantes.

Com a economia passando por um boom, emprego não é tema em Nevada. Casas em construção despontam até os limites do deserto.

Os democratas estão contando com uma postura cultural "viva e deixe viver" para combater republicanos como Mary Bolinger, que já votou e estava caminhando por Henderson com um button dizendo: "Sou republicana e cristã. Você tem algum problema com isto?"

O problema para os republicanos pode ser que Nevada, assim como o Oregon, é um dos últimos no ranking dos Estados em percentual de freqüentadores de igreja.

O salto democrata no Colorado

Por outro lado, as grandes igrejas no Colorado podem dar aos republicanos vantagem suficiente para manter o Estado após o aumento surpreendente dos indecisos. A meca dos cristãos conservadores é Colorado Springs, uma área metropolitana de quase meio milhão de habitantes que transpira juventude, prosperidade e o otimismo das Montanhas Rochosas.

A Igreja Vida Nova, cuja construção de vidro e concreto pode ser vista de quilômetros de distância, se ergue nos limites da cidade.

A matemática eleitoral, para os republicanos, vem das novas casas grandes ao longo da Front Range. "Nós os chamamos de classe média da Califórnia", disse Rob Brendle, pastor associado da Vida Nova, apontando para um mar de mansões. "Estes bairros estão cheios de evangélicos que vieram para cá em busca de uma vida nova."

Dentro do complexo da Vida Nova, onde trabalhadores estão concluindo uma nova igreja com capacidade para 7.500 pessoas e muitos exibiam buttons dizendo "Eu votei", o escritório principal exibe fotos do pastor chefe Ted Haggard posando ao lado do presidente Bush e de Mel Gibson.

Haggard --ou Pastor Ted, como todos na igreja o chamam-- é presidente da Associação Nacional dos Evangélicos, que diz representar 30 milhões de pessoas. Ele já esteve duas vezes no Escritório Oval desde que Bush assumiu a presidência.

"Nós mantemos contato regular com Karl Rove", disse Brendle, se referindo ao conselheiro político chefe do presidente. Apesar de a igreja ser oficialmente apartidária, a oposição ao casamento gay e ao aborto a colocaram fortemente no campo republicano.

Para vencer esta eleição, disse Rove, os republicanos precisarão do voto de cerca de 4 milhões de evangélicos que não votaram em 2000. Brendle previu um enorme comparecimento da direita cristã --pelo menos 75% dos 11 mil membros da Igreja Vida Nova.

"Nosso pessoal não precisa ser levado de ônibus até as urnas e nem receber um sanduíche", disse ele. Os democratas dizem que o Colorado está mudando à medida que o número de exilados da Califórnia, de tendência republicana, se estabiliza, e os hispânicos, que correspondem a 17% da população, ganham terreno. Além disso, os subúrbios mais antigos ao redor de Denver têm sido um novo território promissor para os democratas.

O crescimento da população hispânica pode ser o motivo para Kerry ter escolhido Pueblo, em um condado no sul do Colorado que conta com quase 40% de hispânicos, como local para sua última visita há poucos dias.

Ele apareceu com o superastro hispânico do Estado, o secretário de Justiça, Ken Salazar, que está travando uma disputa acirrada com o candidato republicano, Pete Coors, por uma cadeira no Senado.

A força hispânica do Arizona

Os hispânicos também poderão decidir o destino do Arizona, outro antigo Estado garantido para os republicanos mas que recentemente foi considerado como indefinido por uma pesquisa do "The Arizona Republic", apesar de outras pesquisas darem a Bush uma ligeira vantagem.

O Estado conta com 25% de hispânicos e ganhou 470 mil novos eleitores registrados --e mais dois votos no Colégio Eleitoral-- desde a campanha de 2000.

Apesar de os republicanos terem uma margem de cerca de 100 mil votos em registro partidário, mais de um entre cinco eleitores no Arizona são independentes, uma posição política onde se situam muitos no novo Oeste.

O voto latino é complicado: eles são mais conservadores em questões sociais e não costumam comparecer às urnas em grande número. Mas ninguém nega sua crescente influência. Há 3,6 milhões de hispânicos, ou quase um em cada quatro habitantes, no Arizona, Novo México, Colorado e Nevada.

O outro grande grupo eleitoral no Arizona é o da terceira idade, e são eleitores mais confiáveis do que qualquer outro grupo. Em Bullhead City, uma comunidade de retiro e recreação que está crescendo rapidamente no meio do Deserto Mojave, às margens do Rio Colorado, os idosos estavam furiosos nesta semana com a escassez de vacinas contra gripe. Mas eles não estão responsabilizando Bush.

"Eu não consegui tomar minha vacina contra gripe e realmente preciso dela, porque tenho enfisema", disse Barbara Martinez, uma aposentada em Bullhead City, que estava almoçando na lanchonete de um posto médico. "Mas não vejo como culpar o presidente Bush por isto."

As questões indígenas do Novo México

O Novo México, onde as famílias de sobrenome espanhol são seculares e os índios americanos em Acoma têm ligação direta com os antigos Anasazi, pode ser o Estado mais difícil de ser entendido pelas campanhas.

Os hispânicos correspondem a 42% da população --o maior percentual de qualquer Estado no censo de 2000-- enquanto os brancos não-hispânicos correspondem a 48%. Em comparação à média nacional, o Novo México é pobre, jovem e está crescendo --em 20% no último censo.

Os índios americanos, que correspondem a 9% da população, apenas agora estão sendo cortejados. Ao longo da semana passada, a irmã de John Kerry esteve aqui em Acoma, assim como Gale A. Norton, a secretária do Interior.

No topo da Sky City em Acoma, onde as pessoas vivem sem eletricidade em um cume de pedra a cerca de 2.100 metros acima do nível do mar, alguns índios americanos disseram que não votarão, e que não significa nada para eles quem governa em Washington.

Mas os líderes tribais disseram que esperam que as campanhas dêem a mesma atenção aos seus problemas quanto deram a grupos de interesse como os pecuaristas do setor de laticínios, em Wisconsin. Marva Toya disse que está preocupada com o possível fechamento de um hospital indígena a uma hora de distância dali, em Albuquerque.

Darrell Felipe, o administrador de operações tribais de Acoma, disse: "Se um candidato apresentasse uma única questão nativo-americana, ele receberia o voto nativo. Mas eles não falam sobre nós".

Neste ano, nas horas finais da disputa, as pessoas que moram em uma cidade que a maioria dos historiadores concorda ter o dobro da idade de Boston poderão ter o que desejam. Republicanos e democratas crescem em Estados onde eram fracos George El Khouri Andolfato

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